quinta-feira, 29 de outubro de 2009


Abílio Wolney


Os três momentos mais importantes da História de Goiás




Por Tadeu Nascimento



Com o advento do aniversário de Goiânia, me veio à mente o que foi o Estado de Goiás antes da mudança da Capital. O arcaico antes do moderno. O coronelismo antes da democracia. E a conclusão a que cheguei é que os momentos mais importantes da História de Goiás se deram nas duas primeiras décadas do século XX. No entanto, são históricos pelo seu lado trágico. São os episódios de São José do Duro (hoje Dianópolis – Tocantins); da República dos Anjos (Comunidade de Santa Dica), em Lagoa (hoje Lagolândia, distrito de Pirenópolis) e o da Revolução de 1930 (em Goiás, o momento culminante se deu em Rio Verde, quando prenderam Pedro Ludovico). Em todos os três momentos foram às custas da violência. O episódio de São José do Duro, que mais tarde foi retratado no livro O Tronco, de Bernardo Élis, aconteceu quando o coronel Abílio Wolney se rebela contra o chefe político de Goiás, o então deputado estadual Antônio Ramos Caiado, o Totó Caiado. A pendenga começou, segundo o escritor Osvaldo Póvoa, quando “Totó Caiado, sob o pretexto de protestar contra um projeto de lei, parecia disposto a apelar para a agressão física, obrigando Abílio a abrir uma gaveta, simulando que ia usar uma arma. ‘Se der mais um passo, eu atiro!’ – gritou Abílio. Era apenas um artifício, pois não havia arma nenhuma na gaveta. Seu quase agressor ameaçou: ‘Você me paga!..’” Abílio, juntamente com Luís Gonzaga Jayme e Emílio Póvoa, funda o jornal O Estado de Goiás e move cerrada oposição ao governo. Na redação, um dos jornalistas mais polêmicos da época: Moisés Santana. O governo tenta empastelar o jornal. Abílio Wolney se retira para o Duro. Por causa de um inventário impugnado pelo coletor estadual Sebastião de Brito Guimarães, Wolney exige do juiz a solução para o inventário. O governador João Alves de Castro, pressionado por Totó Caiado para agir contra o seu desafeto, envia uma comissão comandada pelo juiz Celso Calmon da Gama com 60 soldados. Os soldados matam sob as ordens de Calmon, em emboscada, o pai de Abílio, o coronel Joaquim Ayres Cavalcante Wolney à vista do filho, que não teve como defender o pai. Abílio foge, busca refúgio na Bahia e traz com ele um bando de 200 cangaceiros para invadir o Duro. Os soldados, sabendo que a tropa de Abílio invadiria o povoado, colocam cinco dos familiares de Abílio no tronco. Este, prestes a atacar, recebe a visita de sua irmã, que lhe foi implorar para que não invadisse o Duro, pois a ordem era matar todos (entre eles o seu filho ) se Abílio ousasse invadir. Abílio tentou recuar, mas os cangaceiros não abriram mão de saquear o lugarejo. Os soldados, diante do ataque, assassinaram nove (5 no tronco) prisioneiros e os cangaceiros arrasaram a cidade. Era 16 de janeiro de 1919, uma quinta-feira. Anos depois, o escritor Osvaldo Póvoa escreve o livro Quinta-Feira Sangrenta. Abílio não pôde viver mais no Duro, mudou-se para Barreiras (BA), onde foi prefeito e chefe político. Curiosidade à parte, Abílio Wolney é o autor do projeto que mudou o nome de Santana das Antas para Anápolis. Há poucos anos tentaram retirar o busto de Abílio Wolney de uma praça pública de Anápolis. Foi preciso que um de seus netos se insurgisse contra tal insensatez. Talvez o “genial” e “progressista” vereador quisesse que Anápolis voltasse a se chamar Santana das Antas.

Santa Dica, nascida Benedicta Cypriano Gomes, é mais um ser milagreiro deste Brasil místico e confuso. Santa Dica era uma espécie de Antônio Conselheiro de saias. Curandeira, milagreira, profetiza, santa ou demônio, desenvolveu o seu movimento no vilarejo da Lagoa, hoje distrito de Pirenópolis. Na comunidade conhecida por “Anjos” ou “Calamita dos Anjos”, viveu-se um mundo paralelo, quase anárquico, dirigido apenas pelas ordens da Santa Dica. Assim como em Canudos de Antônio Conselheiro contestavam a propriedade da terra, a legislação vigente e o casamento civil. Enfim, condenavam o comportamento da sociedade humana que ficava fora da comunidade dos Anjos. Os grupos dominantes e a igreja denunciaram ao governo do Estado que ali poderia surgir uma nova Canudos. Dica se tornou uma espécie de “Lenin do sexo diferente”, trazia a manchete do jornal O Democrata em 10 de outubro de 1924, pois defendia ela que “a terra não é propriedade de quem tem o título dela”. Santa Dica tornava-se famosa nos grandes centros. A pintora Tarsila Amaral, expoente da “Semana de Arte de 1922” de São Paulo, a eternizou em um dos seus quadros. O governo envia um batalhão com 114 soldados sob o comando (adivinha de quem?) do mesmo juiz Celso Calmon de Gama. A batalha foi tão desproporcional que durou apenas 30 minutos, onde morreram 11 “revoltosos” e dezenas ficaram feridos. O dia era 14 de outubro de 1925.

A Revolução de 30. Pedro Ludovico, com outros revoltosos, invade a cidade de Rio Verde no final de setembro. O chefe político da cidade era o major (da Guarda Nacional) Frederico Gonzaga Jayme. Pedro Ludovico é preso e depois fora enviado, juntamente com Oscar Campos (pai do ex-prefeito de Rio Verde Paulo Campos), para a cidade de Goiás. A caminho para a velha capital viajavam no primeiro carro César da Cunha Bastos com Pedro Ludovico e no segundo carro, o alferes Antônio Catulino Viegas com Oscar Campos. Chegando na Cachoeira da Fumaça, um outro carro em direção contrária chega com a notícia de que a Revolução triunfara. Ou seja, os Estados de Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba venceram os governos central de Washington Luís e do Estado de São Paulo, que burlaram a eleição para Presidência da República a favor de Júlio Prestes, então governador de São Paulo, contra o candidato a presidente Getúlio Vargas, então governador gaúcho. Era o fim dos governos dos coronéis.

Mas o que têm em comum estes fatos históricos além do chefe Antônio Ramos Caiado e o sangue derramado? Resposta: um personagem de sua estrita confiança. Um cidadão que, onde houvesse desafeto que oferecesse perigo ao governo, lá estava ele, Antônio Catulino Viegas, o Alferes Catulino. No episódio do Tronco em São José do Duro, foi um dos três alferes que trancafiaram os familiares de Wolney no tronco. Catulino executou o menor Oscar Wolney Leal, filho da irmã de Abílio, aquela que tentara impedir o ataque. Foi condenado pelos crimes no Duro a 25 anos e seis meses de cadeia e exonerado da polícia. Todavia, um ano depois é reintegrado no corpo policial. Na invasão da Comunidade dos Anjos de Santa Dica, ele era a voz do ataque que matou 11 e feriu dezenas de revoltosos. Por fim a Revolução de 30: com a notícia que a Revolução triunfara, inverteram-se os papéis: Pedro Ludovico e Oscar Campos escoltaram os presos Cesar da Cunha Bastos e Catulino Viegas para a antiga capital. Era 3 de outubro de 1930. Início de uma nova era.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009











