quarta-feira, 23 de junho de 2010

Rua Rafael Nascimento

Rio Verde - GO


A primeira vez e o primeiro porre a gente nunca esquece


Por Tadeu Nascimento

A primeira vez e o primeiro porre são como- para as mulheres- o primeiro sutiã, a gente nunca esquece. Assim diria Washington Olivetto. No caso delas- da primeira relação- sabem o nome, o sobrenome do cidadão e jamais se esquecerão do dia, mês e ano. Podem até demorar alguns minutos, esmiuçando a memória, mas logo se lembrarão dos detalhes. Já para os homens, a coisa é bem diferente: lembram-se que fora com uma empregada de sua casa ou da vizinha e não tem a menor idéia do nome e nem se lembra como era ela; ou ainda, que fora com uma amiga de uma irmã que caidinha por ele e se deixou levar e a coisa aconteceu. Poderá até lembrar do nome da "vítima", porque a irmã atirou-lhe na cara por diversas vezes,- ameaçando contar para os próprios pais- mas não sabe o sobrenome e muito menos a data. Ou ainda, que foi num bordel, levado pelo irmão mais velho. Estou me referindo a coisas de trinta anos ou mais, porque hoje, a coisa é bem estranha. O cidadão nem sabe o que fez depois que saiu da boate. Ela muito menos.
No meu caso, a primeira vez não houve nada de diferente: Tímido, com 13 anos, mas com testosterona saindo pelas orelhas e, com os amigos contadores de vantagens que sustentavam que já haviam experimentado o sexo oposto- naturalmente, eu me sentia muito desconfortável, por só ficar na vontade. Primeiro filho, não tinha irmão mais velho, a quem recorrer. Então, um dia, resolvi dar um basta na precisão. Trabalhava, no cinema de minha avó, em Rio Verde, um amigo da família, de nome Evilázio com quem tinha horas de papo e um dia, provoquei um assunto que se referia a sexo. Ele desconfiado da conversa sem-pé, sem-cabeça, perguntou-me se eu já havia me deitado com uma mulher e eu, para me manter na condição de machão- disse-lhe que sim. O que era uma tremenda mentira. E ele me disse " Então, vamos mais tarde à putaria?!"- desafiando-me a ir junto. Meus pais estavam em Goiânia. Lá fui eu, com as pernas tremulando.
Lá chegando, adentramos numa casa onde estavam seis ou sete mulheres bebendo em meio a fumaças de cigarro, sob uma luz pálida. Evilázio, experiente na arte da putaria declarou a todas:
- Este meu amigo, é virgem! Quem quer tirar o cabaço dele?- perdoa-me, o leitor, pela vulgaridade das palavras, mas era o linguajar do lugar e da época.
Risos à parte, uma mulher, de pele clara, cabelos loiros, quarentona que para época, seria o equivalente a sessentona de hoje- pois estava um tanto desgastada- de pronto e em alto e bom som, gritou:
- Eu!- E levantando-se da cadeira, pegou-me pelas mãos: "Vem cá, meu anjo!" E me arrastou para um quarto escuro e sob uma luz azul ainda mais pálida- não era a luz negra de hoje, mas uma lâmpada pintada de azul- e começou a se despir e eu tremia com uma vara verde... Quando vi a mulher toda nua, só pedi que Deus me ajudasse e Ele piedosamente me ajudou. De lá, saí com o ego maior do que uma jaca! A partir daí, fiquei em paz comigo! Não sei o nome dela, não me lembro do seu rosto, da data da aventura libidinosa e nem de mais de algum detalhe, mas o preâmbulo do acontecido está guardado no mais recôndito de minha memória.
O primeiro porre, 1969. Tinha eu 15 anos e havia mudado para Goiânia para cursar o científico no Ateneu Dom Bosco. Na Semana Santa, eis me de volta a Rio Verde como um rapazinho metido a moderno: os cabelos descendo pelas orelhas, roupas da moda e sapatos mocassins (cidade grande vende ilusões para o interiorano!) Havia um bar na Rua Rafael Nascimento que era o bar da moda, de então. Ali, enveredei-me com alguns amigos, com algumas garrafas de cerveja e me esqueci da hora e da rigidez da educação de meu pai. Nunca havia chegado em casa depois das dez e já se passava da uma da manhã. Não mais que de repente, meu pai, chega ao bar, de pijama, e me chama com a voz nada amigável. Levantei-me, tonto, e fui ao seu encontro. Tentei dialogar com ele com a voz enrolada e com o bafo pra lá de alcóolico. Não tive guarida. O amigo e doce professor Clóvis, transformou-se numa fera e levou-me para casa, carregando-me pelas orelhas. Cheguei a ficar alguns centímetros acima do chão- diziam meus amigos que viram- às gargalhadas- meu pai me guiando pelas orelhas! Um vexame total e inesquecível! Até hoje, meus amigos ainda zombam de mim por este vexame. Não me importo, era o meu pai! E que saudades tenho dele! E assim, entre estas e outras lembranças, fui me tornando o homem que hoje sou.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pai e Filho
Ao Prof. Clóvis Leão de Almeida

Por Tadeu Nascimento


Meu pai querido,
Onde está você? Olho para todos os lados e não o encontro, neste momento mais difícil da minha vida! Você que sempre me socorria, onde estava no momento em que eu me vi -totalmente impotente- diante de minha mãe que se exauria nos meus braços? Naquele momento de desespero eu me lembrava o quanto você, doente, dizia que quando estivesse do "outro lado da vida", iria ajudar muito a minha mãe- como se tivesse íntima ligação com os santos ou com as entidades espirituais! Pois é, somente você, pai, poderia, agora, dar-me força e coragem para enfrentar a vida. E a causa deste socorro é justamente a ausência da pessoa com quem você mais conviveu: ela, a Zaira, sua amada, sua flor de maracujá. Foram 54 anos de casados. Você se foi e ela passou a chorar, às escondidas, pelos cantos da casa! Pôxa, pai, quando você se foi, me agarrei nas saias dela, para suportar a sua ausência! Agora, preciso de você, justamente porque perdi a pessoa mais importante da minha existência: a minha mãe, a sua companheira!
Que faço eu, agora? O que devemos fazer agora, eu e os seus outros 5 filhos, seus 10 netos, que vivíamos sob a tutela carinhosa de sua companheira? Você partiu para outra dimensão e ela se desdobrou-se em zêlo para comandar a família!
A Rua Rafael Nascimento não tem mais graça. Ficou um imenso vazio. Era uma rua que por décadas, tinha as marcas da alegria. Agora é uma rua de saudades. Nâo tem mais Avó Tília, Tia Olga, Tio Iron, Tio Itu, Tia Marilene, a Rafaelita. Todos partiram. A cadeira que você sentava no Calçadão e que a minha mãe passou a ocupar, foi recolhida- para todo sempre- para o último cômodo da casa! Como a vida é dura!
Estou ilhado neste mundo de pretéritos. Restam-nos os exemplos, os ensinamentos e a saudade de vocês dois. Duas pessoas que viveram exclusivamente para os filhos. Contudo, aceito com resignação os desígnios de Deus. Ninguém tem destino diferente. A morte é a única certeza. Mas com toda minha tristeza, devo lhe dizer: foi uma honra tê-lo tido, como pai! Um homem doce, generoso e de paz. E foi uma felicidade ter tido uma mãe que tive. Um ser maravilhoso, que só agora, entendo a sua grandeza! Um presente de Deus.
À minha frente, está uma fotografia sua, todo garboso de terno e gravata, bigodinho à Clark Gable, dedicada à minha mãe, onde você subscreveu: "À Zaira, para que nunca se esqueça do seu Clóvis". Você tinha 22 anos, ela 15. A história de vocês- que se perpetuará nos seus descendentes- é coisa do destino!
Você sempre dizia: "A vida é feita de momentos!" Realmente, confirmo eu. Passamos momentos maravilhosos enquanto vocês dois estavam conosco! Lembra-se das Bodas de Ouro de vocês dois, comemoradas no Hotel Kanachuê em Goiânia? As fotografias revelam como éramos felizes! Pois é, pai, o tempo é implacável! E este momento é um dos mais difíceis pelos quais, já passei.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Mãe e Filho

