quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Maurício Kubrusly entrevistando o presidente da ASCRON

É preciso ser muito macho pra ser corno


Por Tadeu Nascimento


Corno, antes não sê-lo, mas não o sendo, como sabê-lo? Quem não tem um na família? E se não o tem, não tenha dúvida, é porque ainda não se tem conhecimento de sua existência. Trata-se do corno invisível. E mesmo se realmente não existir, creia, está a caminho. É o corno futurista ou corno download (está baixando). A cornoedade está ficando tão comum que o corno está perdendo sua importância. Daqui algum tempo, não ser corno, será uma desonra: "Olha lá, o anticorno do seu Antero com sua mulher! Que vergonha! Eles não se corneam, logo eles, nascidos de famílias tão defensoras dos bons costumes dos chifres!" Foi-se o tempo do corno sair por aí, dando tiros. Não se vê mais chilique de cornudo. Mário Prata (mineiro de Uberaba), em uma de suas crônicas, disse que em Minas, além de uma associação de machões tem uma de cornos. Por que não, penso eu, se existe a de gays, lésbicas e simpatizantes? Fui conferir no Google: meu amigo, tem associação de cornos até em Fortaleza- terra de cabras machos- cuja razão social é Associação dos homens mal amados do Ceará conhecida com Associação dos cornos que saiu até no Globo Repórter e conta com 8 mil integrantes, com estatuto registrado em cartório e cadastro na Receita Federal. Existe uma em Capão da Canoa, Rio Grande do Sul (mas também com este nome...). E também a ASCRON- Associação dos Cornos de Rondônia- que tem convênio (descontos) com farmácias, supermercados e táxi para os seus 7.800 associados- além de churrasco com cerveja todos os domingos- palavras do presidente, Pedro Soares. Todo conquistador de sucesso é um corno em potencial ou em estado latente. Se você deixa uma para conquistar outra, claro, você deixou a primeira para quem chegar, sentar (e chamar de sua), tomar o seu lugar e, claro, corneá-lo, enquanto você está corneando outro (a) lá na frente. A vida é assim: o garanhão de hoje é o corno de amanhã!

Têm cornos para todos os gostos. Se antes falava-se cochichando nos ouvidos que alguém era corno, hoje a coisa não é bem assim. Alguns cornos contam- com certo orgulho- pra todo mundo- as suas condições de galheiros. Existe a figura do corno que sabe, se faz de inocente, mas que também está ciente que um terceiro está botando um par de córneos no seu concorrente principal que eu o batizei de co-corno. Há quem garante que o amante sofre mais por ciúme que o corno. O amante passa o natal, o fim de ano, o dia dos namorados etc, sem a sua cara-corno-metade. Agora pense na possibilidade de ser um corno feliz e que o amante nunca está feliz, pois sempre falta um elemento básico: a tranquilidade. É a doce vingança do corno! Engraçado, ninguém pronuncia o plural de corno, com o "o" aberto e sim fechado, acho que é pra chamar atenção. "Os dois são cornos!"- disse um cidadão. Alguém o corrige: "Não são cornos com o "o" fechado e sim cornos com o "o" aberto". "Desculpa-me, se eu ofendi a classe!"-responde o primeiro.
Mas a figura do corno é muito interessante. De repente o corno passa a ser mais feliz do que antes. Livrou-se da mocréia. Na separação, compreensivo, o juiz até manera na pensão ou até, o desonera da mesma. E a sociedade não mais se surpreende ou diz mal do corno. Aliás, está cada vez mais solidária com o tipo. É como a Parada Gay. Antigamente, neguinho tirava maior sarro com o desfiles dos rosas-choques. Hoje ninguém liga. Voltando aos cornos: Antes um corno conhecido do que um corno esquecido, diria o corno político. Há quem esteja colhendo assinaturas para se tornar lei, o Dia nacional dos cornos, com data prevista para 16 de setembro, dia de São Cornélio. Nesse dia, nenhum corno deverá trabalhar. O próprio Poder Público há de declarar ponto facultativo. É o governo ao alcance do corno. A bem da verdade, o tipo corno está sempre por perto, todos estão acostumados com ele. Os amigos lhe são generosos, pagam a sua conta; "É cedo, toma mais uma!" E ainda, solidários, dão uma força: "Não fique assim, sabe quem está também passando por isso? O Ricardão, logo ele, com a fama de garanhão que tem! A mulher (dele) plantou um galho na cabeça dele com o vizinho, aquele que tem toda pinta de gay; aliás, até o nome é de gay: Armando Rosa! Viu quanta ironia, meu amigo?! Mas... não liga não, chifre é igual a morte: um dia chega pra todo mundo! Seja forte, é preciso ser macho pra ser corno, muito macho! E você é macho, é ou não é?"