Fachada Café Central


As almas encantadoras do Café Central


Por Tadeu Nascimento

Tal qual uma sentinela, fico a observar as mudanças da cidade. Mais ainda o comportamento das pessoas. Aprendi com Lavoisier: Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Tudo se transformou. As ruas se modificaram, as casas também. Os prédios antigos cederam lugares aos novos. A moda mudou a indumentária das pessoas. Os “tipos”, quero dizer, as pessoas folclóricas simplesmente se evaporaram. As almas encantadoras das ruas, como diria Paulo Barreto, o João do Rio, vão se moldando aos novos “tipos” e à modernidade. O jardim central da Avenida Goiás emagreceu, tornou-se mais estreito para dar vazão ao trânsito. O Café Central (fundado em 1940) mudou de dono, se apequenou, se escondeu numa portinhola na Rua 7; a Pastelaria Real, que era a rainha da madrugada – onde seus súditos, depois dos bailes iam para seu último desjejum –, perdeu a majestade: fecharam suas portas para nunca mais; o Restaurante do Armando, com sua famosa feijoada, mudou-se para o Bueno e de lá para um lugar incerto e não sabido. O Bola Sete (salão de snooker) entrou numa sinuca de bico e fechou suas portas. O Restaurante O Grego não esperou a comunidade européia surgir e escafedeu-se. Um pouco acima do Grego, a melhor casa de pães até hoje instalada na cidade: a Panificadora Única dos irmãos Arnulfo, Sebastião e Alfeu Dourado. Ao lado – dos mesmos donos –, o refinado restaurante especializado em peixes, O Dourado, por motivo de saúde encerrou as atividades. O Magazine Central, onde se vendia a famosa camisa “Volta ao mundo”, não resistiu às voltas que o mundo dá e, sob o teto do Edifício Euclides Figueiredo (homenagem ao general, pai do ex-presidente), também fechou suas portas. Assim também desapareceram as Lojas Huddersfields, a antiga Drogasil, A Futurista, a Boutique Brasília, a Cinzel, a Ótica Vasques, Clark Calçados, a Drogaria Carmo (da esquina com a Goiás), A Jóia e A Jóia Lar, a Paulistinha Discos, A Imperatriz Calçados. O Mercado Municipal foi pra Rua 3 e perdeu, na mudança, todo o seu charme e a fórmula de fazer vitaminas (nunca se “tomou” tanta vitamina como naquela época e as lanchonetes vendiam às turras, principalmente a do Seu Alberto do Mercado, mas a campeã da cidade era A Fonte do Paladar). Do outro dado da praça, o Bazar Oió, o Hotel Bandeirantes e as boates Porão 47 e Terraço. Todas estas casas desapareceram. E com elas os “tipos” que davam vida ao lugar.

O Alemão da Banca, que por si só já era uma “figura” – com sua cabeça metade raspada-metade cabeluda em contraste com a barba metade cabeluda-metade raspada, tal qual um tabuleiro de xadrez –, administrava a maior banca de jornais de Goiânia. O Alemão (Francisco Lima Neto) morreu, assim como a sua banca (hoje, no lugar está uma banquinha). Morreu também meu amigo Dorvalino da Ótica Vasques que era um homenzarrão que adorava uma noitada. Figura inesquecível do Seu Antero com seu auto-falante percorrendo em passos cuidadosos o quarteirão do Café Central noticiando o prato do dia do Restaurante do Armando. Seu Antero usava um chapéu de pano e um par de óculos fundos-de-garrafa e acabou por tornar-se cego por completo e, mesmo assim, continuou o seu trabalho de locutor de rua. Ainda na minha memória o “Grandão” (Eurípedes Alves da Silva), engraxate que cumpria o seu ofício na primeira cadeira da Engraxataria Ami (Engraxataria da Rua 7), entabulava um ótimo papo, conhecia todo mundo e sabia de tudo. Todos estes já partiram para o além. Na minha retina voltada para o passado ainda estão lá na esquina da Av. Anhanguera com a Rua 7 o Alemão da Banca, Seu Antero e o Grandão.

Na Praça do Bandeirante acontecia de tudo. Coisas que não mais se vê. Naquele vão entre a Drogaria Carmo e o Minas Bank sempre estava – cercado por curiosos – a figura pitoresca e extraordinária (porque não?) do tirador de calos. E com ele duas ou três caixas com tampas de vidro exibindo – como troféus – as unhas espetaculares por ele tiradas. No chão, ali perto, uma mendiga portadora de elefantíase. Do outro lado, na porta do BEG, um festival mambembe do homem-da-cobra. E tira a jiboia da mala e põe a jiboia na mala (a cobra morava na mala; não existia o Ibama) e a deposita em seus ombros e a tira dos ombros e oferece a algum curioso e este pula para traz alargando a roda de gente e volta a serpente pra mala ao som de uma trilha sonora discursiva saindo de um microfone pendurado no peito do homem que não parava de falar. Era o marketing de vendas de seu remédio que curava tudo. De hemorróidas a espinhela caída. De pancreatite a sinusite, de dor de barriga a dor de ouvido: substância extraída do cipó da região do Pico da Neblina, lugar mais alto do Brasil. Era o tal de Elixir de Manduraciacaba da Amazônia ou outro nome qualquer do qual ninguém se lembrava dez minutos depois. Em frente o Banco da Lavoura (do outro lado da Praça do Bandeirante) sempre tinha um pastor evangélico de plantão a pregar o frescor do céu e o calor do inferno. Ali do lado, disputando o mesmo espaço, um líder estudantil pregava o socialismo utópico e expelia iras à ditadura. Ali perto, uma viatura da polícia e “os home da lei” fazendo de conta que trabalhavam.

Ciganos, vendedores de loteria, malandros, marchands de gado, agiotas, homens de negócio (não se usava a palavra executivo), estudantes, balconistas, pedintes, bancários, jornalistas, intelectuais, fazendeiros, donas de casa, desocupados, mordedores (aqueles que viviam mordendo a carteira de um amigo com o pedido pra comprar feijão pra família, embora sempre o dinheiro terminasse na mesa de bar ou de jogo) compunham o belo quadro social daquele pedaço mais importante de Goiás que era o Café Central.

Daquelas lembranças ainda restam em pé, a Engraxataria Ami, dos filhos do saudoso Alemão, a banca de revistas e a estátua do Bandeirante que um dia foi doada (e inaugurada), em 1947, pelos acadêmicos da Faculdade de Direito de São Paulo, entre eles os meninos Ulisses Guimarães e Jânio Quadros. Que também já se foram.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009



Mário Palmério em 1995


Presidente Getúlio Vargas com Deputado Mário Palmério, no Palácio Rio Negro, no momento da assinatura do decreto que autorizou o funcionamento da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (FMTM), em Uberaba. Rio de Janeiro/RJ, 23/03/1954.


A BELEZA DA PALAVRA SAUDADE

Por Tadeu Nascimento

Acordo cedo e logo me deparo com as coisas mais banais do meu cotidiano. Saio de baixo do chuveiro e me enxugo. Busco a gaveta e escolho uma cueca. De repente me dou conta o quanto é horrível a palavra cu-e-ca! Fui ao Aurélio e a suspeita se confirmou. Assim aconteceu com o cueiro, curvar, acuar e até recuar, que é dar ré no próprio (andar de fasto). A primeira sílaba já diz o óbvio. Pensei comigo: como vou explicar esta crônica aos meus preciosos leitores? Peço perdão, minha senhora, mas a minha intenção seria escrever sobre as palavras mais feias e as mais belas da nossa língua. Palavras que soam mal e outras que soam bem aos nossos ouvidos.

