quarta-feira, 14 de abril de 2010

James Bain: 35 anos na prisão

Quanto vale uma vida (Erros judiciários)

Por Tadeu Nascimento




Vi com muita tristeza, pela TV, o veredito do julgamento do casal Nardoni. Repugnei o circo armado pelas emissoras de televisão, que faturaram milhões em cima da desgraça alheia. Vi o povo insuflado ao ponto da barbárie. Permitiram a instalação de um de telão perto do forum do julgamento e quando saiu o veredito condenando o casal, enfumaçaram o céu com foguetes. Fiquei com vergonha da raça humana. Pergunto ao leitor: e se no futuro for comprovado que foi um erro judiciário, que o assassino de Isabela fora outra pessoa? O leitor, diante de tantas informações, diante todos os indícios de que o casal assassinou a menina, dirá, com convicção, que não há dúvidas quanto a autoria do crime. Pois, caro leitor, todos os erros judiciários são embasados em fortes indícios ou "provas" que levam à condenações. Eis alguns erros judiciários que se tornaram famosos acontecidos no Brasil e no mundo: A fera de Macabu. Antônio Motta Coqueiro, fazendeiro abastado do lugarejo chamado Macabu, distrito de Macaé, RJ é condenado a forca por cometer a chacina de 8 pessoas de uma família em 1852. Todos indícios apontavam que Motta era o responsável. A população revoltou-se. As roupas ensanguentadas das vítimas foram expostas nas ruas de Macaé. Histórico da acusação: Motta se apaixonou por Francisca, filha de um colono, Francisco Benedito, e este, de pronto, não aceitou o relacionamento porque o fazendeiro era casado. O que os tornaram inimigos entre si. O colono e familiares foram assassinados a golpes de facão. Após a chacina, foi encontrado debaixo da cama de uma das empregadas do rico fazendeiro roupas cheias de sangues pertencentes aos empregados de Motta Coqueiro. O imperador D. Pedro II era a única pessoa que poderia salvá-lo da forca com a graça imperial. Pedro II, convencido pelas evidências, não concede o livramento. Motta é executado. Ele, e outros 5 acusados. Passado uns meses, um padre ouve no confessionário uma testemunha que disse quem fora o verdadeiro culpado: Dona Úrsula, a esposa de Motta Coqueiro! Cega de ciúmes contratou os próprios empregados da fazenda para o serviço espúrio. Dom Pedro II ficou tão envergonhado com a execução de Motta que extinguiu a pena de morte no Brasil. Este caso é conhecido como a Fera de Macabu.
Os Naves. Os irmãos Joaquim e Sebastião Naves tornaram-se sócios do primo Benedito Pereira Caetano em um armazém de cereais em Araguari em 1937. Certo dia, Benedito desaparece. Os dias se passam e nada de Benedito. O delegado, tenente Francisco Vieira dos Santos, o Chico Vieira, aposta que os irmãos sócios deram cabo em Benedito para ficar com o estoque de cereais do armazém. Foram presos e condenados a vinte e cinco anos e meio de cadeia. O gentil delegado para formalizar provas obrigou os irmãos confessar o assassinato de Benedito. Todo tipo de perversidades, desde arrancar-lhes as unhas, enfiar-lhes objetos nos orifícios, e surrar-lhes foram impostos para conseguir a confissão. Prendeu a mãe e as esposas que passaram a sofrer torturas diversas, até sexuais. Joaquim não suporta tamanho sofrimento, morre no asilo em decorrência das torturas. Eis que um dia, em julho de 1952, Benedito é visto em Nova Ponte, MG. Havia se passado 11 anos e o perverso delegado já havia morrido no mesmo ano em Belo Horizonte. O caso é esclarecido em 1953, mas o sofrimento foi maior que os dezesseis anos de injustiça.
O caso Dreyfus. Em 1894 foi descoberta uma carta em um cesto de lixo na Embaixada da Alemanha em Paris. A carta foi parar nas mãos do Serviço Secreto Francês. Logo concluíram que existia um traidor entre os oficiais franceses que espionava para os alemães. Alfred Dreyfus, o único oficial judeu foi considerado o principal suspeito e foi levado a julgamento. Condenado a prisão perpétua, foi cumprir pena na Ilha do Diabo, Guiana Francesa. Foi degradado em praça pública. Meses depois, os indícios de inocência foram surgindo e então possibilitou-se um novo julgamento. Foi condenado mais uma vez. O escritor Emile Zola expôs a injustiça nos jornais através de uma carta aberta ao Presidente da República. O povo francês se dividiu. Muitos estavam a favor de Dreyfus, outros tantos, contra Deyfrus, principalmente porque este era judeu. Na revisão do processo de Deyfrus, em 1906, comprovou que Charles-Ferdinand Walsin, major francês fora o verdadeiro autor das cartas e que agia como espião dos alemães. Deyfrus é restabelecido no exército. Foram doze anos de prisão. Foi o erro judiciário mais famoso do mundo.
Em1974, na Flórida (EUA), foi condenado a prisão perpétua um rapaz de 19 anos, James Bain, por atentado violento ao pudor, contra um menino de 9 anos, ou seja, por pedofilia. No final de 2009, uma ONG (organização não governamental), " Institut Inoncent" dedicada a combater erros judiciais, comprovou que Blain não atacou o menino. Testes de DNA realizados comprovaram a inocência do Blain que ficou 35 anos na cadeia. Blain está mais velho do que deveria com seus 54 anos de idade. Quem vai devolver estes 35 anos de mocidade que lhe usurparam? Quanto vale uma vida?