Aos órfãos do mundo

Por Tadeu Nascimento

Existe uma distância imensa entre a perda do próprio pai ou da própria mãe e a dor de um amigo, quando este perde um dos seus genitores. A distância está em viver na pele, a profunda dor. E a ordem natural das coisas é os filhos enterrarem seus pais. Pobre Maria que viu seu filho morrer na cruz! Mas também é imensamente triste, ver/sentir uma criança de 5 anos que não tem mais a mãe. Não é o natural da vida, a criança "enterrar" a mãe! Sigmund Freud dizia: "O homem só se torna adulto quando perde o pai!" Trata-se de uma alusão ao filho de não mais responder pelos seus atos a mais ninguém, a não ser a si próprio. Mas Freud não se refere o tempo da infância e sim, o da maturidade. No entanto, a perda da mãe é uma catástrofe: empobrece de amor o homem, pois é uma dor ainda mais intensa, indescritível e desoladora que tira muito da alegria de viver do filho. Nesta crônica que dedico a todos os órfãos, quero falar justamente da perda da mãe.
O romper do "cordão umbilical da existência" entre a mãe- que morreu- e o filho é como tirar de um ser o próprio chão. É como um astronauta do lado de fora da nave e por algum motivo, se rompe o cordão que unia os dois, o astronauta e a cápsula espacial. Há de se ficar à deriva no espaço. Perdido no infinito azul, sem jamais voltar à terra que também é mãe. É como barco sem porto, um passarinho sem ninho. Um filhote de leão, perdido da mãe, sai pela floresta, triste, sem rumo, sem norte. Indefeso, mal sabe ele a força e ferocidade que um dia, seria capaz. Eu não estou imune a esta dor. Há quase 5 anos perdi o meu pai. Um pai generoso e um grande amigo. Perdi a minha mãe recentemente. Uma mãe maravilhosa e uma mulher de fibra! Contudo, a dor da perda de quem me gerou no ventre, foi mais grave.
Não sei onde está o meu norte. É difícil aceitar, compreender que eu não tenho mais mãe. Só sei que- pelo resto da vida- quando estiver a sós e a saudade bater, muitas lágrimas derramarei.
Desde o surgimento da humanidade o homem busca a mãe: Não é inglória a frase "Eu quero a minha mãe!" O poeta Gabriel Nascente no final da década de 80, estampou em out-doors na cidade, uma frase, para mim, inesquecível: "Mãe, dá um jeito no mundo!" Quando o perigo se aproxima, nada mais forte que a proteção da mãe. O substantivo mãe, abarca muitos significados: proteção, alimento, afeto, sacrifício, etc. O escritor russo Máximo Gorki em sua maravilhosa obra "Mãe", retrata o que uma genitora é capaz de fazer pelo filho. Pelaguea Nilovna, uma senhora idosa, simplória, distribuía panfletos pró-comunismo nas portas das fábricas de Moscou, contra o Czar, sem saber do que se tratava, embora soubesse do tamanho perigo que corria, tudo por amor ao filho que militava contra o governo. Somente a mãe é capaz de oferecer a própria vida em holocausto para salvar a do filho: aos poucos vai percebendo o ideal revolucionário que vivia o filho. Quando este é deportado, a mãe toma seu lugar para dar continuidade à luta.
Hoje sou mais um órfão no mundo. De acordo com Freud, tornei-me adulto. Um adulto que não passa de um menino triste que quer- mais do que nunca- a mãe. A saudade lateja no meu peito. A certeza de nunca mais ver, abraçar, beijar- quem me trouxe ao mundo, dói-me n'alma. Uma dor imensa e profunda. Nunca imaginei que seria tão difícil passar por esse momento. Quem tem a felicidade de ter mãe, deve vivê-la na sua plenitude, porque um dia há de se acabar. Como disse um primo, também órfão: "A gente, se torna órfão, não quando se perde o pai, mas quando se perde a mãe!" É quando se perde o colo de quem mais o ama! Eis uma das razões que o ser humano, não mais que de repente, se aparenta ter envelhecido muito, num breve espaço de tempo.
Carlos Drumond de Andrade em seu poema "Para Sempre" sensibilizou-me: "Por que Deus permite que as mães vão embora?/ Mãe não tem limite,/ É tempo sem hora,/ Tempo que não apaga quando sopra o vento/ E chuva desaba./ Veludo escondido/ Na pele enrugada,/ Água pura, ar puro/ Puro sentimento./ Mãe na sua graça é eternidade/ Porque Deus se lembra/- mistério profundo-/ De tirá-la um dia?/ Fosse eu o rei do mundo,/ Baixava uma lei:/ Mãe não morre nunca!/ Mãe ficará sempre junto ao filho/ E ele, velho embora,/ Será pequenino com um grão de milho.
E sobre a dor, o mesmo Drumond escreveu: "Não, meu coração não é maior que o mundo./ É muito menor./ Nele não cabem nem as minhas dores./ Por isso gosto tanto de me contar./ Por isso me dispo,/ Por isso eu me grito,/ Por isso frequento os jornais, me expondo cruamente nas livrarias: preciso de todos."
Órfãos do mundo: agora sou mais um, entre vocês, a pertencer a esse triste "Bloco (que sobrevive) da saudade", pois meus risos nunca mais serão libertos, minhas palavras terão um "que" de incertezas e o meu coração não deixará de se alimentar de saudades.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Nelson Rodrigues