Nomes feios de pessoas. Os pais que se apiedassem dos filhos (os cartorários também) e não os registrassem com nomes estapafúrdios. Nomes que os fazem infelizes. Ambrolina, Sinfrônio, Cremilda (cantora do Nordeste), Virgulino (Lampião, o cangaceiro), Anastácio, Adamastor. Tive um colega de faculdade, em Uberaba, cujo nome era ADX de Oliveira. No primeiro dia de aula já ganhou o apelido de “Prefixo de Avião”. Um outro, em Goiânia, seu pai, um português torcedor do Vasco, ousou ainda mais, batizou o seu portuguinha de Cruzmaltino da Silva. O gajo ficou tão revoltado com o pai que desde pequenininho é flamenguista ferrenho. O deputado federal Onaireves (Severiano de traz para frente) Moura (PR) foi cassado por decoro parlamentar. Deveriam ter cassado (ou prendido) o pai dele - também por decoro - por ter-lhe imposto um nome tão estapafúrdio. O deputado federal Genebaldo Correia (BA), cassado envolvido no escândalo do Orçamento, idem. O pai orçou mal o futuro do filho. Mas têm pais que judiam. Só com a letra “A” (para não estender muito) eis alguns nomes estrambóticos que estão registrados nos cartórios (e na lista do INSS de 1988) de todo o Brasil: Ambrilina Décima Nona Caçapava Piratininga de Almeida; Agrícola Beterraba Areia; Aeronauta Barata; Antônio Morrendo das Dores; Antônio Querido Fracasso; Antônio Treze de Junho de Mil Novecentos e Dezessete; Aricléia Café Chá; Arquiteclínio Petroquímio de Andrade; Asteróide Silvério e - pasme! - Ava Gina (homenagem a Ava Gardner e a Gina Lolobrigida). É sabido que em Minas tem muito destes nomes: são famosos um cidadão cujo nome é Um Dois Três Oliveira Quatro, uma senhora Magnésia Bisurada do Patrocínio e os senhores Letsgo Daqui (let’s go) e Orlando Modesto Pinto. No entanto, existem muitos nomes bonitos de pessoas como Carolina, Thaís (milha filha), Otávio (meu neto). Quanto mais simples mais bonitos.

Um parágrafo para nomes bonitos. Bicicleta, sonoramente - dizem os entendidos fonologistas - é a mais bonita. Elegância, felicidade, decência, integridade, paralelepípedo e saudade. Saudade, segundo os filólogos e outros entendidos, é a palavra mais bonita por só existir na língua portuguesa. Não existe uma palavra isolada que traduza com exatidão o seu significado. O linguista Osvaldo Humberto Leonardi Ceschin, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP, explica: “nas outras línguas existem palavras que se aproximam deste sentimento, mas nenhuma talvez expresse com tanta clareza este estado de espírito. As pessoas de outras culturas sentem falta de algo ou de alguma coisa, por isso a palavra saudade é traduzida por meio de palavras que se assemelham. A diferença é a existência na nossa língua de uma só palavra capaz de expressar sentimento tão grandioso.” Saudade vem do latim solitude, solidão. Com o passar do tempo virou solidade, soldade e finalmente saudade. No tempo dos descobrimentos as viagens longas provocavam o sentimento saudade que os navegantes tinham por suas mulheres. Em inglês: I miss you (sinto a sua falta); homesickeness (sentir falta de casa ou do lugar). Em espanhol: recuerdo (lembranças); Te extrano muito (sinto sua falta). Em italiano: ricordo affetuoso (lembrança carinhosa). Em latim: desiderum (desejo de ter de volta); lenirium (matar a saudade); solitude (solidão). Em francês: souvenir (lembrança); Tu me manque (sinto sua falta). Em grego: mnéia ou mnéme (sentir falta). Em alemão: heimweh (saudade da casa ou do lugar; sehnsuchet (desejo de ter algo de volta). Em norueguês: savner deg (sinto a sua falta). A palavra saudade é bela porque é um sentimento que deve existir em todo ser humano, seja ele de qualquer raça, de qualquer parte do planeta, seja pobre, seja rico. A saudade é irmã da solidão, companheira inseparável do amor, visita invisível da paixão. Realmente não é fácil definir o sentimento de saudade. O escritor mineiro Mário Palmério compôs a guarânia Saudade, que tornou sucesso nas vozes de grandes cantores. Fagner e Joana cantando Saudade juntos é ótimo. O escritor - com quem tive alguns contatos quando estudava na sua universidade (Fiube, hoje Uniube) em Uberaba - me disse numa de nossas conversas informais - fumando o seu cachimbo indefectível - no pátio da escola que a origem desta música se deu quando ele fora embaixador do Brasil em Assunção, Paraguai, e que uma “motiatia” com quem estava tendo um caso de amor lhe perguntou o que era saudade que ele lamuriava tanto. E Mário Palmério tentou lhe explicar o que acabou virando uma bela música que é interpretada - a primeira parte em castelhano e a segunda em português: “Se insistis en saber lo que es saudade/ Tendrás antes de tudo conecer/ Sentir lo que querer, lo que es ternura/ Tener por bien um puro amor, vivir/. Depués compreenderas lo que es saudade/ Después que hayas perdido aquel amor/ Saudade es soledade, melancolia/ Es lanjardia, es recuerdar, sufrir./ Se queres compreender o que é saudade/ Terás antes de tudo conhecer/ Sentir o que é querer, o que é ternura/ E ter por bem um grande amor, viver./ Então compreenderás o que é saudade/ Depois de ter vivido um grande amor/ Saudade é solidão, melancolia/ É nostalgia, é recordar,viver”.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

BOSQUE DOS BURITIS

Meu projeto para uma cidade mais feliz




Por Tadeu Nascimento



Desde a mais rudimentar caverna o ser humano quer melhorar de vida. Viver em um lugar mais aprazível. Nenhum homo sapiens quer dar ré na sua qualidade de vida. O mundo poderia ser melhor, e as cidades poderiam “ser mais felizes”. Se eu pudesse, se tivesse poderes para tanto, se eu fosse presidente do meu país, ou se fosse um congressista faria tudo para que as cidades fossem (mais) prazerosas para se viver. Leia-se projetos aprovados pelo Congresso. Até porque o Estado foi inventado justamente para fazer o cidadão feliz. Ponto. E a primeira proposta seria o projeto que proibisse as cidades (prefeitos e câmaras de vereadores) de nomearem quaisquer logradores públicos (ruas,avenidas, praças,colégios) com nomes de políticos. Isto acabaria com a injustiça de não se homenagear quem merece. Exemplos: Ulisses Guimarães, um paladino da democracia não tem o destaque que merece. Assim como Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Leonel Brizola que lutaram pela educação. Como se pretende diminuir a violência onde se premiam memórias de ditadores, sanguinários com nomes de avenidas praças, colégios? Falemos de Goiânia: Avenida Castelo Branco, Colégio Costa e Silva, Avenida Anhanguera (Bartolomeu Bueno, pai e filho, mataram e escravizaram os índios desta terra). Avenida Assis Chateaubriand, cujo homenageado foi um chantagista, um homem de caráter muito defeituoso. Todas as ruas e avenidas teriam nomes de músicas, de flores,de livros, de artistas, professores e escritores (desde que não fossem políticos). As ruas horizontais ganhariam nomes de músicas, as verticais de livros. As praças seriam agraciadas com nomes de compositores; as faculdades e colégios com nomes de professores. Os bairros teriam nomes de movimentos musicais. Seria mais ou menos assim: Rua Carinhoso, Rua Dom Casmurro, Praça Ary Barroso, Av. das Camélias, Rua El dia em que me queiras, Praça Vinícius de Moraes, Bairro das Valsas, Setor Bolero, Vila do Samba-canção, Setor da Bossa Nova, Vila da Tropicália. Não necessariamente nesta ordem. Pois trata-se apenas de uma idéia. No Parque das Laranjeiras, aqui em Goiânia, tem uma etapa cujas ruas levam nomes de passarinhos: Rua das Andorinhas, Rua Bentivi etc. (Parabéns Pedro Paulo de Souza- da Encol- pelos inestimáveis serviços prestados a Goiás e ao Brasil! Ainda vou escrever sobre sua história). Melhor Rua dos Canários do que Rua Floriano Peixoto, Rua Moreira César ( o Corta-cabeças morto em Canudos). Quase todas as cidades de Minas tem uma rua com o nome deste sanguinário. A Rua do Ouvidor no centro Rio de Janeiro, por um breve tempo, teve seu nome trocado por Rua Moreira César. A população não gostou e exigiu-e conseguiu- a volta do belo nome de Rua do Ouvidor.