quinta-feira, 19 de agosto de 2010


O clipe censurado de Michael Jackson

Por Tadeu Nascimento


A princípio não esperava grande coisa do email que recebi que leva o nome de "O clipe censurado de Michael Jackson". Os dias se passaram e o email ficou esquecido no envelope eletrônico. Resolvi, esta semana, abri-lo, sem pretensão alguma. Abrir por abrir. Para minha surpresa, trata-se de um belo clipe que recomendo ao leitor. Aliás, digno de nota dez. Para vê-lo, basta entrar no www.youtube.com e buscar Earth Song Michael Jackson, ou ainda pedir- via email- a este cronista. Trata-se de um clipe que denuncia o quanto o ser humano é imbecil por ser ávido por dinheiro e com isso, acaba por destruir florestas, fazer guerra e exterminar animais. Tudo com um único objetivo: grana. Filmado na floresta Amazônica, New York, Croácia e Tanzânia, o clipe é de muito bom gosto- e politicamente correto- e traz uma música belíssima, com uma letra dramática e interessante (legenda em português) que empresta seu título ao vídeo: Earth Song (Canção da Terra). Acredito ser desconhecido do grande público- inclusive do americano- pois o clipe ficou escondido por muitos anos. Claro, o governo Bush impediu a publicação do vídeo filmado em1996, pois chocaria o mundo como tardiamente me chocou. Se o clipe viesse ao público, à época, os EUA não teriam como negar a assinatura do Protocolo de Kioto em 2001. Justificou Bush, que a implantação das metas do protocolo prejudicaria a economia do país. Vale ressaltar que a Esso (ou ExxoMobil, como é conhecida nos EUA) foi a companhia que mais doou dinheiro (1,2 milhões de dólares) para campanha de George W. Bush para presidente e é a maior empresa dos EUA e se opõe a qualquer ação governamental que vise mudança climática, limpeza do ar ou investimento em energia limpa e ainda financia críticos contrários a ecologia. A música e por conseguinte o clipe, não tornaram sucesso, por força de interesses claramente imorais.
O clipe tem seu início com a floresta amazônica, onde se vê um tucano, depois alguns macacos e em seguida, uma patrola com sua lâmina que vai derrubando impiedosamente árvores como jequitibás, mognos e outras árvores seculares. Muda-se a cena: uma ex-floresta com sobras de arvores com sinais claros de moto-serra, fumaça e carvão que restaram da selva queimada. É quando surgem as primeiras notas de piano e em seguida, Michael Jackson aparece com sua voz inesquecível. Cena seguinte: alguns indígenas da amazônia com feições desoladoras pelo fato da floresta ter sido arrasada pelo "branco civilizado". Este cronista pergunta: quem é o selvagem, cara pálida? Os cortes de filmagem são como punhaladas na humanidade! A seguir, um elefante em estado de decomposição, sem- claro- os dentes de marfim e em seguida, negros africanos da tribo Masai, da Tanzânia- estampam suas grandes tristezas nos rostos (e corpos) esqueléticos- diante dos restos do grande mamífero. Outra cena: um pai em busca do filho e o encontra em outra cena, morto- em meio a tanques de guerra e bombardeios na Croácia. Neste momento a música chega ao cume, com seu refrão perguntando o que fizemos com o nosso planeta. Dramáticas as cenas dos índios, dos negros Masai, dos croatas e também de Michael Jackson- todos em cenas distintas- de joelhos, enfiando as mãos na terra pedindo desesperadamente clemência a mãe natureza, pela imbecilidade do ser humano. As filmagens dos Masai foram feitas em seus próprios vilarejos e enquanto filmavam, um elefante foi morto por caçadores, a milhas do local de gravação. Os indígenas do vídeo são os nativos da região e não atores profissionais. Uma grande parte da floresta vista nesse clipe, não mais existe. Foi destruída uma semana depois das filmagens. Onde havia floresta, hoje é uma imensa área de capim para engorda de gado.
A visão humanista e contestadora de M. Jackson, ainda hoje, quatorze anos depois, bate de frente com o mundo que não mudou, ou se mudou, é quase imperceptível. O grande artista se revela eterno diante das próprias indignações: John Lennon quando da sua campanha pela paz, se guardou por uma semana com Yoko Ono, nus, por uma semana, em um apartamento em New York, justamente para chamar atenção do mundo para que acabasse com as guerras, no caso, a do Viet-Nam. Falar em Lennon é lembrar-se dele em sua nobre campanha: "Give peace a chance" (Dê uma chance à paz).
Como os homens dependentes de lucro são pobres de espírito! E o pior, se acham espertos: deixarão aos seus descendentes muito dinheiro e um planeta destruído!
Caro leitor, vale à pena assistir.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010