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Av. Universitária


Mulheres das sete e vinte

Por Tadeu Nascimento

A princípio pensei que era apenas uma coincidência ver tantas numa pequena fração da manhã. São como uma revoada de pássaros, pensei. Mas, com o seguir dos dias, confirmei que a "coincidência" se repetia (se repete) em dias de feira: de segunda a sexta. Acredito numa armação por parte das mulheres bonitas (só as bonitas; as feias não se entendem nem abaixo de vara de marmelo!). Existe sim, um acordo- entre elas- tácito, inconsciente: elas acordam por volta das seis e meia da manhã. Gastam meia hora entre o espreguiçar, o escolher da roupa, o escovar dos dentes, o pentear dos cabelos. Porque elas tem um encontro às sete e vinte, com seus afazeres, em qualquer lugar no Setor Oeste ou na Praça Cívica ou ainda no setor Universitário. Vinicius de Moraes tinha razão quando disse: "As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental!" Sem se conhecerem, umas passam pelas outras, descortinando a manhã. Umas, com passos rápidos, outras se exibindo para os homens que com elas se cruzam, outras que se deixam levar pelo fluxo do trânsito. É impressionante o número de mulheres, cuja beleza eleva o astral do macho, relevando à insignificância- por alguns minutos- a neurose da labuta em busca do pão de cada dia. Trata-se de belezas naturais, frescas, limpas, imaculadas. Nada dos excessos que carregam as mulheres que saem à noite, muitas delas cansadas pelo que se passaram no decorrer do dia- da perseguição do chefe da seção à neurose do patrão além do caos do trânsito- revelam- antes de suas belas roupas- intenções outras que estão longe da naturalidade que se expõem nas primeiras horas da manhã, quando vão ao trabalho, à universidade.

É preciso atenção diante do volante para não causar grandes estragos na natureza, diante de tantas mulheres de siluetas esculpidas por Deus. Quem duvidar, é só fazer o meu trajeto: comece pela Praça Tamandaré, mais ou menos às sete da manhã. Devagar (mais uma vez) para não agredir o meio ambiente, pois ali é passagem de fêmeas, no auge das suas juventudes, atravessando a parte de cima da praça. Devagar porque ali está prova cabal que Deus existe, pois Ele lhe deu dois olhos e uma libido para apreciar o quanto a natureza é generosa! Devagar para ver o quanto a cidade é repleta de belas mulheres!