Avenida Cora Coralina. O nome da nossa maior poetiza foi gravado numa placa de metal em uma avenida que nunca foi uma avenida. Foi e ainda é um grande equívoco. Uma avenida teria duas mãos de tráfego. Um absurdo. Uma rua, pior uma avenida, que não tem acostamento, com passeio de um metro de largura; sem passarela que divide as avenidas; uma avenida que no seu percurso não tem uma única árvore. Além de tortuosa e feia. Cora merecia ser homenageada com uma avenida ou teatro que fizesse jus ao seu talento. Esta “avenida” mal parece uma rua e sim um atalho. Eu trocaria então o nome desta “avenida” por Atalho do Prefeito.

No interior do Estado do Rio de Janeiro existe uma cidade bucólica chamada Conservatória Também conhecida por Concervatória com dois “c”, onde as ruas tem nomes de músicas da MPB e todos os fins de semanas grupos de pessoas fazem serenatas pelas ruas da cidade.

Voltando ao meu modesto projeto: todas as cidades com mais de 30 mil habitantes teriam um coreto (como antigamente) ou uma concha acústica. Claro que haveria uma dotação orçamentária para este objeto. Há poucos dias sugeri a um assessor do atual prefeito que a prefeitura fizesse uma concha acústica com uma fonte vertical de águas em sincronia com as notas musicais dos instrumentos da orquestra- no Lago dos Buritis, em frente ao Palácio de Justiça, à beira lago, para que nos finais de semana a Orquestra Sinfônica de Goiânia se apresentasse aos goianienses e aos visitantes, posto que aquele espaço elevaria o bom gosto e sensibilidade dos habitantes desta capital. Explicando melhor: a concha ficaria de frente para Av. Assis Chateaubriand ao lado do monumento das terras de todo planeta. Além do que é o lugar onde se transita maior número de pessoas na cidade. Campos do Jordão, uma das cidades turísticas mais prazerosas do país tem a sua concha acústica onde nos finais semanas são executadas as mais belas obras da música clássica. Basta ver no Google. com ou no youtube.com. Quem nunca viu na tv as grandes exibições de consertos regidos pelo maestro Isaac Karabichevisk no Parque Ibirapuera, na capital paulista? Em Uberlândia- MG, desde a década de 60 existe uma concha na Praça Tubal Vilela, com uma fonte colorida cujas águas sobem e descem de acordo com as notas musicais. Em Uberaba também existe uma concha acústica.

Quando da candidatura de Iris à prefeitura de Goiânia em 2004, sugeri a um dos seus interlocutores que o candidato tivesse entre seus planos de governo transformar o Lago das Rosas e o horto municipal em um Central Parque- como o Central Park de New York- com pista de patinação, com conchas acústicas, palco para representações teatrais, parque de diversões, ciclovia, pista de Cooper etc. Este Central Parque seria maior que a área do atual Lago das Rosas. Ideal seria se ocupasse o espaço do Corpo de Bombeiros, mas para isto a Av. Anhanguera teria que o seu trânsito fluísse sobre um elevado (viaduto) e este sobre o lago que por sua vez teria suas dimensões aumentadas. Seria uma obra que traria muita felicidade ao goianiense, além de valorizar os bairros vizinhos. Atrair as pessoas para as praças é um progresso humanista importante, pois precisamos de mais parques, mais praças, mais teatros, mais ciclovias, mais cultura e mais flores. Carrinhos de pipoca, de sorvete, de algodão-doce sempre serão símbolos de gente feliz.

domingo, 4 de outubro de 2009













A última flor do Lácio e seus espinhos

Por Tadeu Nascimento

Sempre quis entender o porquê das invasões bárbaras de palavras estrangeiras na última flor do Lácio, inculta e bela que é a nossa língua. Não venham me dizer que as invasões são porque ela é inculta (apesar de bela). Infelizmente aceitamos estas ingerências passivamente. Com isso, às vezes, me sinto alienado ou alienígena nesse mundo cheio de modernices. O estrangeirismo começa logo cedo, quando a gente acorda: para escovar os dentes usamos o “Close Up (antigamente era o Kollynos, o do sorriso). Melhor seria se usássemos o dentifrício, que é a palavra naturalmente brasileira. Nunca entendi o tal Close Up, se close em inglês significa fechado. Deve ser pra gente ficar com boca de siri. Abro a janela em busca de ar puro e deparo-me com um “outdoor” com a propaganda da “Pizza Hut”. Penso com tristeza: estão engolindo nossa língua rapidamente. Sem degustar. Nunca convivemos com tantas palavras estrangeiras! Certa vez, uma amiga me deixou constrangido por eu não saber o que era fazer “check in” (no aeroporto). Claro, eu quase só viajo montado nos – não sei em quantos – cavalos do meu automóvel!

– Ah, não vai me dizer que você não sabe o que “check in”? – com cara de decepcionada comigo (tipo: este cara não é deste mundo ou é um tremendo ignorante!)

– Não, não sei – respondi revelando a minha santa ignorância sobre tudo que é moderno. Falei cá com os meus distraídos neurônios: não teria outro nome em português equivalente a este infinitivo tão mal colocado do verbo fazer? A gente faz “check in”? Isso meu pai não me ensinou, nem o emérito professor de Português Sherlock Holmes da Silva no Colégio Martins Borges, em Rio Verde. Neste caso, não ficaria melhor o termo “Confirmação de voo” (para voar)? Exemplo: “Vou à confirmação” ou “Vou confirmar o voo”. Se não colar ou se não decolar, que inventem outro termo mais adequado. Em português, obviamente.
No início do século XX era o francês (galicismo), agora é o inglês (anglicismo). E os termos importados não param de nos contaminar. Com o advento do computador, criou-se um novo idioma, tanto que já inventaram o dicionário de informática. O que seria fazer um dowload? – perguntava a mim mesmo diante de alguém que falava o informatiquês. Até então, na minha família, ninguém fez dowload. A gente é pobre, mas é limpinho! Continuo a me indagar: melhor não seria baixar? Baixar alguma informação, assim como no centro espírita, embora as mensagens de lá sejam do outro mundo? Link? Só vim saber o que é este tal de link depois que o Google disse aos seus discípulos: é só procurar no “Cadê”! Conclui-se que “agenda” (no contexto, cibernética) seria a melhor denominação para a palavra link. Você tem “e-mail”? Quando surgiu o tal do “e-mail”, pensei que o mundo estava ficando tantã e meio. O dono da livraria ao telefone: “Me passa o seu e-mail”! Pensei comigo: esta deve ser uma nova modalidade de assalto! Ele quer que eu passe um e-mail pela linha do telefone! Não passo nem um terço, nem um quarto, e nem coisa nenhuma! O tal do fax: fulano foi passar um fax (no banheiro). Ainda bem que quase ninguém mais passa fax. Passa-se e-mail. Daqui uns dias (o fax) será obsoleto até no banheiro.
Ainda têm o “desktop” e o laptop”. Tipos de computador. O primeiro é de mesa, o segundo, de colo. Computador de colo – ops! cuidado com a cacofonia! (com puta dor de colo) –, que, antes de firmar jurisprudência, já virou notebook, livro de bolso (que deveria se chamar computador móvel), mas já está perdendo sua vaga para o netbook, que é o computador de rede. Um expert no assunto me sugeriu: melhor armazenar no “pen drive” (pô, chega de aspas!) para economizar espaço! Não tenho dúvidas de que em breve tempo cada cérebro terá um chip (ou mais) com tanto gibabytes que nos tornaremos meio-robôs ou totalmente. Teremos um tocador de CD, outro de filme, gravadores de CD e de DVD, um word para escrevermos nossas mal tecladas (mentalizadas) linhas, um messenger (telepático) para bater papo, calculadora e um teclado mental. A mente, aliás o chip, cuidará de tudo. Está aí o exemplo na cirurgia cardiológica: inventaram o tal do stent (mola para dilatar as artérias), que resultou no benefício para o cidadão que ganhou uma grande prorrogação de prazo neste planeta. Complicou? É só trocar as molas, isto é, os stents. Tenho um parente que tem tantos stents (molas) que ganhou o apelido de Colchão Ortobom.
Já não bastavam os shopping centers (com seus playgrounds) que vendem hot dog e cheseburger regados a catchup; os pit stop dos McDonalds; o pré-histórico long play (o bisavô do CD); o copyright (que deveria se chamar patente ou direito autoral) dos livros; o ghost write (o escritor fantasma). Carlos Heitor Cony era ghost-write (escrevia discursos para o presidente Juscelino).
Fazer um checkup é se consultar junto ao médico. Mas checkup é mais chique. E chique é palavra francesa – além de carnê (carnet), buquê (bouquet), abajur (abar-jour), crochê (crouchet), filé. Tem gente que, querendo ser mais chique ainda, diz que fez um checkup com médico que se especializou – adivinhe onde? – na França, claro.
A verdade é que estamos perdendo nossa identidade. Daqui a pouco não comeremos bifes e sim hambúrgueres, não teremos goiabada cascão com queijo de Minas e sim sunday de chocolate com chantily. Nem suco de caju e sim coca-cola ou sprite lemon. E aí, brother, teremos pés e peitos imensos (as mulheres, claro), pouca bunda e uma vontade louca de sermos franco-atiradores.