Fim de Relacionamento

Por Tadeu Nascimento


Quando um relacionamento vai para o brejo, fica a dor, às vezes raiva, e o mais cruel, a dúvida. Desta vez foi pra sempre? Difícil responder: enigma das pirâmides. O fato é que uma inquietação passa a tomar conta da gente e os dias seguintes ficam estranhos, sem sal, sem açúcar, sem aspartame. Começar de novo? Tocar a vida pra frente? Focar somente no trabalho? Fugir das tentações, amém? Mudar os hábitos, dormir cedo-acordar cedo? Fazer caminhada, perder peso? Dar um tempo aos botecos? Levar vida de monge, ser um santo que nunca foi? Ler "O amor no tempo do cólera" de Gabriel Garcia Marques, ou o último da Danuza Leão? Para as mulheres, Lia Luft, e ou Augusto Cury podem aliviar quem precisa de (auto) ajuda! Quem sabe um de Martha Medeiros, a papisa dos fins dos relacionamentos? Árduas promessas! Não conseguimos. Sai tudo ao contrário: o trabalho não rende, porque está disperso; dormir cedo, impossível- a insônia não deixa. Ficar quieto em casa, ver um filme? Os barzinhos nos puxam como um imenso imã! Ler?- não se tem espírito nem para ler as horas no relógio! Caminhar, queimar calorias, nem pensar! Pode-se até perder peso por comer e dormir mal, mas o inverso é o que mais acontece: come-se mais por ansiedade e o ponteiro da balança impiedosamente acusa: a vida está péssima! Pra variar, sonhou com ela de novo! De repente, descobre-se uma nova ruga- a enésima (no caso delas é uma tragédia!) ou uma mecha de cabelos gris. Pronto: instalou-se o caos.
Uma coisa é certa. Agora é pra nunca mais! O problema é que não se consegue facilmente se livrar do fantasma dela/dele. Tira-se o cd do toca-cd do carro porque as músicas são a cara dela, insere-se outro no aparelho: piorou, cai na música que ela mais gosta. Muda-se para FM e o meloso Roberto Carlos pega na veia. E não é só isso: tudo lembra o ser amado que agora está na categoria de ex. Os lugares que freqüentavam, os amigos em comum e até o perfume (quando passa alguém com o mesmo aroma). Custa-se entender que o amor foi feito pra doer, pra machucar, pra judiar, para infernizar nossas mentes. Fosse eu um ditador (como todo ditador é insano) decretaria: "É proibido sentir saudade, sob pena de fuzilamento ou amputação de membro- (isto mesmo: castração!- o mesmo para as mulheres: cortar o cartão de crédito!" Freud explicaria: o cartão de crédito é o pênis feminino) conforme o grau de tristeza. Mas não tem jeito, o amor é uma demência no seu mais alto grau. Coisa pra camisa de força e pra muito Zoloft. Mas o pior dos piores é não vivê-lo, como acontece com os covardes que tem medo de se envolver. Como se alimentassem somente com salada de alface com chuchu a vida inteira. Vida mais ruminante! No nosso DNA está escrito, como uma sentença: "Nada é para sempre e o amor não tem termo de garantia!" Então quem não quiser sofrer, que não se envolva, não ame; que alugue um pasto e rumine capim até o fim da vida!
Um dia, essa história- que um dia foi bela- irá se apagar, como tudo na vida-inclusive as estrelas-; mas vai levar um bom tempo. Enquanto isso, melhor juntar uma boa grana para o botox, para muitas tintas para esconder os brancos das melenas e, óbvio, para o milagreiro cirurgião plástico, até que venha (caia do céu) a delícia de um novo amor.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010


Duas estrelas: a minha e a do Botafogo


Por Tadeu Nascimento


Feliz no jogo, infeliz no amor (e vice-versa) é um dos mais conhecidos ditos populares. Não tenho que concordar com essa máxima. O Botafogo, time do meu coração, já fez o diabo comigo. Pra começar, ficou 21 anos sem ganhar um campeonato e só conseguiu tal façanha- depois de um longo jejum- graças a uma obra cabalística: no dia 21 de junho de 1987, aos 21 minutos do segundo tempo, justamente contra o seu arqui inimigo, Flamengo. Imagine o leitor, se realmente prevalecesse essa máxima, eu não teria- justamente na época que o Botafogo não ganhava nada, uma filha- única- que amo tanto, cuja mãe, é torcedora- advinha de que time- do Mengão, claro.
A vida tem sido assim. O Botafogo foi finalista do Campeonato Carioca nos 5 últimos anos e ganhou apenas um. E tal qual o meu time, eu quase fui feliz nestes 5 anos. Estou me referindo a minha vida particular. Quando iríamos (o Botafogo nos gramados e eu na vida) passar a mão na taça da felicidade, vem o destino e chuta a bola na trave, ou o juiz apita falta, ou uma bandeirinha exibicionista- que sairia na Playboy- ergue a famigerada bandeira, coisas que impedem de sermos felizes.
A minha estrela e a do Botafogo, andam quase sempre apagadas. Ás vezes, uma labareda vem iluminar o nosso caminho. O botafogo já foi rebaixado (2002)- pra Segundona do Brasileirão- ou quase, por muitas vezes, como no ano passado. Eu- nem é bom falar-, vivo sempre tentando me manter na primeira divisão do meu campeonato particular. Às vezes caio também. Aliás, o Botafogo e eu, infelizmente, sofremos a síndrome da perseguição: "tem coisas que só acontecem com o Botafogo" e, claro, comigo. Sempre achamos que somos injustiçados- pra não falar, ludibriados. Mas o que fazer? O cidadão muda de cidade, de país, de mulher, de até de sexo, mas não muda de time.
Coincidência ou não, a estrela sempre foi característica dos perseguidos: os judeus tinham como o símbolo uma estrela de 5 pontas, a de Salomão, como a do alvinegro carioca. Depois, com a perseguição de Hitler, os judeus adotaram (na sua bandeira) uma seis pontas- acho que é por mais um sofrimento-, a estrela de Davi. Se o Botafogo fosse um time israelense, teria sua sede ao lado do Muro das Lamentações e seria trapaceado pelos times do Hamas, do Hezbollah, ou do Fatah, sei lá! Só ganharia dos Kibutz Futebol Clube que seria o Vila Nova deles. O Botafogo e eu somos totalmente passionais. Vivemos de ilusões. Mal surge um razoável jogador, ou ganha uma partida de um time de renome, pronto, somos os melhores do mundo! Lotamos os estádios, vestimos a camisa do time, contamos vantagens mil. Basta uma derrota para um time pequeno e logo caímos na real. Na vida pessoal, não é diferente, quando entendo que tudo está bem, eis que cai um chuvisco que se transforma em tempestade, o teto desaba e o sonho acaba.
Botafogo Futebol e Regatas. Há muitos anos, ouvi de um comentarista esportivo que deveriam excluir o sobre nome Regatas- pois se o Botafogo é o clube mais supersticioso do Brasil, "a diretoria do clube deveria entender que o azar do time está no prefixo 'Re' que puxa as 'gatas' para trás e isso não é legal! Daí a sina de ser re-bai-xa-do, ou quase. Acho,- defendia ele- que se mudassem pra Posgatas ou Progatas, cabalisticamente o Botafogo seria o maior de todos"- Faz sentido.
Pra terminar, estive no Rio de Janeiro em junho de 2009. Final do Campeonato Carioca. Botafogo x Flamengo. Uma voz sobrenatural (talvez de algum parente meu Almeida) ou a minha insegurança, aconselharam-me a não ir ao Maracanã. Não fui. Dito e feito: o Mengo foi campeão e o Bota, vice. E bota vice nisso! Pela terceira vez consecutiva! Mais uma vez, quase feliz. No céu do Rio estouravam foguetes e rojões! Me senti um idiota, por torcer para um time que tem vocação pra ser vice. Vice é pior que ex-namorado, ex-marido. É algo parecido com ex-corno. Ex-corno não existe, mas o cidadão antes de ser corno, poderia ter sido feliz um dia, mas vice nunca é feliz; é um ser que existe-não-exite! Serve pra quê? A gente nunca se lembra de quem foi vice de qualquer coisa! O Brasileirão/2010 está na 11ª rodada campeonato e o Botafogo se encontra na faixa do rebaixamento (escrevo esta crônica no dia 30 de julho). Lá vai o Tadeu para o mesmo destino! Mais uma vez. Mas um dia, o Bota vai ser muito feliz e eu também. Como viu o leitor, sou um otimista!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Amar é... cair de quatro
Por Tadeu Nascimeno