Nelson Rodrigues e a mediocridade de Dunga

por Tadeu Nascimento




"Amigos",- começava assim as crônicas esportivas de Nelson Rodrigues. O autor de "A pátria de chuteiras" e "À sombras das chuteiras imortais", nas suas crônicas, entre tantos assuntos, se aproximava ao máximo do humano e dos defeitos deste. Quem já leu Nelson Rodrigues, sabe o talento que se emanava de seus dedos sobre uma máquina de escrever! Mas, se ainda estivesse entre nós, o escritor cronista e dramaturgo, arrepiaria os cabelos com a relação dos selecionados de Dunga para a copa do mundo na África do Sul. A pátria (agora- com o arremedo- de chuteiras, pela falta de qualidade dos jogadores e pela mediocridade do técnico) não merece tanto descaso! Ricardo Teixeira inventou um técnico soberbo: um leigo que se acha sábio- por nunca ter sido técnico- com evidentes pés de barro. Vejamos: deixou de fora Ronaldinho Gaúcho em plena qualidade técnica e voando baixo no Milan e convocou Kleberson do Flamengo, seis meses sem jogar. Convocou o ótimo Kaká, mas também sem jogar e em recuperação e deixou de lado o genial jogador santista Neimar, o mais lúcido e lépido jogador do Brasil, por achá-lo ainda muito jovem para seleção. Mas se Kaká não se recuperar a tempo, ou ainda, se ele machucar novamente, quem o substituiria a contento? O soberbo Dunga, ignora as convocações de Pelé com 17 anos (1958) e Edu com 16 (1970)- ambos do Santos. Júlio Batista, bom jogador, mas longe de ser um craque de seleção foi escolhido em detrimento de Alexandre Pato, um cracasso. Se tivéssemos um técnico adepto ao futebol arte, Pato estaria no time titular.
Amigos,- como dizia Nelson Rodrigues- Dunga conseguiu a proeza de desinventar a seleção. Agora é o futebol de resultado, do ocupar espaço e do não deixar jogar. Aliás, esta seleção é cara do então jogador Dunga que foi apenas um razoável atleta de futebol. Sua característica acaba sendo uma mistura de prepotência de Cláudio Coutinho (1978/ Argentina) com insanidade de Sebastião Lazzaroni (1990/ Itália), cujas lembranças são as mais tristes da história do nosso futebol. Coutinho, cheio teorias mirabolantes como a do "over lap", ponto futuro e até, pasmem, que cada time deveria ter um jogador a menos, para que o jogo tivesse mais gols. Um jornalista atento lhe perguntou: "se é para resultar em mais gols, não seria mais inteligente aumentar o tamanho das traves do gol?" Em suma, estes três foram os maiores enganos da CBF. Alguém pode dizer se o Grafite merece a amarelinha? É certo, a falta de um centroavante talentoso, mas, ruim por ruim, o destemperado Adriano do Flamengo é de longe, melhor que Grafite!
Seria muito interessante um ataque com Robinho, Alexandre Pato e Neimar (do Santos) Não importa quem ocuparia o lugar de centroavante. Na Copa de 70, Zagalo improvisou o meia atacante Tostão como centroavante e ele deu show!; o ponta de lança Jarzinho do Botafogo, na ponta direita e que acabou sendo o artilheiro da Copa de 70! Continuando: no meio de campo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká. Paulo Henrique Ganso poderia ser reserva de luxo de Kaká (ou Neimar, ou Fred do Fluminense). Lembro-me de Telê Santana- tendo ao seu dispor um elenco de craques- tentando um lugar adequado para Sócrates que jogava de centroavante, mas não convencia. Então recuou o Doutor para o meio campo. Montou um ataque quase perfeito: Sócrates, Zico, Eder, Serginho e Paulo Isidoro (deveria ser Reinaldo do Atlético Mineiro, no lugar de Serginho). E ainda, apoiando o ataque, os Falcão e Cerezo. Alguém precisa gritar para o Dunga que a Seleção é lugar de craque e o de craque, é na seleção!
Resta agora, contar com a sorte e pedir a Deus para iluminar os pés de Robinho e Nilmar, porque o meio campo claudica nos pés de Kleberson, Elano, Gilberto e Josué. Poderemos sofrer, novamente o outro vexame, tal qual aquele exposto por Lazaroni! Quem não se lembra do Valdo "Enceradeira", na copa da Itália, título bastante apropriado, pois ficava rodopiando no meio campo e não progredia as jogadas para o ataque? Dunga foi driblado com facilidade por Maradona, que, ainda passando por Alemão (do Botafogo) magistralmente, deu um passe com açúcar e com afeto para o Caniggia que marcou o gol que desclassificou a seleção brasileira. Valdo e Dunga eram as estrelas de Lazaroni! Aliás, a chamada "Nova era Dunga", foi um termo criado por Lazaroni!
O teimoso Telê Santana se tivesse ouvido a voz das ruas, teria melhor sucesso! Convocaria, em 1982, Copa na Espanha, o centroavante Reinaldo e o goleiro Raul, do Flamengo. No segundo tempo, contra a Itália, Serginho erra cara-a-cara com o gol, jogada que Reinaldo dificilmente erraria! Todavia, de uma forma ou de outra, Telê foi um vencedor, pois devolveu à história o futebol arte, alegre, que ficou para eternidade. Poderia ser seguido por todos, mas a mediocridade de Dunga não o deixa se pensar como Telê, pois Lazaroni impregnou de cupim a cabeça de Dunga!
Amigos, Nelson Rodrigues, onde estiver, deve estar impaciente e preparando para seus leitores- de outro plano- uma crônica mordaz contra o que está acontecendo com a sua pátria de chuteiras!

quarta-feira, 12 de maio de 2010


Mulheres bonitas só fazem bem à saúde

Por Tadeu Nascimento


Os cientistas são mesmos uns malucos. Segundo uma pesquisa realizada por uma universidade de Valência, Espanha e publicada esta semana, a presença da mulher bonita faz mal para o homem. Quando li, quase sofri uma síncope! Pensei comigo: daqui a pouco jiló em pó, será adoçante. A explicação dos notáveis: o nível de cortisol produzido pelo corpo humano sob tensão física e psicológica pode aumentar muito quando o homem é deixado sozinho perto de uma bela mulher. O cortisol está relacionado à impotência, a doenças cardíacas e ao diabetes. Com isto estaria provado cientificamente porque que um homem gagueja perto de uma bela mulher; troca as palavras e até erra o itinerário no trânsito. Na possibilidade de conquistá-la, eleva muito o cortisol, garantem os estudiosos. Isto tem a haver com a adrenalina que diminui o fluxo de sangue nas artérias para conter a emoção, podendo provocar até, a impotência no cidadão, na hora "H".
Disse, um dia, Vinicius de Moraes: "As feias que me perdoem, mas a beleza é fundamental!" O belo é a arte de proporcionar o sentimento de êxtase, de prazer que são momentos de felicidade. Toda a natureza é dependente da beleza. Se não, não existiria a primavera, a estação que os animais mais se acasalam. Imagine o mundo sem primavera! Mas, voltando à premissa dos cientistas de que a beleza feminina faz mal ao homem, fica difícil aceitar que as feias não fazem mal. Isto os cientistas não garantem! Se somos todos mortais, então que morramos felizes perto de belas mulheres! Quem não quer uma morte feliz? Se possível com o cortisol nas alturas, pois a emoção é uma das coisas mais interessantes da vida. Pois o bom, é justamente isto: estes descompassos, estes “erros” humanos que provam o honesto interesse do homem por uma mulher. Assim como a adrenalina corre nas artérias do coração do trapezista que salta sem a rede de proteção; no coração do piloto motociclista que corre a 300 Km por hora; no coração do pára-quedista que salta de 10 mil pés de altura, assim também ocorre com quem está sob o império da química da atração por uma bela mulher! A emoção é tão importante que se fosse vendida na farmácia na certa eu seria dela, o seu melhor cliente.
O caro leitor, já imaginou a vida sem emoção, ou melhor, não se emocionar perto de uma bela mulher? Então, que querem os cientistas? Que sejamos gelados, insensíveis como eles que não acreditam em Deus, e que- para eles- o amor é apenas uma ilusão? De que vale a vida sem amor? Eis o porquê do ser humano se preocupar cada vez mais com o poder econômico do que com o seu semelhante. Ora, a beleza essência do amor! E é bom que se diga que nos idiomas antigos, a palavra amor era rica em sinônimos. No sânscrito havia 96 palavras para dizer "amor"; no persa antigo, 80; em inglês há apenas uma (justamente nos países mais capitalistas do mundo). A pobreza idiomática revela o empobrecimento moral, segundo o historiador equatoriano Eduardo Mora-Anda. Ao longo do tempo esses cientistas malucos estão tirando os vernáculos mais bonitos do dicionário da vida. E com seus corações de aço, querem nos tirar o mais importante da vida: a emoção!
Este tema, me faz lembrar um verso de uma canção da década de setenta, de Eduardo Godim e Paulo Cesar Pinheiro: “O importante é que as nossas emoções sobrevivam!”
Conclusão: se as mulheres bonitas fazem mal a nós, homens, as feias nos fazem bem menos felizes!