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Meu prato preferido: Os Beatles.

Por Tadeu Nascimento

É verdade, o meu prato preferido são os Beatles. Sem querer comparar, mas ninguém é melhor do que eles. Enquanto juntos, ou carreiras solo. Eles fazem muito bem a mim (e a milhões de seres pensantes das últimas 4 décadas). De todas as formas. Beatles em qualquer versão. Na boca de qualquer intérprete, (ou simplesmente instrumental). De preferência na versão deles mesmos. Mas é ótimo também na versão bossa nova de Sérgio Mendes Brasil’66 (“Fool on the Hill” e “Day Tripper”). Pra quem não conhece é uma grande pedida. Eles, os Beatles, interpretados pela orquestra de Paul Mauriat (no Cine Bagdá, em Rio Verde das Abóboras, antes de abrirem as cortinas ouvia-se “Here, there and everywhere” e “In my life” todas as noites. Joe Cocker no festival Woodstock em 1969, onde arrasou deixando para sempre a sua voz com a “With a litle help for my friend”. Sarah Vaughan cantando Beatles é o supra sumo da beleza. É ótimo na voz de Elvis, de Tony Bennety, Johnny Mathis, Elton John e de Barbra Straisand. “Something” na voz de Andy Willians é muito bom. Até Sinatra gravou Beatles (“Yesterday”). A sinfônica de Londres executando as músicas de Lennon/ McCartney e Harrison é histórico. Na interpretação de Eduardo Lages, maestro da orquestra de Roberto Carlos (“And I love her”). Na boca de Caetano Veloso cantando “Eleanor Rigby”, e “Help” tem cores de brasilidade. Nas infantis traduções feitas para o conjunto Renato e seus Blues Caps e na voz manhosa e cavernosa do antigo Ronnie Von. Beatles em trilha sonora de cinema: O filme “Across of universe” traz o excelente Jim Sturgess cantando a música título do filme e ainda “Girl” e a maravilhosa “All is need is love”. “Simplesmente amor” (com o ator brasileiro Rodrigo Santoro) com a mesma “All is need is love”na voz de um intérprete negro que não sei o nome. Paul McCartney, ex-Beatle, em 007: Viva e deixe morrer. Beatles para crianças na versão Caixinha de músicas é sublime, maravilhoso. O acervo musical deste grupo é de tal qualidade que, imagina o leitor, gravaram as mais belas melodias dos Beatles na versão orquestrada em caixinha de música para bebês! Fica claro que a rebeldia nas letras não implicam na beleza das melodias que encantam todo mundo. Realmente “ Beatles for babies”- em caixinha de música é lindíssimo (compre e ouça!) Meu velho pai que me censurava por eu rodar na minha eletrola os Beatles, o dia inteiro, todos os dias. Mas num belo dia ele chegou com um LP dizendo: isto é melhor do que estas coisas que você ouve! Músicas orquestradas! Só que quase todas músicas eram dos Beatles. Facilmente o convenci que Beatles eram o máximo. É claro que MPB é ótima. Ary Barroso, Dorival Caymmi, Noel, Jobim, Vinicius, Chico, Lupercínio, Caetano, Cazuza agradam qualquer cidadão de bom gosto. São muito bons também Rolling Stones, Queen, Yes, The Who, Led Zeppelin, Pink Floyd, U2, Cat Stevens, Rod Stewart, Stevie Wonder. Aliás, todos estes astros internacionais sofreram influências dos Beatles.

Quem gosta de Beethoven, Bach, Tchaicovsk há de gostar também dos Beatles, pois são revolucionários tanto quanto Beethoven, por exemplo. Aliás, são os músicos mais importantes depois de Beethoven. Tente gravar uma seleção de músicas orquestradas que contenha as músicas dos Beatles juntamente com os clássicos da música universal. “Verá”, ou melhor, ouvirá o leitor, que existe uma continuação, uma simbiose, uma convivência harmônica entre os clássicos de duzentos anos (ou mais) com estes quatro rebeldes cabeludos. Vai demorar muitas décadas ou séculos para surgir um fenômeno igual a este quarteto de Liverpool. Restará aos historiadores, no futuro, confirmarem. Não existe cidade de porte médio que não tenha ao menos uma banda que imite os Beatles.

Em 01 de junho de 1967 os Beatles diziam adeus à beatlemania. O mundo levou um choque. Acusaram Yoko Ono de ser a causa da discórdia, mas não era verdade. Havia chegado a hora. Cada qual com a sua “carreira solo”. Continuaram a fabricar maravilhas. O mundo entendia que os quatro juntos fariam coisas melhores. O mundo os queria de volta. Mas a diáspora fora para sempre. No entanto todos os dias surgiam notícias que eles se reconciliaram. Ledo engano. Anos depois, com o surgimento do Queen, cujo álbum não trazia a fotografia do grupo, diziam que eram os Beatles (camuflados) que haviam voltados, tamanha aparência de estilo. Logo John Lennon surgiria com “Imagine”; “Woman”, Paul McCartney com “Tomorrow”; “My Love”, George Harrison com “My sweet lord” e “Bangladesh” e Ringo Star com “I don´t come easy”.

Os Beatles são a leitura de uma época em que a humanidade dizia um basta aos velhos costumes, às guerras, a intolerância racial e a falsa moralidade ocidental com letras e melodias tão belas que não encaixariam só às circunstâncias da época mas para todo o sempre. John Lennon falava de amor com tal propriedade e simplicidade que seus versos grudaram nos ouvidos de uma juventude que hoje navega com seus 50, 60 anos. Os Beatles mudaram para sempre a humanidade.

Não é difícil ver e ouvir os Beatles, basta buscar na internet e clicar no youtube.com e verá e curtirá (curtir está no Aurélio com o sentido aqui intencionado) todo o acervo da banda. Vale a pena. Beatles 4 ever (Beatles para sempre).