Os amores, por mais desastrados que foram nas nossas vidas, são muito importantes, posto que ocupam nossas lembranças. Uns mais, outros menos. Com eles aprendemos, choramos, tivemos filhos, tivemos grandes momentos, brigamos, também fizemos as pazes, viajamos, nos entregamos de alma, nos separamos, nos distanciamos, nos... até nunca mais, seja feliz. Quis o destino que seria preciso passar por todos esses amores. Fico a imaginar, quando o sol das nossas vidas baixar na linha do horizonte; quando a morte estiver batendo nas nossas portas, eu me perguntaria: o que foi feito de fulana? O que ela estaria fazendo hoje? Ela estaria mais gorda? Ela se cortou nos cabelos? Será que se envelheceu, tanto quanto eu? Será que ela sabe, se eu ainda existo? Será que ela sabe que padeço do diabetes? Será que guardou mágoas de mim, ou será que não tive importância alguma na sua vida? E de Beltrana, que acabou com o nosso relacionamento para se casar com outro, e que passou a viver às turras com o marido, será que ela o deixou? Mudou-se para Paris? Jurava ela que não morreria antes de morar, pelo menos um ano, em Paris? Nunca mais, tive dela notícias. Como era bela! E o que foi feito daquela que eu tinha absoluta certeza que eu enlouqueceria sem o seu amor? E ainda daquela outra que achava que eu seria último homem da sua vida e que- no entanto- me trocou por outro 5 anos mais novo e que dias depois ela também foi trocada por uma, 10 anos mais nova? Eu sei, isto acontece com todo mundo.
Ficção à parte, não me arrependo de nenhum relacionamento, aliás, sou eternamente grato. Peço sinceras desculpas pelas faltas cometidas- que não foram poucas- Por ação ou por omissão. Sei que a vida é um sopro de tão rápida e que é preciso que sejamos intensos- isto, sei que fui- senão os relacionamentos morreriam rapidamente por inanição e não teria sentido esta crônica. Para viver um grande amor não é só preciso ser um bom sujeito, ter muito peito- peito de remador- como dizia Vinicius de Moraes, mas também é preciso cair...cair de quatro e é por isso que os meus joelhos (e o coração) estão sempre escalavrados! Por mais que sejamos ridículos (o amor é ridículo), cafonas (o amor é brega), tolos (o amor é insano) e que acabemos dando com os burros n'água, os amores são inesquecíveis.
Quem, caro leitor, honestamente, não se lembra de alguém que um dia mexeu com a sua vida? Não muito raro, amores se reencontram décadas depois, já avôs e avós, e que se acertam e misturam as suas intimidades já bastante conhecidas, num gesto de uma nova promessa de amor para sempre.
Reencontros. Imagine você admirando títulos de livros através de uma vitrine de um shopping e de repente, reflete no vidro a imagem de alguém que um dia você se entregou de corpo e alma e rapidamente você se vira como tivesse levado um choque de 220 volts e os seus olhares se cruzam e ela o cumprimenta sem graça, com um "oi, tudo bem?", e você, com a voz embargada, repete a mesma pergunta e acabam sem saber como estão porque apenas se perguntaram e não se responderam nada. E você fica sem chão o resto da noite; fica fora do ponto e atônito, sua mente navega num passado que gostaria que não estivesse. Anda alguns passos bem medidos e se vira para trás, justamente quando ela também volta o rosto e depois de flagrados os olhares, baixa a cabeça e vai tomar um chope para acalmar o coração (pra isso, serve o chope). Parece que ainda existe uma pequena chama que só faltaria alimentá-la. Gostaria de perguntar tantas coisas, de dar um abraço apertado, talvez um beijo, mas a distância que se perdeu no tempo, impede. Votam a caminhar em sentidos opostos. Fatos como esse, são os que nos levam a nos perguntar sobre as pessoas que passaram pelas nossas vidas e que servem para confirmar que foram muito importantes. Que bom que inventaram o chope!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Cinturinha de Pilão