terça-feira, 4 de maio de 2010

Praça da Igreja de São Sebastião Rio Verde-GO

Saudades de um menino de Rio Verde


Por Tadeu Nascimento


Nasci em um leito no Hospital Santa Terezinha, “nas mãos” do Dr. Walter Pereira de Castro em 1954, em Rio Verde. Passei a infância e parte da juventude nesse rincão. Quis o destino que eu me afastasse de lá, para estudar, casar-me, descasar-me, amadurecer-me. Mas este mesmo destino zombeteiro está cada vez mais, me puxando de volta, tal qual um grande imã que atrai um minúsculo prego. Não reluto com isto, até porque, gostaria que o meu corpo fosse ali sepultado no jazigo onde se encontram os restos mortais de meu pai, Clóvis Leão de Almeida. Assim, como do pó vim e ao pó voltarei, peço humildemente que deixem meus restos mortais, onde repousarão um dia os de minha mãe- que se juntarão aos de meu pai. Embora, distante de onde nasci, nunca me esqueci e tampouco deixei de acompanhar o dia-a-dia de minha terra-mãe. Cultivo com água perfumada da saudade, os anos que ali vivi. Rodei mundo (meu mundo é muito pequeno, não passou de Ribeirão Preto). O menino, filho do professor Clóvis, continua vivo em mim e dele nunca me apartei e nunca me apartarei. Como o escritor Fernando Sabino deixou para o seu epitáfio “Nasci homem, morri menino”, no meu, gostaria que ali registrassem “Nasci menino e morri menino”.

Pois sou o mesmo menino que via nos anos da década de 60, o impoluto prefeito Dr. Paulo Campos atravessando a rua quando ia pra casa descansar do dia trabalhado na prefeitura; que viu o Sr. Aristogogo, gerente dos Móveis Testa, quando os militares, no início da famigerada ditadura, o levaram, juntamente com Sr. Jarbas da Veterinária e o advogado Affonso Rodrigues do Carmo por serem esquerdistas. O mesmo menino que via a figura do Sr. Manoel Filosino, homem de posses, de cabelos encanecidos, pés descalços, com seu enorme e fiel cachorro negro, vendendo alfaces e outras folhas numa bacia também enorme. O mesmo menino que via o dentista Almiro de Moraes subindo, de manhã, com balde de leite da sua chácara- e no caminho distribuindo aos amigos- na baixada que daria acesso, anos mais tarde, ao Clube Campestre. O mesmo menino que via o doce e folclórico João Proto de Sousa, o João Surdo, lendo os jornais do Rio de Janeiro atrás do balcão da Confeitaria Zig-Zag e às vezes bronqueando os jogadores de snooker: “Camundongo, num pode!”; que assistia aos domingos o programa de auditório da Rádio Difusora, do imenso Martinelli; que conheceu Eurico Veloso do Carmo (Nenzinho Veloso), um homem de bem- por 3 vezes prefeito de Rio Verde; o ínclito Dr. Cesar Bastos andando solitário, mas com elegância única. O mesmo menino que era amigo do Tim (Ricardo Campos Sobrinho), personagem importantíssimo na minha juventude, pois era professor de quase todos de minha geração, odontólogo e boêmio, mas que cumpria com suas obrigações profissionais com sacerdócio. No carnaval passava os quatro dias de festa com um penico (nunca usado) cheio de cerveja e com várias salsichas dentro; do Sebastião Fernandes Rattes, o Tão Rattes (que juntamente com o prof. Tim não perdia uma Copa do Mundo. Estiveram presentes na Copa do Mundo do México, da Alemanha, da Argentina. Naquele tempo, quase ninguém conseguia tal proeza ). Voltaram do México triunfantes e desfilaram pelas ruas com sombreiros que são aqueles chapéus mexicanos enormes. Tim foi presidente dos Clubes Rioverdense e Campestre e Rei Momo por muitos anos; dos médicos Alcyr Mendonça, Júlio Emerich, Edsel (Sheco) Emerich tiveram grande importância na cidade e deixaram-me belas recordações. O mesmo menino que conheceu o Bar do Ney, em frente ao Cine Rio Verde que por muito tempo foi reduto da boemia da cidade; o Bar do Milton Jayme, onde se reunia para se discutir política e espalhar fofocas; o Bar do Hotel Minas Goiás do Manoel de Mello, na Praça 5 de Agosto que servia tira-gostos de massa de pastel gratuitos aos clientes. São lembranças de um tempo, para mim, maravilhoso.

Os tipos da cidade. Toda cidade tem seus personagens engraçados ou malucos. Em Rio Verde tínhamos o mulato Bem-Bem, cuja lenda, dizia que era um superdotado sexualmente e que uma dona de um prostíbulo mandava dar-lhe banho e que o perfumasse para suas noites de lascívia; o Pedro Biriba que ameaçava roubar as crianças desobedientes; a Jorja (deve ser Georgia), que também ameaçava levar as crianças malcriadas no saco que trazia consigo; o Mané Côco que andava fardado e ficava apitando o trânsito (e ainda multava o "infrator") no centro da cidade e ainda a telúrica Maria Florista que vivia no pavimento inferior do coreto, andava com flores nos cabelos, outras tantas nas mãos e levantava o vestido rodado pra quem quisesse ver sua partes pudicas. Por baixo do vestido, só vento: não usava calcinhas.

Incêndio do Cine Rio Verde. O cinema faz parte da minha vida. Fui criado entre ingressos, cartazes e telefonemas do público que indagava sobre o filme do dia. Meu avô materno Rafael Nascimento fundou o Cine Rio Verde em 1944. Com a sua morte, minha avó, Dona Tília, como era conhecida, ia para a bilheteria da casa de filmes e sempre levava um ou mais netos com ela. Em 1964, precisamente em 29 de maio, o cinema ardeu em chamas. O povo solidário, tentou, baldeando água, conter as chamas. Em vão. Foi a maior fogueira que eu já vi: um espetáculo dantesco! Um dia marcante na minha vida. O menino, filho do professor Clóvis, chorou ao ver o cinema da sua avó consumir-se no fogo. Achava que não mais veria Johnny Weissmuller na pele de Tarzan; Charton Heston em Bem Hur; Charles Chaplin em “Luzes da ribalta”. Quem assistiu o filme "Cinema paradiso", cuja história, é a de um menino que gostava muito de cinema e vê o prédio do cinema se queimando, pode entender o que- na vida real- se passou comigo. Todavia, com muito esforço, a família, no dia 31 de dezembro do mesmo ano, inaugurou o novo Cine Rio Verde com o filme “Os dez mandamentos”, com Charton Heston.