PROCURAR NO YOUTUBE:The Beatles: Hey Jude (Paul MacCartiney cantando)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009














Chico versus Caetano

Por Tadeu Nascimento

O brasileiro adora comparações. Nasce, cresce e morre comparando. Fulano é melhor que Cicrano, Beltrano é dez vezes melhor que Fulano. Outro dia, um cronista escreveu neste DM que “Caetano é dez vezes melhor que o Chico”. Na verdade o escriba está em busca de polêmica. Baseado em que, tal afirmativa? O jornalista tem medidor de artista, é? Em que pese o respeito que tenho pelo cronista, acho irrelevante tal paralelo. Desde que eu era menino pequeno lá no chão das Abóboras (Abóboras com “A” maiúsculo, caro revisor) ouço esse tipo de conversa: Pelé é melhor que Garrincha (mas Garrincha foi o artilheiro e o melhor jogador da Copa de 1962 no Chile); Cassius Clay é dez vezes melhor que Joe Frazier (só que Clay não leva vantagem sobre Frazier: perdeu uma beijando a lona e ganhou outra por pontos); John Lennon é melhor compositor que Paul McCartney; (Lennon morreu e Paul ainda pode compor maravilhas). Cada um com seu estilo; cada um na sua época. Pergunta-se: quando Chico e Caetano fizeram o famoso show no teatro Castro Alves, em Salvador, (1975) deu empate, foi? Ou Caetano ganhou nos pênaltis? Então o programa Chico & Caetano da Globo por acaso foi resolvido no tapetão ou foi tudo marmelada? Hoje, menino de cabelos grisalhos aqui em Goiânia continuo achando inócuas e infrutíferas tais comparações. De que adiantou a polêmica sobre quem era o melhor: Ayrton Senna ou Nelson Piquet? Ambos foram tri campeões da Fórmula 1 e fim. Daqui a cem anos- se ainda existir F1- pouco importará quem foi o melhor, até porque ambos venceram igualmente. Quase ninguém sabe quem foi Juan Manuel Fangio, 5 vezes campeão da F1 na década de 50.

Um parêntese. Desde o tempo em que Jesus a falava aos seus discípulos “que os últimos serão os primeiros” deveríamos ter ouvido o mestre e nos tornado mais modestos. Na verdade, Ele queria nos dizer para que sejamos os do meio, medianos- porque os do meio sempre serão os do meio!- Portanto sejamos os do meio. Que mania de querer ser sempre o melhor!? Poxa, quem vai torcer para o mais-ou-menos?

O tempo passou, mas até hoje... Zico ou Sócrates? Luciano Pavarotti ou Plácido Domingo? Maradona ou Pelé? Os esquerdistas: Lula ou Brizola? Os direitistas: Collor ou Maluf? Os da pedra lascada: Emilinha ou Marlene? Os alienados: Xuxa ou Ana Maria Braga (Deus me livre!). Os tantãns: Faustão ou Gugu? O tempo passou, as polêmicas continuam e- no entanto- nada muda na vida de seu ninguém.

Voltemos ao Caetano e ao Chico. Ambos gênios. Todavia querer enaltecer um em detrimento do outro é forçar demais. Não faria, não o farei. Apenas acredito que a modéstia de Chico choca em cheio com a vaidade de Caetano. O baiano acha que reinventou a roda ao descobrir que a polêmica é o meio e a vaidade, o fim. Quem não se lembra de Caetano no Festival Abertura da Globo, 1975, vestindo um bustiê (ninguém entendeu: com os seios tão pequenininhos...). Agora, um pouco de franqueza: o baiano tem feito discos (CDs) horríveis. O seu álbum Cê é de uma tolice sem igual: as melodias, zero. As letras medíocres feitas com intenção clara de gerar polêmicas, como na composição “Homem”: “Eu não tenho inveja da sua lactação e sim de seus orgasmos múltiplos” (êpa! o que quê é isto?! o cara mudou de sexo?!) é de lascar! Em outras gravações: As banais “Leãozinho”, “A luz de Tieta” com seu refrão “Êta, êta, êta é a luz de Tieta (rima que chega ao cúmulo da imbecilidade! Isto não se vê na obra do Chico); “Haiti” é quase um hap (sem melodia, quase monocórdia) e a terrível “Um tapinha não dói” -de um descompositor desconhecido- que é o fim do fim do caos. Aliás, ultimamente, Caetano só faz sucesso com composições dos outros: “Sozinho” do Peninha e “Você não me ensinou a te esquecer” de Fernando Mendes. Aliás, estas músicas são tudo ao contrário do novo e ainda carregadas de tintas da breguisse. Pra quem acha que Chico só faz letras com qualidade (o cronista disse que Chico é medíocre musicalmente) é bom lembrar que ele ganhou o Festival da Record com a “Banda”, de autoria só dele. – coisa que Caetano nunca conseguiu, pelo menos em festival de renome como o da Record. “Carolina” é só dele; assim como são as letras e músicas de “Quem te viu, quem te vê”; “Olê, Olá”; “Roda Viva”; “Noite dos mascarados”; “Folhetim” todas de ótima musicalidade, além de outras centenas. Daqui a cem anos- podem ter certeza- que a “Banda” e “Folhetim” serão tocadas em quaisquer FM da vida- gravadas por qualquer pop star- ao contrário de Haiti, “Tieta” e “Leãozinho” que já não toca nem em Santo Amaro da Purificação, cidade de Caê. Mas tem gente que não vive sem polemizar. Tal qual Caetano. Viver de encrenca (alimentar a vaidade). Ser rebelde. Negar a genialidade do outro (apesar de Caetano babar pelo Chico). Por acaso gostar do Chico é ser de esquerda? Tenho um conhecido canhoto e comunista que adora Milionário e Zé Rico e conheço milhares direitistas que amam Bruno e Marrone. E daí? Por que o cronista underground não os compara? Underground é aquele que acha bonito ser feio. Melhor então polemizar, ser rebelde, ser do contra, usar brinquinhos, se tatuar, parecer-se underground. Em suma: chocar a sociedade. O aluno aprendeu direitinho com Caetano. Quando o sábio aponta a lua o míope enxerga o dedo. Caro leitor, se você fosse professor (mesmo professor de música) você discutiria com seus alunos a obra de Chico ou a do Caetano?

Numa entrevista com o Bussunda, do Casseta e Planeta, o repórter perguntou:

-Vasco ou Flamengo?

Respondeu o humorista: Flamengo.

-Senna ou Piquet?

-Sou hétero.

-Uísque ou cerveja?

-Cerveja.

-Romário ou Ronaldo (Fenômeno)?

-Já disse, sou hétero!

Também sou como o Bussunda (aliás, me simpatizo muito com este nome!), não me coloquem -para escolher- entre o Dunga e Arnold Schwarzenegger para governador de Goiasfórnia (onde tem cada figura...). Sou hétero de nascença e de morrença. Nesta e nas outras encarnações. Amém.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Urubu branco: deve ser mascote do Fluminense, olha o peador verde na perna dele.




SE O URUBU NÃO FOSSE PRETO

Por Tadeu Nascimento

Se assim não fosse, como seria? A história poderia ser diferente, ou não? Se não existisse Pedro Ludovico, o que seria de Goiás? Se Juscelino continuasse a sua vida de médico e se não ingressasse na política, o que seria do Brasil? Antes disso, o que seria do Brasil se não fosse ele descoberto pelos portugueses? E o que seria dos portugueses se não descobrissem o Brasil? O que seria da ditadura de 64 se não existissem os militares? Se Tancredo não morresse antes da posse e fosse presidente, o que seria do Brasil? O que seria do Sarney? O que seria de Brasília se não existisse Goiás? Se não derrubassem o Collor, o que seria de Fernando Henrique? Se os juízes não roubassem do Botafogo- por vários anos- o que seria do Flamengo? O que aconteceria, se o juiz José Roberto Wright na semi-final da Libertadores não tivesse roubado escandalosamente do Atlético Mineiro a favor do Flamengo no Serra Dourada, Goiânia, em 1981? Se Armando Marques, juiz, mais conhecido como Elizabeth Taylor do futebol brasileiro, não cometesse a maior gafe da história do nosso futebol, ao impedir a cobrança do último pênalti do Santos contra a Portuguesa, em 1973? O que seria se a imprensa com o “já ganhou” não mexesse com os brios dos uruguaios na Copa de 50 em pleno Maracanã? Se não existisse John Lennon, o que seria dos Beatles? Do Queen se não existisse Fred Mercury? Se não existisse os Bush, pai e filho, o que seria do Bin Laden? (Bush pai, na década de 80 foi sócio do pai do Osama Bin Laden e patrocinou o mesmo Osama com armas e dinheiro na guerra do Afeganistão contra a Rússia e depois se virou contra o terrorista.)