O sexy appeal das mulheres

Por Tadeu Nascimento

Falemos da atração feminina, falemos do sexy appeal das mulheres. Sexy appeal são nuances de atração entre humanos. Atração que se baseia em muitos detalhes como na visão, no odor, nos pequenos e sutis sinais como a voz, o movimento de cada um. É quando alguém exala sensualidade. É o que muitas vezes entendemos por tesão.
A química da atração é um mistério. Pode ser por um corpo num todo ou por uma parte específica deste. Tem homens para todo tipo de tesão. Há quem tem atração/tesão por pés. São os chamados podólatras. Esses fazem apaixonados discursos enaltecendo o tamanho, a delicadeza, o formato, os detalhes das unhas de um par de pés bem cuidados. Outros, por nádegas grandes (seriam nadególatras ou bundólatras?). Existem os que são atraídos por saboneteiras- dos ombros- que só existem em mulheres magras. Há quem defende teses sobre o sexy appeal que possuem as mulheres de peiadores (tornozelos) finos. Quando menino, ouvi muitas vezes os mais velhos dizendo "Nada melhor que uma cabrochinha de 'piador' fino!" ou ainda "Dou uma fazenda por uma mulata de 'piador' fino!"" Esses obcecados por essa parte final das canelas, viajam na batatinha imaginando o poder da libido dessas mulheres. Outros, ao contrário, deliram por mulheres que tem o sexy appeal nas pernas torneadas e roliças. Tem aqueles que se vem enroscados num par de pernas de uma mulher magra e esguia como uma gazela. Muitos sucumbem diante de um par de seios com bicos apontados pra lua ou ainda por um colo de seios bem harmonioso. Conheço um cidadão que perde o rumo quando vê uma escurinha e quanto mais caída pra negritude, mais se desorienta; assim como há que tem tesão por gordinhas; por mulheres com cabelos tipo Joãozinho, bem curtinhos. Há também quem é chegadinho a mulheres com bocas grandes. Quando cursava universidade, tive um amigo que tinha frisson por axilas. Para ele, certas mulheres tem o sexy appeal debaixo dos braços. Ele se justificava dizendo que a axila tem o formato que lembra o órgão sexual feminino. E ele realmente não tirava os olhos das axilas às mostras, de qualquer mulher que estivesse próxima, principalmente se a mulher tivesse as axilas depiladas há poucos dias. Outro conhecido, tinha tesão por mulheres com sardas. "Por mim, todas mulheres deveriam tomar banho de sol com peneira para se enfeitarem com sardas!"-, brincava. Vai entender os homens!..Tem gosto pra tudo e pra todos.
Mulheres com cinturas finas. Não há quem não admire e não se desconcerte. Mulheres com esta anatomia- tem um par de covinhas um pouquinho acima da região glútea e tal qual as formigas, tem nádegas empinadas, arredondadas e perfeitas- Cinturinhas finas também chamadas de pilão elevam a testosterona a níveis insuportáveis e provocam quase sempre doloridos torcicolos, alucinações e principalmente insônias nos machos convictos, garantem os bundólatras. A bem da verdade, as mulheres que mexem com a nossa libido e que nos fazem suspirar, trazem-nos felicidade e dão sentido às nossas vidas. Amém.