Umas, cruzam a praça em busca do desjejum no Biscoitos Pereira, outras já abastecidas com café da manhã domésticos, outras ainda se debatendo contra a vontade de comer para se continuarem esguias e belas. Sem contar as que fazem o sentido contrário com a mesma disposição. Quase todas direcionadas para centenas de escritórios, consultórios, hotéis, além das instituições bancárias do Setor Oeste. Segue o leitor pela Assis Chateaubriand, passando pelo Palácio da Justiça e vai concordar que não é exagero: vale a pena levantar um pouco mais cedo! É como se acordar na roça para ver o amanhecer com a passarada cantando, repletas de andorinhas e bem-te-vis! Seguindo a rota que faço todos os dias para o trabalho, chega-se à Avenida Universitária. Eis, a apoteose: na casa dos vinte minutos depois das sete, uma manada- assim como nas Savanas de Serengeti no Quênia, África- de seres da melhor espécie: de calça jeans e mini blusas mostrando os umbigos; com tatuagens, sem tatuagens, de mini saias, umas menos comportadas, outras mais ousadas no vestir (existe diferença!); de cabelos soltos como é solta a juventude, de rabos de cavalo ou de madeixas rebeldes. Às vezes me convenço que as revoadas não são de pássaros; mas de anjos que estão ali se preparando, se transformando em enfermeiras, médicas, odontólogas, advogadas, jornalistas, psicólogas, engenheiras, arquitetas que vem ao mundo para ajudar os homens na travessia por esta vida! Passam com os olhares firmes no futuro, com bolsas forçando um ombro, umas vestidas com jaleco e estetoscópios pendurados nos pescoços, outras com o peso das leis dos Vade Mecum, ou dos "lap top" e até aquelas de andado leve, carregam no entanto, um monte de sonhos. De longe, o cronista fica a a pintar a tela que seus olhos retratam ao mesmo tempo que seu neurônios filosofam, o quanto é bela a juventude !
Lamentavelmente este ritual não existe na volta para casa. Elas se dispersam. São lutadoras como Joana D'Arc: umas fazem horas extras, outras se sacrificam nos bancos das faculdades, nas compras da semana nos supermercados. A maioria, cançada, ainda vai preparar no fogo uma comidinha antes de cair na cama e há aquelas que vão banir o estresse numa mesa de um boteco. Para recomeçar na manhã seguinte. Deus existe!