O que seria da Luciana Gimenez se não existisse Mick Jagger? Da tristeza, se não existisse a alegria? O que seria do verde (principalmente da bandeira nacional), se não fosse o amarelo? O que seria do Clóvis sem a Zaira e vice-versa (meus pais)? O que seria do Tarzan sem a Jane? Do Dom Quixote, sem o Sancho Pança? Do Washington sem o Assis no Fluminense, campeão brasileiro em 85? Do Botafogo campeão brasileiro de 95, sem o artilheiro Túlio Maravilha? O que seria do Nion, se não existisse o Iris? O que seria do sul se não existisse o norte. Da vida, se não existisse a morte? O que seria da minha vida, sem a minha infância no Poço da Matinha do Córrego do Sapo em Rio Verde? Da minha juventude sem o Clube Rioverdense? Do pouco que eu sei sem o Ateneu Dom Bosco em Goiânia? O que seria do Daniel Dantas se não existisse Gilmar Mendes? O que seria do Faustão se não existisse os pobres de espírito? Do Roberto Justo sem os espíritos pobres? Do Big Brother, se todos brasileiros tivessem TV a cabo? Do Gugu Liberato se não existisse a idiotice?

O que seria de Romeu sem a Julieta? De Riobaldo sem Diadorim? De Xuxa, se um dia não namorasse Pelé? De Adriana Galisteu, sem a morte de Ayrton Senna? E o que seria de Pelé se não existisse a bola? De Garrincha se não existisse o drible? E do drible, se não existisse o Garrinha? De Vinicius, se não houvesse a paixão? De Chico Buarque, se não existisse genialidade? De Tom Jobim, se não houvesse o Rio de Janeiro? Da seleção Brasileira sem o Maracanã e vice-versa? Do pão sem a manteiga? Do vinho sem o queijo? O que seria do arroz com pequi, se não existisse Goiás? Da luz se não existissem os olhos? De Brasília se não existisse Goiás? Da Seleção Brasileira de 82 sem o Falcão? A de 70 sem o Jairzinho? Da história do Brasil sem Getúlio Vargas? De Noel sem o samba? Do samba sem o Noel? De Caymmi, sem o mar? De Bilac sem as estrelas- pálido de espanto? De Erasmo sem o Roberto? O que seriam dos “Detalhes” sem estar “Sentado à beira do caminho”? Da “Aquarela do Brasil sem Ary Barroso? De “Amélia que era mulher verdade” sem Mario Lago e Ataulfo Alves? O que seria de Dom Casmurro se não existisse Capitu? O que seria da Literatura Brasileira sem Machado de Assis? Da Capela Cistina sem Michelangelo? De Mona Lisa sem Da Vinci? Da arquitetura, sem Niemayer? O Que seria da “Gabriela, cravo e canela” se não existisse Sônia Braga? O que seria de “Troya” sem Homero? O que seria do “Poderoso Chefão” se não existisse Marlon Brando? O que seria de Casablanca, o filme, sem Humphrey Bogart? O que seria da canção “Smaile” se não houvesse Charles Chaplin?

O que seria do rico sem o pobre? Do sol sem a lua? Da praia sem o mar? Da calçada sem a rua e vice-versa? Das rosas sem o perfume (que exalam de ti- dez para o Cartola!). Do Rosa sem o “Grande sertão: veredas”? O que seria da Revolução Francesa sem Marat, Danton e Robespierre? Da “Marselhesa” (Allons enfaint de la patrie... ) se não houvesse a mesma Revolução Francesa? O que seria de “Guantanamera” sem as pobres da América? O que seria da América Latina sem Simon Bolivar e Che Guevara? Da Inconfidência Mineira, sem Tiradentes? De Tiradentes se não existisse Silvério dos Reis? O que seria de Jesus, se não existisse Judas?

Para o bem ou para o mal, as coisas são como são. É a evolução da vida. E como dizia o escritor Fernando Sabino: “Tudo dá certo no final; se não deu, é porque não chegou ao final”.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009








Daniel Dantas , o ator - Daniel Dantas, o banqueiro


Vende-se macumba semi-pronta

Por Tadeu Nascimento

Está no Google. Aliás, no Google encontra-se tudo. O cidadão anuncia a venda do seu produto como se fosse de um remédio para emagrecer. O interessado então passa um email (ou telefona) e faz o pedido. Deposita- via on line- o dinheiro na conta do vendedor. Exige que a encomenda chegue antes de sexta-feira. Imagino o que passa na cabeça do cliente internauta antes da compra: “Será que a galinha tem boa procedência? É de granja ou é caipira. “Exijo caipira”. Uma coisa é certa: a penosa tem que ser preta. Vem embalada a vácuo? Tem carimbo do CIF? Prazo de validade? Há de se observar, se não o santo pode refugar a oferenda e até reverter o feitiço contra o remetente. O pedido deve chegar numa caixa de isopor com a galinácea congelada. Via aérea. Como é semi- pronta, deve ser pré cozida. Depois, 5 minutos no microondas. A farofa, é de milho ou de mandioca? Melhor de milho. Macumba é coisa de africano, portanto de milho. Farofa de mandioca é produto industrial indígena. E a marafa? Deve chegar em embalagem própria. E tem que ter nome condizente com a cerimônia. Algo como ‘Espirro do demo’, ‘Sai capeta!’ ou ‘Xodó da encruzilhada.’ A qualidade pouco importa, desde que seja pinga, cachaça. Nunca ouvi falar em despacho com uísque ou com vodka. Só se o mandingueiro estiver na Inglaterra ou na Rússia. E por último o charuto. Deve ser daqueles baratos, porque senão a macumba ficará cara demais. E pelo que se sabe escravo não tinha dinheiro pra comprar charuto cubano.”

Razão desta crônica: a questão de homonímia. Pessoas com o mesmo nome e sobrenome. A dita pessoa que vende macumba semi pronta na internet tem simplesmente o seu nome igual ao meu: Tadeu Nascimento. Pior: tem dezenas de Tadeu Nascimento no Google: um apresentador de televisão de Fortaleza, que segundo internautas do mesmo Google, é um senhor estrábico com cara de ramister (espécie primo rico do rato). Um outro Tadeu Nascimento que garante que todo mundo no futuro, será gay. Eu hein? Vá de retro! Até lá, já morri! Outro Tadeu Nascimento é cinéfilo e tem um blog chamado “Comendo filmes”. Outro T.N. é fotógrafo; outro, advogado trabalhista. Ainda outro tem um blog chamado Diário de Bordo com o subtítulo “Porque os Corleones tinham vida pessoal”. Um T.N. é vereador pelo PV em Santa Catarina; um outro, dono do jornal Ampulheta (Isto é nome de jornal?- que nome horrível!) no Ceará. Há ainda, um locutor de rádio; um engenheiro; um vereador do PT de Fortaleza (coitado!); um escritor, também cearense, cujo único livro é “Maracanaú- eu te proponho”- editora do autor- preço: R$ 2,00 (isto mesmo, dois reaiszinhos- deve ser um best seler!) um capitão da polícia de Brasília; um ex-traficante carioca, agora convertido em evangélico pela Igreja Assembléia de Deus. Mas também tem um Tadeu Nascimento juiz federal (graças a Deus!).