quinta-feira, 15 de julho de 2010



O vendedor de algodão-doce

Por Tadeu Nascimento


Já vem de alguns anos, a obsessão do empresário Eike Batista em ser o homem mais rico do mundo. Para ele a felicidade passa pela vaidade de ser o homem mais cobiçado do planeta. Não pelo que é, mas pelo que tem. Problema dele. Pragmático, não se importa se dele querem só o dinheiro. Aliás, grande parte sua riqueza material é herança de seu pai Eliezer Batista, presidente da Companhia Vale do Rio Doce, na época da ditadura. Ex-esposo da linda Luma de Oliveira, Eike viu o poder de sua grana, ser rebaixado às cinzas, quando Luma o traiu com um simples policial do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. Pior ainda quando, meses depois, ela desfilou na Marquez de Sapucai, - mais uma vez semi-nua- com uma coleira no pescoço, escrito Eike, sugerindo perdão e submissão ao marido traído. O mundo todo viu tamanho mico. Problema dele. Divorciaram-se. Em 2008, Eike numa coletiva à imprensa, disse que no ano seguinte, seria o homem mais rico do mundo. Os fiscais da Receita Federal, diante de tamanha exteriorização de riquezas, fizeram-lhe uma visitinha que lhe causou uma pequena dor de cabeça e algumas multas de alguns milhares de reais. Neste caso, não se tratou de um simples mico, mas de um King Kong. Problema dele.
Eduardo de Tal, anda- à noite- a passos largos, quase correndo, carregando como quem carrega um estandarte, um tubo de PVC cravado de palitos com algodão-doce coloridos envolvidos em saquinhos plásticos que ele vende pelo simples valor de um real, a unidade. Com um pequeno boné que protege a sua cabeça de senhor de meia idade com poucos cabelos, da friagem da noite, atravessa boa parte da cidade, a pé, vencendo 15 kms na vinda e outros tantos para voltar para sua pequena casa escondida, perto do trevo que dá destino à Inhumas, além de outras distâncias indefinidas de bar-em-bar. Uma versão urbana e atual de Dom Quixote. Faça frio ou chuva, o nobre guerreiro de açúcar- sem se derreter e sem se render- percorre os bares de Goiânia a vender doçura. E o mais interessante, a venda não é para crianças, mas para adultos, quase sempre para mulheres. Se não bastasse tanta singeleza, traz sempre no bolso da camisa dezenas de "santinhos" com dizeres religiosos que não são mais que convites para se interagir com Deus que ele distribui aos seus clientes. É de se perguntar: como este pobre homem, vive sempre a sorrir? Com que força tem este pobre andarilho-vendedor que percorre- de bem com a vida- os quatro cantos do Setor Oeste, do Marista, do Bueno às vezes, nas horas altas da madrugada?
A princípio, parece um pobre coitado. Não o é. Eduardo é apenas um homem simples, humilde, que estampa na face um sorriso imenso de causar inveja. Acho que este é o seu único mal- se realmente causa. Eduardo não tem problemas existenciais, não corre o risco de sequestro, não paga duplicatas, não tem cheques pre-datados a cobrir e tampouco, recebe cheque sem fundos e o melhor, não tem o fisco como algoz. Sempre que o encontro, faço-lhe a mesma pergunta:
-Meu amigo, você ainda é feliz?
E ele, me reponde com um sorriso largo:
-Felicíssimo!
E com esta certeza fica, para mim, mais evidente que precisa-se de muito pouco pra ser feliz!

quarta-feira, 7 de julho de 2010


Johnny Depp e suas tatuagens


Até que o raio laser nos separe

Por Tadeu Nascimento



É sabido que a cirurgia plástica tem muito contribuído para beleza das mulheres. Nada contra. Todavia, sempre fui adepto às coisas naturais, principalmente as que se referem ao corpo humano. E tudo que força a barra, me intriga. As tatuagens e os piercings, por exemplo. Outro dia, vi uma mulher, cujo corpo, lembrava mais uma das pinturas de Salvador Dali. Quando ela se sentou e cruzou as pernas, a tatuagem que trazia em uma das pernas, causava a impressão de um relógio se derretendo. Na nuca, uns dizeres que eu não sei era em grego, japonês ou em dialeto africano. Sem contar que pendia três argolinhas em uma das narinas; nas orelhas, dois enfeites que pareciam duas rolhas enfiadas nos lóbulos. Imagino- melhor nem ousar- o que se poderia estar grafado ou incrustado no resto corpo que ficava por debaixo dos panos. E para completar, um par de olheiras roxas que sugeria que era filha de Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro. Uma agressão ao bom senso. Quem conhece a banda de rock Sepultura, sabe que seus componentes são todos tatuados com as figuras mais horripilantes, inclusive com a figura do demo. Há quem goste de uma borboleta, um beija-flor ou uma rosa, em tamanhos delicados, tatuados no corpo. Tudo bem, estou até acostumando, mas ainda prefiro a pele imaculada. Acho- não, tenho certeza- que estou ficando muito careta!
Quais são as razões dessas agressões ao próprio corpo? A internet está cheia de fotografias de pessoas estranhas que cometem tais atitudes. Outro dia, entrando no elevador, todo distraído, dei-me de cara com um casal- suponho, de namorados- ambos, com dois chifrinhos sob a pele da testa, tal qual, "o coisa ruim" que habita as profundezas. Nas costas de ambos, inúmeras tatuagens. Os cabelos coloridos dela, sugeriam uma homenagem as araras brasileiras; os dele, aos índios moicanos (cabeça raspadas nos lados). Passado o susto, me perguntei: o que estes dois seres estranhos querem mostrar? Agredir a sociedade? Rebelar-se contra o quê? Mais um casal de rebeldes sem causa ou seria uma resposta ao mundo, por serem filhos de pais separados? Os pais não estiveram presentes para educá-los? Faltou amor? Lar desajustado? Por que muitas das tatuagens são feitas nas costas, na bunda, na nuca, se os próprios tatuados não conseguem vê-las? Outros, vão mais além, tatuando quase o corpo todo! Aliás, sempre me pergunto, quando me surge alguém assim: por que uma moça tão bonita estragou a sua pele desse jeito?.. O leitor, já imaginou, se a tatuagem fosse obrigatória a todos os humanos? Isso me remete aos versos de "Disparada" de Geraldo Vandré: "Porque gado a gente ferra/... mas com gente é diferente..." Qual o prazer em suportar tais desenhos picotados, se não temos pele grossa dos bichos? Não posso acreditar que seja simplesmente, modismos. Que me respondam os psicólogos e psiquiatras!
Há poucos dias vi- creio que na Uol.com, ou na Glogo.com- um rol de pessoas que se submeteram a raios laser, para tirar de seus corpos, tatuagens de desafetos que num passado próximo, foram seus amores "ad eterno". Como fosse possível, apagar parte do passado. Neste caso, não se trata de agressões ao corpo e a sociedade, mas de atos impensados que quase sempre, resultam em grandes enganos. Mal gosto à parte, a cantora brasileira Kelly Key deletou- através de raio laser- da panturrilha, a cara do cantor Latino. O artista que havia também jurado amor absoluto pela parceira e com ela teve uma filha, retribuiu o gesto na mesma dose. Mas assim que começou a namorar o empresário Mico Freitas, Kelly fez uma homenagem ao novo namorado, no pescoço. A atriz Débora Secco, tirou da pele- também com ajuda do laser- o nome de Falcão- que também tem várias tatuagens e uma imensa cabeleira rastafari-, cantor de rap, artista pós-moderno que ofende os meus ouvidos e de quem tem bom gosto. A modelo Viviane Araújo, por sua vez, declarou o seu amor, tatuando no seu antebraço o nome do cantor Belo (condenado por ligação com o tráfico de drogas) e, após o término do namoro, apagou a tatuagem com sessões de laser. O ator Johnny Depp, quando noivo da atriz Winona Ryder, tatuou "Winona Forever". No entanto, a relação não durou muito e Johnny, o " Don Juan de Marco", mudou a frase para "Wino Forever, ou seja "Bêbado Forever". Faz sentido! Acredito que uma das profissões de sucesso, num futuro próximo, será a dos especialistas em apagar tatuagens com raio laser. Tira João, entra Joaquim; sai Maria, (das Dores), entra Maria (das Graças); Sai Jesus Cristo, entra Che Guevara. Sai fulana, entra beltrana. E por aí, vai.
Tempos modernos. O amor agora é registrado à agulha e expulso a laser, o raio. Conheço um cidadão que tirou o nome do "filho" inscrito em um das suas próprias pernas por que descobriu que não era o pai da criança. O DNA, decididamente, também se uniu ao laser para desunir os casais. E o rebento que se arrebente. E com isso, as pessoas vão se revelando cada vez mais carentes e inseguras. E eu, me tornando mais careta e mais quadrado.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Rua Rafael Nascimento