Todos os personagens (exceção ao Dr. Walter de Castro- com a graça de Deus- que até hoje medica no Hospital Santa Maria, em Goiânia) citados nesta crônica se foram desta vida, mas para mim são inesquecíveis. Fica a saudade de um menino cravada no peito de um homem.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

James Bain: 35 anos na prisão

Quanto vale uma vida (Erros judiciários)

Por Tadeu Nascimento




Vi com muita tristeza, pela TV, o veredito do julgamento do casal Nardoni. Repugnei o circo armado pelas emissoras de televisão, que faturaram milhões em cima da desgraça alheia. Vi o povo insuflado ao ponto da barbárie. Permitiram a instalação de um de telão perto do forum do julgamento e quando saiu o veredito condenando o casal, enfumaçaram o céu com foguetes. Fiquei com vergonha da raça humana. Pergunto ao leitor: e se no futuro for comprovado que foi um erro judiciário, que o assassino de Isabela fora outra pessoa? O leitor, diante de tantas informações, diante todos os indícios de que o casal assassinou a menina, dirá, com convicção, que não há dúvidas quanto a autoria do crime. Pois, caro leitor, todos os erros judiciários são embasados em fortes indícios ou "provas" que levam à condenações. Eis alguns erros judiciários que se tornaram famosos acontecidos no Brasil e no mundo: A fera de Macabu. Antônio Motta Coqueiro, fazendeiro abastado do lugarejo chamado Macabu, distrito de Macaé, RJ é condenado a forca por cometer a chacina de 8 pessoas de uma família em 1852. Todos indícios apontavam que Motta era o responsável. A população revoltou-se. As roupas ensanguentadas das vítimas foram expostas nas ruas de Macaé. Histórico da acusação: Motta se apaixonou por Francisca, filha de um colono, Francisco Benedito, e este, de pronto, não aceitou o relacionamento porque o fazendeiro era casado. O que os tornaram inimigos entre si. O colono e familiares foram assassinados a golpes de facão. Após a chacina, foi encontrado debaixo da cama de uma das empregadas do rico fazendeiro roupas cheias de sangues pertencentes aos empregados de Motta Coqueiro. O imperador D. Pedro II era a única pessoa que poderia salvá-lo da forca com a graça imperial. Pedro II, convencido pelas evidências, não concede o livramento. Motta é executado. Ele, e outros 5 acusados. Passado uns meses, um padre ouve no confessionário uma testemunha que disse quem fora o verdadeiro culpado: Dona Úrsula, a esposa de Motta Coqueiro! Cega de ciúmes contratou os próprios empregados da fazenda para o serviço espúrio. Dom Pedro II ficou tão envergonhado com a execução de Motta que extinguiu a pena de morte no Brasil. Este caso é conhecido como a Fera de Macabu.
Os Naves. Os irmãos Joaquim e Sebastião Naves tornaram-se sócios do primo Benedito Pereira Caetano em um armazém de cereais em Araguari em 1937. Certo dia, Benedito desaparece. Os dias se passam e nada de Benedito. O delegado, tenente Francisco Vieira dos Santos, o Chico Vieira, aposta que os irmãos sócios deram cabo em Benedito para ficar com o estoque de cereais do armazém. Foram presos e condenados a vinte e cinco anos e meio de cadeia. O gentil delegado para formalizar provas obrigou os irmãos confessar o assassinato de Benedito. Todo tipo de perversidades, desde arrancar-lhes as unhas, enfiar-lhes objetos nos orifícios, e surrar-lhes foram impostos para conseguir a confissão. Prendeu a mãe e as esposas que passaram a sofrer torturas diversas, até sexuais. Joaquim não suporta tamanho sofrimento, morre no asilo em decorrência das torturas. Eis que um dia, em julho de 1952, Benedito é visto em Nova Ponte, MG. Havia se passado 11 anos e o perverso delegado já havia morrido no mesmo ano em Belo Horizonte. O caso é esclarecido em 1953, mas o sofrimento foi maior que os dezesseis anos de injustiça.
O caso Dreyfus. Em 1894 foi descoberta uma carta em um cesto de lixo na Embaixada da Alemanha em Paris. A carta foi parar nas mãos do Serviço Secreto Francês. Logo concluíram que existia um traidor entre os oficiais franceses que espionava para os alemães. Alfred Dreyfus, o único oficial judeu foi considerado o principal suspeito e foi levado a julgamento. Condenado a prisão perpétua, foi cumprir pena na Ilha do Diabo, Guiana Francesa. Foi degradado em praça pública. Meses depois, os indícios de inocência foram surgindo e então possibilitou-se um novo julgamento. Foi condenado mais uma vez. O escritor Emile Zola expôs a injustiça nos jornais através de uma carta aberta ao Presidente da República. O povo francês se dividiu. Muitos estavam a favor de Dreyfus, outros tantos, contra Deyfrus, principalmente porque este era judeu. Na revisão do processo de Deyfrus, em 1906, comprovou que Charles-Ferdinand Walsin, major francês fora o verdadeiro autor das cartas e que agia como espião dos alemães. Deyfrus é restabelecido no exército. Foram doze anos de prisão. Foi o erro judiciário mais famoso do mundo.
Em1974, na Flórida (EUA), foi condenado a prisão perpétua um rapaz de 19 anos, James Bain, por atentado violento ao pudor, contra um menino de 9 anos, ou seja, por pedofilia. No final de 2009, uma ONG (organização não governamental), " Institut Inoncent" dedicada a combater erros judiciais, comprovou que Blain não atacou o menino. Testes de DNA realizados comprovaram a inocência do Blain que ficou 35 anos na cadeia. Blain está mais velho do que deveria com seus 54 anos de idade. Quem vai devolver estes 35 anos de mocidade que lhe usurparam? Quanto vale uma vida?

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Av. Universitária


Mulheres das sete e vinte

Por Tadeu Nascimento

A princípio pensei que era apenas uma coincidência ver tantas numa pequena fração da manhã. São como uma revoada de pássaros, pensei. Mas, com o seguir dos dias, confirmei que a "coincidência" se repetia (se repete) em dias de feira: de segunda a sexta. Acredito numa armação por parte das mulheres bonitas (só as bonitas; as feias não se entendem nem abaixo de vara de marmelo!). Existe sim, um acordo- entre elas- tácito, inconsciente: elas acordam por volta das seis e meia da manhã. Gastam meia hora entre o espreguiçar, o escolher da roupa, o escovar dos dentes, o pentear dos cabelos. Porque elas tem um encontro às sete e vinte, com seus afazeres, em qualquer lugar no Setor Oeste ou na Praça Cívica ou ainda no setor Universitário. Vinicius de Moraes tinha razão quando disse: "As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental!" Sem se conhecerem, umas passam pelas outras, descortinando a manhã. Umas, com passos rápidos, outras se exibindo para os homens que com elas se cruzam, outras que se deixam levar pelo fluxo do trânsito. É impressionante o número de mulheres, cuja beleza eleva o astral do macho, relevando à insignificância- por alguns minutos- a neurose da labuta em busca do pão de cada dia. Trata-se de belezas naturais, frescas, limpas, imaculadas. Nada dos excessos que carregam as mulheres que saem à noite, muitas delas cansadas pelo que se passaram no decorrer do dia- da perseguição do chefe da seção à neurose do patrão além do caos do trânsito- revelam- antes de suas belas roupas- intenções outras que estão longe da naturalidade que se expõem nas primeiras horas da manhã, quando vão ao trabalho, à universidade.

É preciso atenção diante do volante para não causar grandes estragos na natureza, diante de tantas mulheres de siluetas esculpidas por Deus. Quem duvidar, é só fazer o meu trajeto: comece pela Praça Tamandaré, mais ou menos às sete da manhã. Devagar (mais uma vez) para não agredir o meio ambiente, pois ali é passagem de fêmeas, no auge das suas juventudes, atravessando a parte de cima da praça. Devagar porque ali está prova cabal que Deus existe, pois Ele lhe deu dois olhos e uma libido para apreciar o quanto a natureza é generosa! Devagar para ver o quanto a cidade é repleta de belas mulheres!