quarta-feira, 31 de março de 2010



O Caminho da Pedras

Por Tadeu Nascimento


Amarildo Carimbó, de Água Mansa, sujeito subalterno nas querenças caprichosas da patroa Dona Manoelina, andava sempre com os olhos pregados nas suas botinas, no desviante das tentações das curvas e rebolados do mulherio da cidade. Andava tão no retilíneo que para virar uma esquina, dava um solavanco no esqueleto que parecia que nele estava baixando o santo. Intimidades de sussurros e adjacências, só com a cara metade, que de tão gorda tinha tantas metades que Carimbó sempre caia no dificultoso de encontrar o caminho das pedras, ainda mais no escuridéu dos bons costumes que Dona Manoelina exigia. Seu Carimbó era um caminhão de tristezas! Se o céu for mesmo o marasmo de só "viver" no silencioso e rezaria de que tanto falam, ele preferiria fazer uma reserva no inferno, desde que o proprietário lhe garantisse frevo dos mais atrevidos e mulheres fantasiadas das mais finas safadezas! Mas como todo mundo tem o seu dia, chegou o dia da patroa despedir-se da vida. A boa notícia pegou o marido no contra-pé da surpresa que caiu durinho da silva! Seu Carimbó foi diretinho para o céu. Lá, São Pedro o recebeu com os braços abertos. "Seja bem vindo, filho querido!"-disse São Pedro. Mas o recém-chegado, muito do desconfiado com tamanha cerimônia, pediu licença a santidade e foi conferir o ambiente, o que achou muito chegado no respeitoso e muita brancura no visual, algo como uma praia de algodão doce e a trilha sonora com muitos desenrolamentos de ladainhas. Seu Carimbó perguntou então ao porteiro se não tinha ali, um pagodezinho, um arrasta-pé, um baile funk. São Pedro respondeu no mais sisudo que não.
- Nem na sexta-feira, no sábado?- questinou Carimbó.
- Aqui, todos os dias são iguais!
- Não vai me dizer que não tem botecos, choparias e boates?...
- Lamento, mas não tem!
- Nenhum?
- Não, lamento!
- Mas aonde a moçada se encontra?
- Aqui mesmo, nas nuvens! Encontra-se para as orações!
- Mas não tem uma folguinha, pra tomar um chope, fazer uma farrinha?...
Ah, meu Deus! Onde vim parar! Pensou, o recém chegado.
São Pedro com ar de decepcionado, respondeu:
- Lugar de farra é lá embaixo!- apontou da janela do céu.
Seu Carimbó foi então até a janela, pôs o ouvido de fora e ouviu o funk "Thuthuca, vem aqui pro seu negão!" e uma gritaria de festa das mais animadas!
- É disto que eu preciso, São Pedro! Pela deferência celestial a mim dedicada, vou lhe agradecer, meu santo, mas vida de marasmo e de algodão doce, já bastaram os 30 anos com Manoelina! Agora quero ir à forra e à farra!
- Vai com Deus, aliás, vai e volte com Deus, meu filho!
Deu adeusinho pro santo e desceu nuvens abaixo. Mas não passou meia horinha, eis Seu Carimbó de volta, ofegante, pedindo pelo amor de Deus para entrar. São Pedro, surpreso, perguntou com aquela voz de Dom Paulo Evaristo Arns, se ele não gostou do inferno e ele respondeu:
- Sim !... não!.. sim!..não!.. É que eu levei um susto danado, São Pedro, quando vi a Manoelina e a mãe dela fazendo, as duas, striptease para o Capeta, ao som de "Thuthuca, vem aqui pro seu negão!" E o pior, "era ele, o Demo, que estava cantando!"