Rio Verde - GO


A primeira vez e o primeiro porre a gente nunca esquece


Por Tadeu Nascimento

A primeira vez e o primeiro porre são como- para as mulheres- o primeiro sutiã, a gente nunca esquece. Assim diria Washington Olivetto. No caso delas- da primeira relação- sabem o nome, o sobrenome do cidadão e jamais se esquecerão do dia, mês e ano. Podem até demorar alguns minutos, esmiuçando a memória, mas logo se lembrarão dos detalhes. Já para os homens, a coisa é bem diferente: lembram-se que fora com uma empregada de sua casa ou da vizinha e não tem a menor idéia do nome e nem se lembra como era ela; ou ainda, que fora com uma amiga de uma irmã que caidinha por ele e se deixou levar e a coisa aconteceu. Poderá até lembrar do nome da "vítima", porque a irmã atirou-lhe na cara por diversas vezes,- ameaçando contar para os próprios pais- mas não sabe o sobrenome e muito menos a data. Ou ainda, que foi num bordel, levado pelo irmão mais velho. Estou me referindo a coisas de trinta anos ou mais, porque hoje, a coisa é bem estranha. O cidadão nem sabe o que fez depois que saiu da boate. Ela muito menos.
No meu caso, a primeira vez não houve nada de diferente: Tímido, com 13 anos, mas com testosterona saindo pelas orelhas e, com os amigos contadores de vantagens que sustentavam que já haviam experimentado o sexo oposto- naturalmente, eu me sentia muito desconfortável, por só ficar na vontade. Primeiro filho, não tinha irmão mais velho, a quem recorrer. Então, um dia, resolvi dar um basta na precisão. Trabalhava, no cinema de minha avó, em Rio Verde, um amigo da família, de nome Evilázio com quem tinha horas de papo e um dia, provoquei um assunto que se referia a sexo. Ele desconfiado da conversa sem-pé, sem-cabeça, perguntou-me se eu já havia me deitado com uma mulher e eu, para me manter na condição de machão- disse-lhe que sim. O que era uma tremenda mentira. E ele me disse " Então, vamos mais tarde à putaria?!"- desafiando-me a ir junto. Meus pais estavam em Goiânia. Lá fui eu, com as pernas tremulando.
Lá chegando, adentramos numa casa onde estavam seis ou sete mulheres bebendo em meio a fumaças de cigarro, sob uma luz pálida. Evilázio, experiente na arte da putaria declarou a todas:
- Este meu amigo, é virgem! Quem quer tirar o cabaço dele?- perdoa-me, o leitor, pela vulgaridade das palavras, mas era o linguajar do lugar e da época.
Risos à parte, uma mulher, de pele clara, cabelos loiros, quarentona que para época, seria o equivalente a sessentona de hoje- pois estava um tanto desgastada- de pronto e em alto e bom som, gritou:
- Eu!- E levantando-se da cadeira, pegou-me pelas mãos: "Vem cá, meu anjo!" E me arrastou para um quarto escuro e sob uma luz azul ainda mais pálida- não era a luz negra de hoje, mas uma lâmpada pintada de azul- e começou a se despir e eu tremia com uma vara verde... Quando vi a mulher toda nua, só pedi que Deus me ajudasse e Ele piedosamente me ajudou. De lá, saí com o ego maior do que uma jaca! A partir daí, fiquei em paz comigo! Não sei o nome dela, não me lembro do seu rosto, da data da aventura libidinosa e nem de mais de algum detalhe, mas o preâmbulo do acontecido está guardado no mais recôndito de minha memória.
O primeiro porre, 1969. Tinha eu 15 anos e havia mudado para Goiânia para cursar o científico no Ateneu Dom Bosco. Na Semana Santa, eis me de volta a Rio Verde como um rapazinho metido a moderno: os cabelos descendo pelas orelhas, roupas da moda e sapatos mocassins (cidade grande vende ilusões para o interiorano!) Havia um bar na Rua Rafael Nascimento que era o bar da moda, de então. Ali, enveredei-me com alguns amigos, com algumas garrafas de cerveja e me esqueci da hora e da rigidez da educação de meu pai. Nunca havia chegado em casa depois das dez e já se passava da uma da manhã. Não mais que de repente, meu pai, chega ao bar, de pijama, e me chama com a voz nada amigável. Levantei-me, tonto, e fui ao seu encontro. Tentei dialogar com ele com a voz enrolada e com o bafo pra lá de alcóolico. Não tive guarida. O amigo e doce professor Clóvis, transformou-se numa fera e levou-me para casa, carregando-me pelas orelhas. Cheguei a ficar alguns centímetros acima do chão- diziam meus amigos que viram- às gargalhadas- meu pai me guiando pelas orelhas! Um vexame total e inesquecível! Até hoje, meus amigos ainda zombam de mim por este vexame. Não me importo, era o meu pai! E que saudades tenho dele! E assim, entre estas e outras lembranças, fui me tornando o homem que hoje sou.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pai e Filho
Ao Prof. Clóvis Leão de Almeida