Umas, cruzam a praça em busca do desjejum no Biscoitos Pereira, outras já abastecidas com café da manhã domésticos, outras ainda se debatendo contra a vontade de comer para se continuarem esguias e belas. Sem contar as que fazem o sentido contrário com a mesma disposição. Quase todas direcionadas para centenas de escritórios, consultórios, hotéis, além das instituições bancárias do Setor Oeste. Segue o leitor pela Assis Chateaubriand, passando pelo Palácio da Justiça e vai concordar que não é exagero: vale a pena levantar um pouco mais cedo! É como se acordar na roça para ver o amanhecer com a passarada cantando, repletas de andorinhas e bem-te-vis! Seguindo a rota que faço todos os dias para o trabalho, chega-se à Avenida Universitária. Eis, a apoteose: na casa dos vinte minutos depois das sete, uma manada- assim como nas Savanas de Serengeti no Quênia, África- de seres da melhor espécie: de calça jeans e mini blusas mostrando os umbigos; com tatuagens, sem tatuagens, de mini saias, umas menos comportadas, outras mais ousadas no vestir (existe diferença!); de cabelos soltos como é solta a juventude, de rabos de cavalo ou de madeixas rebeldes. Às vezes me convenço que as revoadas não são de pássaros; mas de anjos que estão ali se preparando, se transformando em enfermeiras, médicas, odontólogas, advogadas, jornalistas, psicólogas, engenheiras, arquitetas que vem ao mundo para ajudar os homens na travessia por esta vida! Passam com os olhares firmes no futuro, com bolsas forçando um ombro, umas vestidas com jaleco e estetoscópios pendurados nos pescoços, outras com o peso das leis dos Vade Mecum, ou dos "lap top" e até aquelas de andado leve, carregam no entanto, um monte de sonhos. De longe, o cronista fica a a pintar a tela que seus olhos retratam ao mesmo tempo que seu neurônios filosofam, o quanto é bela a juventude !
Lamentavelmente este ritual não existe na volta para casa. Elas se dispersam. São lutadoras como Joana D'Arc: umas fazem horas extras, outras se sacrificam nos bancos das faculdades, nas compras da semana nos supermercados. A maioria, cançada, ainda vai preparar no fogo uma comidinha antes de cair na cama e há aquelas que vão banir o estresse numa mesa de um boteco. Para recomeçar na manhã seguinte. Deus existe!

quarta-feira, 31 de março de 2010



O Caminho da Pedras

Por Tadeu Nascimento


Amarildo Carimbó, de Água Mansa, sujeito subalterno nas querenças caprichosas da patroa Dona Manoelina, andava sempre com os olhos pregados nas suas botinas, no desviante das tentações das curvas e rebolados do mulherio da cidade. Andava tão no retilíneo que para virar uma esquina, dava um solavanco no esqueleto que parecia que nele estava baixando o santo. Intimidades de sussurros e adjacências, só com a cara metade, que de tão gorda tinha tantas metades que Carimbó sempre caia no dificultoso de encontrar o caminho das pedras, ainda mais no escuridéu dos bons costumes que Dona Manoelina exigia. Seu Carimbó era um caminhão de tristezas! Se o céu for mesmo o marasmo de só "viver" no silencioso e rezaria de que tanto falam, ele preferiria fazer uma reserva no inferno, desde que o proprietário lhe garantisse frevo dos mais atrevidos e mulheres fantasiadas das mais finas safadezas! Mas como todo mundo tem o seu dia, chegou o dia da patroa despedir-se da vida. A boa notícia pegou o marido no contra-pé da surpresa que caiu durinho da silva! Seu Carimbó foi diretinho para o céu. Lá, São Pedro o recebeu com os braços abertos. "Seja bem vindo, filho querido!"-disse São Pedro. Mas o recém-chegado, muito do desconfiado com tamanha cerimônia, pediu licença a santidade e foi conferir o ambiente, o que achou muito chegado no respeitoso e muita brancura no visual, algo como uma praia de algodão doce e a trilha sonora com muitos desenrolamentos de ladainhas. Seu Carimbó perguntou então ao porteiro se não tinha ali, um pagodezinho, um arrasta-pé, um baile funk. São Pedro respondeu no mais sisudo que não.
- Nem na sexta-feira, no sábado?- questinou Carimbó.
- Aqui, todos os dias são iguais!
- Não vai me dizer que não tem botecos, choparias e boates?...
- Lamento, mas não tem!
- Nenhum?
- Não, lamento!
- Mas aonde a moçada se encontra?
- Aqui mesmo, nas nuvens! Encontra-se para as orações!
- Mas não tem uma folguinha, pra tomar um chope, fazer uma farrinha?...
Ah, meu Deus! Onde vim parar! Pensou, o recém chegado.
São Pedro com ar de decepcionado, respondeu:
- Lugar de farra é lá embaixo!- apontou da janela do céu.
Seu Carimbó foi então até a janela, pôs o ouvido de fora e ouviu o funk "Thuthuca, vem aqui pro seu negão!" e uma gritaria de festa das mais animadas!
- É disto que eu preciso, São Pedro! Pela deferência celestial a mim dedicada, vou lhe agradecer, meu santo, mas vida de marasmo e de algodão doce, já bastaram os 30 anos com Manoelina! Agora quero ir à forra e à farra!
- Vai com Deus, aliás, vai e volte com Deus, meu filho!
Deu adeusinho pro santo e desceu nuvens abaixo. Mas não passou meia horinha, eis Seu Carimbó de volta, ofegante, pedindo pelo amor de Deus para entrar. São Pedro, surpreso, perguntou com aquela voz de Dom Paulo Evaristo Arns, se ele não gostou do inferno e ele respondeu:
- Sim !... não!.. sim!..não!.. É que eu levei um susto danado, São Pedro, quando vi a Manoelina e a mãe dela fazendo, as duas, striptease para o Capeta, ao som de "Thuthuca, vem aqui pro seu negão!" E o pior, "era ele, o Demo, que estava cantando!"