quinta-feira, 25 de março de 2010

Gisele Bundchen

E Dona Emengarda queria ser atriz

Por Tadeu Nascimento

E Dona Emengarda de Sá, com os seus 130 quilos, resolveu fazer regime de afinamento, pra ganhar perfil de atriz de cinema:
- Quero ter corpo de gazela, doutor! Algo como Angelina Jolie ou Gisele Bundchen! Porque já me cansei de esperar pelas migalhas de amor do meu marido Setembrino! Atualmente, ele me olha como se eu fosse um parente distante, um quadro de pintura abstrata! A última vez que ele me procurou foi quando o Botofago foi campeão carioca. Isto já vai pra cinco anos! Na verdade, ele fez todo tipo de juramento para que o Botafogo ganhasse aquele campeonato: jurou que iria votar no Enéas pra presidente (Enéas ainda estava vivo), que não iria mais fumar, nem ingerir bebida alcoólica por um mês e que não comeria jiló por resto vida (mas ele detesta jiló!) e que iria a pé até a Aparecida do Norte e outras promessas que segundo ele, eram segredo! Aliás, doutor, tenho uma leve impressão que eu faço parte destas promessas! Mas o que me leva a esta atitude radical é o olhar de curva de Setembrino em cima das protuberâncias que ficam logo abaixo da cinturinha fina de Zuleica, nossa empregada! Aliás, ele vive cochichando nos ouvidos dela e ela, por sua vez, faz um sorriso dos mais sem vergonha! Tô muito desconfiada também, com esta coisa do Setembrino ler todos os dias, em voz alta, no jornal, a previsão do tempo, pra saber se vai chover, só pra fazer a caridade de levar Zuleica pra casa dela. Um dia descobri que ele lia diariamente o mesmo jornal, datado de 10 de outubro. Ora, já estamos no final de março! Mas o que posso fazer, se eu não vivo sem o Setembrino! Portanto, a partir de hoje só bebo água e mastigo gelo!- disse ela para o médico endocrinologista.
- Nunca tive uma paciente tão obcecada! Se isto vira moda, eu é que vou morrer de fome!- disse o médico emagrecedor de madame.
E para acelerar o emagrecimento, Emengarda corria 10 quilômetros por dia e ainda obedecia a um personal trainer especialista em faquir. As costelas já estavam espetando costelas e ela ali, com olhar de deserto, se achando cada vez mais apta ao estrelato. "Mais um pouco, já posso fazer novela na Globo, beijar o Geanecchini, dançar no Programa do Gugu e sair nua na Playboy. Depois disso, meu projeto é tomar o Jesus Luz de Madonna! Aí eu quero ver Setembrino se morder ciúme! É só esperar que eu estou chegando!"- falava Emengarda para si mesma.
E Dona Emengarda foi ganhando jeito de vara de bambu. E de vara de bambu para o jeito de palito e de palito para o jeito de caveira.
E Setembrino, querendo ficar livre, para todo o sempre de Dona Emengarda, dizia a ela:
-Emengardinha, me orgulho muito de você! Você está revolucionando a ciência, principalmente a Endocrinologia, a Psicologia, a Parapsicologia, além de outras "gias"! Sua força de vontade é maior que a de Sansão, de Hércules e de Marco Maciel, aquele que foi vice-presidente! Mas voltando ao assunto, Emengardinha, você tá quase no ponto! Mais uns 25 Kg a menos e você vai ficar mais bonita que Angelina Jolie e mais enxuta do que Gisele Bundchen!
Os meses se passaram e Dona Emengarda continuava firme no propósito de se tornar estrela de Hollywood e com isto, apertava o cinto do regime e assim, do jeito de caveira, foi ganhando jeito de extrema-unção.
E no hospital, Setembrino despediu de Dona Emengarda com jeito de 7º dia:
- Emengardinha querida, você nunca teve jeito pra artista de cinema! Você nunca conseguiu decorar nem "Batatinha quando nasce"! Vai com Deus Emengardinha, que eu me encontro com você na outra encarnação, lá em Hollywood! Vai Emengardinha, vai! Estou mandando, vai! Vai!
E ela foi.
Como é minha senhora? A senhora queria um final surpreendente e feliz para Emengarda? Impossível. Emengarda não merece. O regime veio hora muito atrasada! Talvez na outra vida, lá em Hollywood.
Em tempo: qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

quarta-feira, 17 de março de 2010


O amigo da onça

Por Tadeu Nascimento


Adalberto se encontra com Murilo numa mesa de bar:
- Parabéns, cara!
- Parabéns,
por que? Hoje não é o meu aniversário!
- Parabéns porque ontem, você saiu com a Daniela! Aquela potranca, a mulher mais gostosa da cidade! Quem diria, o mais modesto dos meus amigos! Todos deram em cima dela, mas só você, Murilão, conseguiu! Grande Murilão! Você agora, é o meu herói!
- Antes, eu era Murilinho, raramente Murilo, agora sou Murilão! Aí, tem coisa!..Muito bem, mas... quem te contou?
- As notícias voam, meu caro! Mas me conta, eu quero saber!
- Saber o quê?
- Eu quero detalhes! Vamos, me conta!
- Contar o quê, Adalberto?
- Ora, como foi a transa!
- Que papo é este? Toma seu chope, se não esquenta!
- Eu preciso que você me conte! Além do mais, sou o seu melhor amigo! Eu mereço saber!
- Não quero falar sobre isto! É coisa exclusivamente minha e dela! Vamos mudar de assunto: o seu Goiás Esporte Clube, hein...não tá nem entre os quatro!..