Por Tadeu Nascimento


Meu pai querido,
Onde está você? Olho para todos os lados e não o encontro, neste momento mais difícil da minha vida! Você que sempre me socorria, onde estava no momento em que eu me vi -totalmente impotente- diante de minha mãe que se exauria nos meus braços? Naquele momento de desespero eu me lembrava o quanto você, doente, dizia que quando estivesse do "outro lado da vida", iria ajudar muito a minha mãe- como se tivesse íntima ligação com os santos ou com as entidades espirituais! Pois é, somente você, pai, poderia, agora, dar-me força e coragem para enfrentar a vida. E a causa deste socorro é justamente a ausência da pessoa com quem você mais conviveu: ela, a Zaira, sua amada, sua flor de maracujá. Foram 54 anos de casados. Você se foi e ela passou a chorar, às escondidas, pelos cantos da casa! Pôxa, pai, quando você se foi, me agarrei nas saias dela, para suportar a sua ausência! Agora, preciso de você, justamente porque perdi a pessoa mais importante da minha existência: a minha mãe, a sua companheira!
Que faço eu, agora? O que devemos fazer agora, eu e os seus outros 5 filhos, seus 10 netos, que vivíamos sob a tutela carinhosa de sua companheira? Você partiu para outra dimensão e ela se desdobrou-se em zêlo para comandar a família!
A Rua Rafael Nascimento não tem mais graça. Ficou um imenso vazio. Era uma rua que por décadas, tinha as marcas da alegria. Agora é uma rua de saudades. Nâo tem mais Avó Tília, Tia Olga, Tio Iron, Tio Itu, Tia Marilene, a Rafaelita. Todos partiram. A cadeira que você sentava no Calçadão e que a minha mãe passou a ocupar, foi recolhida- para todo sempre- para o último cômodo da casa! Como a vida é dura!
Estou ilhado neste mundo de pretéritos. Restam-nos os exemplos, os ensinamentos e a saudade de vocês dois. Duas pessoas que viveram exclusivamente para os filhos. Contudo, aceito com resignação os desígnios de Deus. Ninguém tem destino diferente. A morte é a única certeza. Mas com toda minha tristeza, devo lhe dizer: foi uma honra tê-lo tido, como pai! Um homem doce, generoso e de paz. E foi uma felicidade ter tido uma mãe que tive. Um ser maravilhoso, que só agora, entendo a sua grandeza! Um presente de Deus.
À minha frente, está uma fotografia sua, todo garboso de terno e gravata, bigodinho à Clark Gable, dedicada à minha mãe, onde você subscreveu: "À Zaira, para que nunca se esqueça do seu Clóvis". Você tinha 22 anos, ela 15. A história de vocês- que se perpetuará nos seus descendentes- é coisa do destino!
Você sempre dizia: "A vida é feita de momentos!" Realmente, confirmo eu. Passamos momentos maravilhosos enquanto vocês dois estavam conosco! Lembra-se das Bodas de Ouro de vocês dois, comemoradas no Hotel Kanachuê em Goiânia? As fotografias revelam como éramos felizes! Pois é, pai, o tempo é implacável! E este momento é um dos mais difíceis pelos quais, já passei.