quinta-feira, 25 de março de 2010

Gisele Bundchen

E Dona Emengarda queria ser atriz

Por Tadeu Nascimento

E Dona Emengarda de Sá, com os seus 130 quilos, resolveu fazer regime de afinamento, pra ganhar perfil de atriz de cinema:
- Quero ter corpo de gazela, doutor! Algo como Angelina Jolie ou Gisele Bundchen! Porque já me cansei de esperar pelas migalhas de amor do meu marido Setembrino! Atualmente, ele me olha como se eu fosse um parente distante, um quadro de pintura abstrata! A última vez que ele me procurou foi quando o Botofago foi campeão carioca. Isto já vai pra cinco anos! Na verdade, ele fez todo tipo de juramento para que o Botafogo ganhasse aquele campeonato: jurou que iria votar no Enéas pra presidente (Enéas ainda estava vivo), que não iria mais fumar, nem ingerir bebida alcoólica por um mês e que não comeria jiló por resto vida (mas ele detesta jiló!) e que iria a pé até a Aparecida do Norte e outras promessas que segundo ele, eram segredo! Aliás, doutor, tenho uma leve impressão que eu faço parte destas promessas! Mas o que me leva a esta atitude radical é o olhar de curva de Setembrino em cima das protuberâncias que ficam logo abaixo da cinturinha fina de Zuleica, nossa empregada! Aliás, ele vive cochichando nos ouvidos dela e ela, por sua vez, faz um sorriso dos mais sem vergonha! Tô muito desconfiada também, com esta coisa do Setembrino ler todos os dias, em voz alta, no jornal, a previsão do tempo, pra saber se vai chover, só pra fazer a caridade de levar Zuleica pra casa dela. Um dia descobri que ele lia diariamente o mesmo jornal, datado de 10 de outubro. Ora, já estamos no final de março! Mas o que posso fazer, se eu não vivo sem o Setembrino! Portanto, a partir de hoje só bebo água e mastigo gelo!- disse ela para o médico endocrinologista.
- Nunca tive uma paciente tão obcecada! Se isto vira moda, eu é que vou morrer de fome!- disse o médico emagrecedor de madame.
E para acelerar o emagrecimento, Emengarda corria 10 quilômetros por dia e ainda obedecia a um personal trainer especialista em faquir. As costelas já estavam espetando costelas e ela ali, com olhar de deserto, se achando cada vez mais apta ao estrelato. "Mais um pouco, já posso fazer novela na Globo, beijar o Geanecchini, dançar no Programa do Gugu e sair nua na Playboy. Depois disso, meu projeto é tomar o Jesus Luz de Madonna! Aí eu quero ver Setembrino se morder ciúme! É só esperar que eu estou chegando!"- falava Emengarda para si mesma.
E Dona Emengarda foi ganhando jeito de vara de bambu. E de vara de bambu para o jeito de palito e de palito para o jeito de caveira.
E Setembrino, querendo ficar livre, para todo o sempre de Dona Emengarda, dizia a ela:
-Emengardinha, me orgulho muito de você! Você está revolucionando a ciência, principalmente a Endocrinologia, a Psicologia, a Parapsicologia, além de outras "gias"! Sua força de vontade é maior que a de Sansão, de Hércules e de Marco Maciel, aquele que foi vice-presidente! Mas voltando ao assunto, Emengardinha, você tá quase no ponto! Mais uns 25 Kg a menos e você vai ficar mais bonita que Angelina Jolie e mais enxuta do que Gisele Bundchen!
Os meses se passaram e Dona Emengarda continuava firme no propósito de se tornar estrela de Hollywood e com isto, apertava o cinto do regime e assim, do jeito de caveira, foi ganhando jeito de extrema-unção.
E no hospital, Setembrino despediu de Dona Emengarda com jeito de 7º dia:
- Emengardinha querida, você nunca teve jeito pra artista de cinema! Você nunca conseguiu decorar nem "Batatinha quando nasce"! Vai com Deus Emengardinha, que eu me encontro com você na outra encarnação, lá em Hollywood! Vai Emengardinha, vai! Estou mandando, vai! Vai!
E ela foi.
Como é minha senhora? A senhora queria um final surpreendente e feliz para Emengarda? Impossível. Emengarda não merece. O regime veio hora muito atrasada! Talvez na outra vida, lá em Hollywood.
Em tempo: qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

quarta-feira, 17 de março de 2010


O amigo da onça

Por Tadeu Nascimento


Adalberto se encontra com Murilo numa mesa de bar:
- Parabéns, cara!
- Parabéns,
por que? Hoje não é o meu aniversário!
- Parabéns porque ontem, você saiu com a Daniela! Aquela potranca, a mulher mais gostosa da cidade! Quem diria, o mais modesto dos meus amigos! Todos deram em cima dela, mas só você, Murilão, conseguiu! Grande Murilão! Você agora, é o meu herói!
- Antes, eu era Murilinho, raramente Murilo, agora sou Murilão! Aí, tem coisa!..Muito bem, mas... quem te contou?
- As notícias voam, meu caro! Mas me conta, eu quero saber!
- Saber o quê?
- Eu quero detalhes! Vamos, me conta!
- Contar o quê, Adalberto?
- Ora, como foi a transa!
- Que papo é este? Toma seu chope, se não esquenta!
- Eu preciso que você me conte! Além do mais, sou o seu melhor amigo! Eu mereço saber!
- Não quero falar sobre isto! É coisa exclusivamente minha e dela! Vamos mudar de assunto: o seu Goiás Esporte Clube, hein...não tá nem entre os quatro!..

- Vai guardar segredo só pra você? Se não contar pra alguém, não tem graça!
- Você está sendo cretino!
- Cretino ou não, você vai me contar, eu te contei a minha transa, tim-tim por tim-tim com a Sandrinha!..E você ficou babando com os detalhes!
- Eu fiquei babando, é? Você tá louco! Procure o Marcelo Caixeta, é o melhor psiquiatra da cidade!
- Sim, senhor! Você ficou todo excitado! Acho que você ficou imaginando como foi! Vamos lá, rasgue o verbo, meu caro, quero de-ta-lhes! Eu sou amante dos de-ta-lhes!
- Qual é, Adalberto?! Eu não tenho procuração da Daniela para falar sobre a nossa intimidade! Não tem essa de de-ta-lhes! Aliás, faça como você mesmo disse, vai imaginando como foi, tá?
- Ah, é? Então vou imaginar: você a levou para o melhor motel da cidade, e lá, com toda classe- porque eu te conheço- abriu uma garrafa de vinho, ou seria de champagne? Champagne, ela merece! Depois vocês se beijaram por muito tempo e passaram a se alisar, mãos percorrendo as pernas. Você jogou Daniela na cama... Foi ou não foi?
- Não tenho nada a declarar!
- E aí? Termina de me contar! Ela é boa de cama?

- Me respeita, Adalberto! Eu não sou canalha!
- Pôxa, cara, eu não vou sair esparramando por aí! Me conta!
- Eu não te conto nada!

- Não cara, conta! Você não tá vendo que eu estou sofrendo com esta ansiedade!
- Adalberto, eu vou apelar!...
- Aí, você foi tirando a roupa dela... Não, não, antes ela fez um streptease, bem devagarzinho, na penumbra, ao som da Madonna ou do Barry White e você com a taça de champagne, babando...
- Você que está babando!
- Aí, você começou a tirar a roupa, mais rápido que um foguete e foi dançar com ela de cueca...
- Eu fui dançar de cueca? Como é que você sabe disso?
- Uai, estou imaginando! A minha imaginação é fértil!
- Fértil é sua avó que tem um neto mais idiota do planeta!
- Não apela! Apelou, perdeu! Vamos continuar com a minha imaginação: De repente você está pelado também, diante daquela deusa maravilhosa que está só de calcinha!..Aí, você a puxou com delicadeza pra cama, tirou-lhe o último pedacinho de pano e começou a beijar o corpo dela e ela ficou sussurrando nos seus ouvidos e aí... e aí... você não deu conta! Brochou! Ah, foi por isso que você não quis me contar! Você brochou! Ka, ka, ka! Não foi isso mesmo que aconteceu? Brochou! Ka, ka, ka! Não se preocupe, meu amigo, isto acontece... É próprio da idade! Mas por que você não tomou um Viagra, Murilinho?
- Vai te catar, seu cretino!

- Eu vou, mas com a Daniela!.. E com um Viagra no bolso!

quinta-feira, 11 de março de 2010




Butantan city



Por Tadeu Nascimento



O fato ocorreu na década de 90 numa cidade perto de Goiânia, dias antes das eleições municipais. Este cronista, querendo preservar a sua paz, se reservou no direito de dar nomes fictícios à cidade e aos personagens em questão e, claro, com a sua visão de cronista, carregou a história com um pouco de tintas de exagero e de humor:

Albatênio Pedroso, político obcecado pelo poder, fazia qualquer falcatrua para chegar à prefeitura de Brejo City. Com o lema “Vote no Albatênio, o candidato do 3º milênio”, acreditava que arrumaria sua a vida para sempre, se ganhasse a eleição. Depois de consumir todas as idéias de passar a perna nos adversários, falou para o seu puxa-saco imediato:
- Seu Raimundinho Braz, tenho uma tarefa que lhe cabe muito bem! Acreditando na sua maldade de cobra surucucu, quero que o senhor me dê um tiro caprichado neste peito cheio de bem querer! E não erre a pontaria porque senão, eu que lhe darei uns tiros de garrucha de dois canos, nas suas partes pudicas!