- Vai guardar segredo só pra você? Se não contar pra alguém, não tem graça!
- Você está sendo cretino!
- Cretino ou não, você vai me contar, eu te contei a minha transa, tim-tim por tim-tim com a Sandrinha!..E você ficou babando com os detalhes!
- Eu fiquei babando, é? Você tá louco! Procure o Marcelo Caixeta, é o melhor psiquiatra da cidade!
- Sim, senhor! Você ficou todo excitado! Acho que você ficou imaginando como foi! Vamos lá, rasgue o verbo, meu caro, quero de-ta-lhes! Eu sou amante dos de-ta-lhes!
- Qual é, Adalberto?! Eu não tenho procuração da Daniela para falar sobre a nossa intimidade! Não tem essa de de-ta-lhes! Aliás, faça como você mesmo disse, vai imaginando como foi, tá?
- Ah, é? Então vou imaginar: você a levou para o melhor motel da cidade, e lá, com toda classe- porque eu te conheço- abriu uma garrafa de vinho, ou seria de champagne? Champagne, ela merece! Depois vocês se beijaram por muito tempo e passaram a se alisar, mãos percorrendo as pernas. Você jogou Daniela na cama... Foi ou não foi?
- Não tenho nada a declarar!
- E aí? Termina de me contar! Ela é boa de cama?

- Me respeita, Adalberto! Eu não sou canalha!
- Pôxa, cara, eu não vou sair esparramando por aí! Me conta!
- Eu não te conto nada!

- Não cara, conta! Você não tá vendo que eu estou sofrendo com esta ansiedade!
- Adalberto, eu vou apelar!...
- Aí, você foi tirando a roupa dela... Não, não, antes ela fez um streptease, bem devagarzinho, na penumbra, ao som da Madonna ou do Barry White e você com a taça de champagne, babando...
- Você que está babando!
- Aí, você começou a tirar a roupa, mais rápido que um foguete e foi dançar com ela de cueca...
- Eu fui dançar de cueca? Como é que você sabe disso?
- Uai, estou imaginando! A minha imaginação é fértil!
- Fértil é sua avó que tem um neto mais idiota do planeta!
- Não apela! Apelou, perdeu! Vamos continuar com a minha imaginação: De repente você está pelado também, diante daquela deusa maravilhosa que está só de calcinha!..Aí, você a puxou com delicadeza pra cama, tirou-lhe o último pedacinho de pano e começou a beijar o corpo dela e ela ficou sussurrando nos seus ouvidos e aí... e aí... você não deu conta! Brochou! Ah, foi por isso que você não quis me contar! Você brochou! Ka, ka, ka! Não foi isso mesmo que aconteceu? Brochou! Ka, ka, ka! Não se preocupe, meu amigo, isto acontece... É próprio da idade! Mas por que você não tomou um Viagra, Murilinho?
- Vai te catar, seu cretino!

- Eu vou, mas com a Daniela!.. E com um Viagra no bolso!

quinta-feira, 11 de março de 2010




Butantan city



Por Tadeu Nascimento



O fato ocorreu na década de 90 numa cidade perto de Goiânia, dias antes das eleições municipais. Este cronista, querendo preservar a sua paz, se reservou no direito de dar nomes fictícios à cidade e aos personagens em questão e, claro, com a sua visão de cronista, carregou a história com um pouco de tintas de exagero e de humor:

Albatênio Pedroso, político obcecado pelo poder, fazia qualquer falcatrua para chegar à prefeitura de Brejo City. Com o lema “Vote no Albatênio, o candidato do 3º milênio”, acreditava que arrumaria sua a vida para sempre, se ganhasse a eleição. Depois de consumir todas as idéias de passar a perna nos adversários, falou para o seu puxa-saco imediato:
- Seu Raimundinho Braz, tenho uma tarefa que lhe cabe muito bem! Acreditando na sua maldade de cobra surucucu, quero que o senhor me dê um tiro caprichado neste peito cheio de bem querer! E não erre a pontaria porque senão, eu que lhe darei uns tiros de garrucha de dois canos, nas suas partes pudicas!

- Mas pra que isto, seu Batênio? Se eu der um tiro no senhor, o senhor bate com as dez, eu perco o emprego e ainda pego uma cana arretada!