É de se imaginar o constrangimento do ator de novelas da Rede Globo Daniel Dantas por ser homônimo do mala-banqueiro do Opportunity. Quantas vezes foi “confundido” o seu nome com o do mega-picareta? “O senhor poderia me arrumar um emprego no STF com seu amigo Gilmar Mendes?”- com certeza o ator ouviu este pedido. No guichê do banco: “O senhor que é o Daniel Dantas? Um minuto, preciso falar com o gerente!” Outras gozações: “O delegado Protógenes veio aqui na Globo pra te prender!” “Daniel, me dá uma oportunidade no seu Opportunity!” “Daniel você é aquele ator que trabalhou naquele filme “Satiagraha” do diretor Gilmar Mendes, patrocinado pelo STF?

Pouco tempo depois da morte da ator Rock Hudson- que morreu de AIDS-, um cidadão batizado Roquiudisson da Silva chegou no escritório modelo da Faculdade de Direito de Uberaba pedindo a um professor, pra que ele ajudasse a mudar na justiça o seu nome de batismo para Joãouaine da Silva (levou o novo nome escrito num pedaço de papel). “Porque- defendeu ele-: sou é cabra macho, sim senhor!”

Outro dia, no Bar do Celso, um cidadão que procurou por meu blog- através do Google- e deparou com o link Tadeu Nascimento, vendedor de macumba semi-pronta, ficou então desapontado comigo que me aconselhou: “Não mexa com macumba meu amigo, macumba é coisa do demo!” Demorei uma hora pra convencê-lo que não se tratava deste cronista.

É um perigo esse tal de Google.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

roberto

O Abominável Roberto Jefferson

Por Tadeu Nascimento

Quando eu era menino pequeno- não em Barbacena- mas lá em Rio Verde- das Abóboras (me orgulho de ser abobrense)- eu ouvia- não só do meu pai- mas de outros senhores mais velhos que homem que é homem, teria que ter vergonha na cara. Que a palavra de homem honrado teria como garantia o seu fio bigode. Hoje me pergunto- acho que todo mundo se pergunta- até a que ponto um homem de bem se portaria irredutível diante da sedução de dinheiro desonesto? Existe uma grande hipocrisia rondando a nossas vidas atualmente. O que é honesto e o que não é. Pergunto: se apoiar, pactuar, se irmanar, avalizar e se colocar ao lado no mesmo palanque de um político corrupto- ainda mais um corrupto - confesso- é ser honesto? Não é o caso de “ser ou não ser ; eis a questão”; mas a evidência de desonestidade sim, pois existe clara intenção de ludibriar. Só para ilustrar: se você estiver num palanque com Osama Bin Laden, você é um monge ou um terrorista?

É o caso de quem apóia ou dá guarida a Roberto Jefferson. O ex-deputado, é o atual presidente do PTB Nacional (pode? neste Brasil de memória tão esquecível, pode!) Logo o PTB de Getúlio, de Jango, de Brizola e de Darcy Ribeiro. Roberto Jefferson, réu confesso do Mensalão e que se negou a dizer onde foi parar os quatro milhões de reais que recebeu do Valerioduto, (cadê o STF para julgar este meliante e fazê-lo ver o sol nascer quadrado?) esteve no fim de semana em Goiânia a prestigiar o partido que preside. Fotos pra cá, fotos pra lá com muitos políticos (meu Deus, que políticos!). Há de chegar o momento em que a opinião pública cairá de pau em cima de Roberto Jefferson e aí ninguém- absolutamente ninguém- pousará nem para tirar foto 3x4- ao lado do canastrão Roberto Jefferson.

É tão fácil esquecer ou subestimar a inteligência popular como, por exemplo, o caso do senador Sarney que, por estar de braços dados com Lula -e como não conseguem derrubar o presidente- se esperneia no patíbulo para escapar da guilhotina dos espertinhos, dos oportunos. Estes mesmos que antigamente estiveram bajulando o então presidente da República José Sarney, como o senador Heráclito Forte da antiga Arena, que tinha- até pouco dias- a filha do ex-presidente Fernando Henrique- que trabalhava no “home sweet home” isto é, em casa- como assessora (se alguém não delata, ela estaria até hoje no cargo!), enquanto outros simples mortais servidores teriam que bater ponto e trabalhar para receber seus salários; o senador Agripino Maia, ícone da ditadura, que esteve ao lado de Sarney por décadas- ou melhor, somente enquanto lhe interessava- agora prega-lhe os últimos cravos. O senador Arthur Virgílio que tinha um assessor estudando na Europa, (se não é delatado, o assessor não seria demitido e ainda estaria lá, gastando em euro, of course) prometeu restituir em doze parcelas o dinheiro, fruto do crime; além de custear o tratamento de saúde de sua mãe ( 700 mil reais), também no continente europeu (ambos às custas do senado). Realmente estamos num mundo de inversão de valores. Pobre quando comete um crime, apanha da polícia, fica mofando atrás das grades, mas o senador Arthur Virgílio tem a facilidade de parcelar a reparação do seu crime. Imagine o leitor: Se alguém roubar, acreditando (óbvio) que ninguém descobriria o seu crime, mas, todavia, se alguém descobrisse tal falcatrua, ele devolvesse o fruto do roubo (em doze parcelas!) e ainda fosse perdoado, seria o caos, mas Arthur Virgílio pode. Todos do PSDB e do Demo (aliás, o demônio só não entra com “notítia criminis” contra os Demo, por apropriação indébita do nome, “Demo”, porque o STF não tem nada santo, ao contrário, é muito suspeito).

Agora inventaram uma nova saída para o crime: se descobrirem e se o criminoso confessar o crime, este se tornará uma espécie de santo, um herói dos trouxas que é o caso de Roberto Jefferson. Voltando ao Sarney: Por que não o acusaram, não o execraram durante as suas outras duas gestões na presidência do Senado? Então os senadores não sabiam dos atos irregulares de Sarney enquanto presidente daquela casa por dezesseis anos? Cretinices à parte, os senadores não deveriam subestimar a população. Eis mais uma indignação: a OAB-Go patrocinou em 15/05/2008 Roberto Jefferson, para palestrar num simpósio contra corrupção. Com que moral? Por que a OAB se prestou a este papel ridículo e imoral de avalizar as palavras de um corrupto-confesso? Este indivíduo- como diria Jânio Quadros- é um ator – um grande ator, posto que seu palco é o tribunal do júri, onde ele brinca com o emocional dos jurados. Deveria, portanto, ter sua carteira de advogado cassada por ferir a ética, os bons costumes então tipificados no Estatuto da OAB.

Pra quem não sabe, existem vários links na internet execrando o ex-deputado e mensaleiro Bob Jefferson por picaretagem. A indignação é tanta que dezenas de internautas perguntam porquê dão tanto espaço a um meliante profissional tão renegado (basta entrar no Google). No mês de maio deste ano, num vôo da TAM de Brasília para o Rio de Janeiro, preparando-me para ocupar a poltrona a mim reservada, escutei uma voz conhecida, um carioquês arrogante, pensei: esta voz não me é estranha e então, logo a abominável criatura se revela ao passar com três assessores que mais pareciam com Mike Tyson, quase a me atropelar. O carioquês arrogante saía da boca de Roberto Jefferson, que se apresentava mal vestido e com o cabelo em desalinho, mas a arrogância imprimia a sua marca. Bati três vezes na madeira.

Esta semana num encontro regional do PTB-Go (e depois no programa do Paulo Beringhs, excelente apresentador) em 24 de agosto último, data coincidente com os 55 anos da morte de Getúlio Vargas, criador do PTB, partido este usurpado do herdeiro natural Leonel Brizola (na redemocratização) pela Dona Ivete Vargas, Gastone Righi e, por ele, claro, Roberto Jefferson- veio, este último, para vender (e para cobrar caro depois) a sua falsa influência. Quem não se lembra dele quando fazia parte da tropa de choque de Fernando Collor? Na época era tão gordo que seu apelido era rolha de poço. Hoje é um poço de rolos. Na entrevista com Beringhs se comportou como gato manhoso, quase um inocente, papel este de ator de pornô-chanchada de quinta categoria.

É impressionante como certas pessoas se identificam com outras. São Gambás cheirando gambás.