- Mas pra que isto, seu Batênio? Se eu der um tiro no senhor, o senhor bate com as dez, eu perco o emprego e ainda pego uma cana arretada!

- Deixe de ser besta homem! Por acaso eu tenho cara de anta? ‘Cê acha que eu sou seu irmão? Isto é pra jogar a culpa no Joaquim Coró! Aí o povo pula para o meu lado! De dó de mim, e de raiva do Joaquim Coró! É agora ou nunca! Senão ele ganha a eleição!

- Mas o povo não vota em morto, seu Batênio!

- Mas tu és uma besta mesmo! Eu não vou morrer! Tá vendo isto? É um colete à prova de balas! Prega fogo, porque aqui é macho de muita coragem!

- Então segura, que lá vai chumbo!

Albatênio ficou mais sapecado que porco em sábado de aleluia!

Brejo City acordou atônita: “Tentaram matar o Albatênio!”, “Dizem que foi a mando do Joaquim Coró!” “Coitado do Albatênio!”, “Nossa Senhora da Aparecida protega Albatênio!,” “Missa para o Albatênio!”, “Existe uma romaria na porta da casa de Albatênio!”. Estas frases saiam a cada minuto da boca do povão, que- como sempre- vota na base da emoção. Enquanto isto, seu Raimundinho Braz se encarregou de convocar a mídia, e com isso, dava entrevista na rádio local, lia boletim médico (que ele mesmo subscrevia) de hora em hora, dizendo que a vítima estava se recuperando e que Deus desviou a bala endereçada para o coração de Albatênio, apesar da maldade dos adversários, marcou missa- pró recuperação do moribundo- de hora em hora e ainda convocou as meninas de vida fácil para chorar na porta casa da vítima.

Uma semana depois, a pesquisa apontava Albatênio como futuro prefeito da cidade. Joaquim Coró, vendo sua vitória cada vez mais longe, partiu para o contra ataque: mandou seqüestrar a própria mulher e também a sogra pra se livrar do entulho, deixando ameaça em bilhete, dizendo que se o candidato Joaquim Coró ganhasse a eleição, só devolveriam- por castigo- a sogra!

Um mês depois das eleições, o vitorioso Coró dizia para Coró:

- Quem mexe com cobra venenosa tem que andar com soro antiofídico no bolso! E eu não sou besta! Agora, é só mandar fazer o terno, embelezar a primeira dama, arrumar uma secretária cheia de curvas e protuberâncias, internar a minha sogra num hospício- pois ela está com a mania de dizer que eu sou sequestrador de sogra!- por conta da prefeitura, claro; nomear seu Raimundinho Braz pra secretário e passar a mão na chave do cofre da tesouraria! Não é à toa que meu lema é “Vote no mió, Vote no Joaquim Coró!”

terça-feira, 2 de março de 2010

Romeu e Julieta no cinema

Edgar e Elizabeth


Por Tadeu Nascimento



Edgar amava perdidamente Elizabeth. E vice versa. Sabe aquele amor impossível, tipo Romeu e Julieta? Pois é, mais uma vez, ele pobre, ela riquíssima. Ela acabara de entrar na faculdade de filosofia. Ele, reprovado no vestibular para medicina. Edgar prometeu aos amigos meter uma bala na cabeça se Betinha se casasse com outro. Ela, por sua vez emagreceu, perdeu o ano na faculdade. Tudo porque Shakespeare já dizia que pobre com rico não dá samba, dá merda! No entanto, ela garantia que iria cortar os pulsos com uma faca de cortar mortadela se a impedissem de casar com o seu bem querer, o Edgar! Mais uma vez não deu certo. Nem o casamento, nem o suicídio de um ou de ambos. Os pais de Elizabeth exportaram-na para os "Esteites". Por lá se casou e pouco dela se teve notícias. Edgar ficou a chorar pelos cantos dos bares e nas confortáveis saboneteiras femininas. Por aqui ficou, ultrapassando o Mário's Chops, o Zé Latinhas, o Dona Beija, o Salerno, o Don Quixote, o Degraus 94, o Zero Bar, até chegar ao Bar do Celso. Adotou uma solteirice encravada e a defendia com a determinação de São Jorge espetando a guela do dragão.
Por volta dos anos setenta, Edgar, dono de uma vasta cabeleira, magro como um gafanhoto, com sua calça que apertava as partes baixas e adjacências, circulava na Rua 8 do Centro, lépido e faceiro como se fosse o próprio Romeu de Verona ao expor a sua juventude ao som dos Beatles e dos Rolling Stones que- desculpa-me a redundância- rolava no Lanche Americano. Não havia uma dondoca com mini saia que não passava sem piscar um olho para o galã shakespeariano. Ela, angelicalmente bela- bem comportada, como toda filha de rico- todos os sábados ia saborear um milque cheique (este cronista se recusa a beber e a comer em inglês!)- quase sofreu uma síncope quando viu Edgar pela primeira vez: "Ele é mais bonito que o Ronnie Von! Roberto Carlos perto dele é o Frankistein!"- jurava Betinha. Paixão a primeira, a segunda e a enésima vista! Ela, magrinha e encantadora como Audrey Hepburn, " A Bonequinha de luxo". Ele fazia hora, competindo com os artistas em cartaz, na porta do Cine Casablanca que naquela semana, exibia "But Cassidy" com Paul Newman e Robert Redford. O coração de periferia de Edgar não aguentou quando seus olhos viram Elizabeth: se apaixonou pela primeira e última vez na vida!
Outro dia, cá em fevereiro de 2010, Edgar, no auge da sua maturidade, com uma manquitolante perna esquerda com gota, ao dobrar uma esquina movimentada do centro da cidade bate de topo, ou melhor, dá um encontrão com uma mulher. Ela quase caiu. Ao se desequilibrar, esconjurou todos os machos do planeta. Ele teve que se amparar numa parede. A dor no dedão do pé esquerdo o fez evocar em pensamento todos os palavrões usados por Bocage. Quando olhou para quem o atropelou, se surpreendeu:
-Mas o que é isto? Uma jamanta desta envergadura deveria trafegar na rua e não no passeio! E com a polícia abrindo passagem com a sirene ligada!- Disse Edgar para Edgar.
- Que cara mais escroto! De tão gordo, parece que está prestes a dar a luz a um casal de gêmeos! Além de careca! Se tivesse espelho em casa teria vergonha de andar na rua! Tem gente que não se toca! Que trombolho!- Praguejou no silêncio Elizabeth.
Olharam um para o outro com caras de lutadores de sumô. Em pensamento, ambos fizeram análise um do outro:
- Deve ser uma mulher muito infeliz com este corpo de patrola! Duvido que algum homem deste mundo, um dia se interessou em dormir com esta coisa!- apostou em pensamento Edgar.
- Deve ser um homem que- de tão grávido- nenhuma mulher normal ou louca ousou fazer amor com ele!
- Preferia ser brocha a vida inteira, que dormir com esta patrola!
- Deus me livre de um homem assim! Com esta pança escandalosa, deve ter umas 4 décadas que não consegue ver o próprio bilau!- exclamou em off, Elizabeth.
Assim passaram um pelo outro, no embalo de quarenta anos, um amor trepidante que se derreteu ao passar pela guela do tempo.