Por Tadeu Nascimento
Mas qual o garoto, antes da era dos computadores, que não era fã de Tarzan, do Zorro, do Super-Homem, do Batman, do Fantasma? Quando eu era menino pequeno lá em Rio Verde das Abóboras, tinha eu um vizinho de muro, de nome Alberto Arantes, filho do relojoeiro João Ataídes, que subia quase todas as tardes nas gripas da Mangueira do quintal de sua casa, juntamente com o seu irmão caçula Nenê (Humberto). Ele naturalmente era o Tarzan (e por tais peripécias ganhou o apelido -para sempre- de Tarzan); Nenê, o Boy e pra fechar a aventura, escalava sua vó de mais de 70 anos, Dona Antônia para ser a Chita! Amarrava uma corda num galho da mangueira e tome grito de Tarzan! Com uma faca de mesa sem ponta, enfiada no calção, ele pulava, se segurando no cipó, pra salvar o Boy e a Chita que estavam sendo persiguidos por uma onça faminta que já vinha saltando de galho em galho. E lá vem a onça! Então, Tarzan se atracava com a felina invisível, desde os galhos do pé de manga até ao chão de terra batida. E tome golpes de judô, box, capoeira, etc. Tudo no invisivel! Coitada da onça, apanhava mais que pandeiro de escola de samba! Dona Chita, quer dizer, Dona Antônia, solidária à aventura, tinha que bater palmas, gritar vivas ao Tarzan, fazer micagens tal qual a chipanzé do cinema! E Tarzan, vencedor da peleja com a onça, batia com os punhos fechados no peito e gritava: "Krig-Ha, Bandolo!" "Mim Tarzan, o rei da selva!" E os vizinhos, cansados das repetidas bagunças cinematográficas, protestavam, em vão, aos gritos: "Eu já vi esse filme!"; "Muda o filme!"; "A onça trabalha melhor que esse Tarzan depois da gripe!" "Cadê o Zorro?" "Prefiro o Mazzaropi!" Mas artista é artista: todo dia tinha reprise! Ás vezes em outros dias, mudava o enredo: Tarzan, amarrava o boy e a Chita com a mesma corda no tronco da árvore e tome “tchan!”, “ai!”, “ui!”, “morra pele vermelha!” Eram os índios imaginários sendo derrotados pelo Tarzan, o rei da selva! Na África não tem índios americanos mas na selva do nosso Tarzan das abóboras tinha! E muitos. A avó e o irmão, às vezes ficavam horas amarrados no pé de manga. O Nenê começava chorar e a simplória Dona Antônia perdia paciência e prometia dar uma surra de cinto no Tarzan, se ele não os libertassem de imediato. De nada adiantava. Também a surra nunca acontecia. E o medo de perder o papel de Chita no dia seguinte?!
Já o moderno Tarzan inglês espera que logo algum Steven Spielberg o tire da realidade e o leve para a ficção, antes que algum gorila se apaixone por ele.