- Deixe de ser besta homem! Por acaso eu tenho cara de anta? ‘Cê acha que eu sou seu irmão? Isto é pra jogar a culpa no Joaquim Coró! Aí o povo pula para o meu lado! De dó de mim, e de raiva do Joaquim Coró! É agora ou nunca! Senão ele ganha a eleição!

- Mas o povo não vota em morto, seu Batênio!

- Mas tu és uma besta mesmo! Eu não vou morrer! Tá vendo isto? É um colete à prova de balas! Prega fogo, porque aqui é macho de muita coragem!

- Então segura, que lá vai chumbo!

Albatênio ficou mais sapecado que porco em sábado de aleluia!

Brejo City acordou atônita: “Tentaram matar o Albatênio!”, “Dizem que foi a mando do Joaquim Coró!” “Coitado do Albatênio!”, “Nossa Senhora da Aparecida protega Albatênio!,” “Missa para o Albatênio!”, “Existe uma romaria na porta da casa de Albatênio!”. Estas frases saiam a cada minuto da boca do povão, que- como sempre- vota na base da emoção. Enquanto isto, seu Raimundinho Braz se encarregou de convocar a mídia, e com isso, dava entrevista na rádio local, lia boletim médico (que ele mesmo subscrevia) de hora em hora, dizendo que a vítima estava se recuperando e que Deus desviou a bala endereçada para o coração de Albatênio, apesar da maldade dos adversários, marcou missa- pró recuperação do moribundo- de hora em hora e ainda convocou as meninas de vida fácil para chorar na porta casa da vítima.

Uma semana depois, a pesquisa apontava Albatênio como futuro prefeito da cidade. Joaquim Coró, vendo sua vitória cada vez mais longe, partiu para o contra ataque: mandou seqüestrar a própria mulher e também a sogra pra se livrar do entulho, deixando ameaça em bilhete, dizendo que se o candidato Joaquim Coró ganhasse a eleição, só devolveriam- por castigo- a sogra!

Um mês depois das eleições, o vitorioso Coró dizia para Coró:

- Quem mexe com cobra venenosa tem que andar com soro antiofídico no bolso! E eu não sou besta! Agora, é só mandar fazer o terno, embelezar a primeira dama, arrumar uma secretária cheia de curvas e protuberâncias, internar a minha sogra num hospício- pois ela está com a mania de dizer que eu sou sequestrador de sogra!- por conta da prefeitura, claro; nomear seu Raimundinho Braz pra secretário e passar a mão na chave do cofre da tesouraria! Não é à toa que meu lema é “Vote no mió, Vote no Joaquim Coró!”

terça-feira, 2 de março de 2010

Romeu e Julieta no cinema

Edgar e Elizabeth


Por Tadeu Nascimento



Edgar amava perdidamente Elizabeth. E vice versa. Sabe aquele amor impossível, tipo Romeu e Julieta? Pois é, mais uma vez, ele pobre, ela riquíssima. Ela acabara de entrar na faculdade de filosofia. Ele, reprovado no vestibular para medicina. Edgar prometeu aos amigos meter uma bala na cabeça se Betinha se casasse com outro. Ela, por sua vez emagreceu, perdeu o ano na faculdade. Tudo porque Shakespeare já dizia que pobre com rico não dá samba, dá merda! No entanto, ela garantia que iria cortar os pulsos com uma faca de cortar mortadela se a impedissem de casar com o seu bem querer, o Edgar! Mais uma vez não deu certo. Nem o casamento, nem o suicídio de um ou de ambos. Os pais de Elizabeth exportaram-na para os "Esteites". Por lá se casou e pouco dela se teve notícias. Edgar ficou a chorar pelos cantos dos bares e nas confortáveis saboneteiras femininas. Por aqui ficou, ultrapassando o Mário's Chops, o Zé Latinhas, o Dona Beija, o Salerno, o Don Quixote, o Degraus 94, o Zero Bar, até chegar ao Bar do Celso. Adotou uma solteirice encravada e a defendia com a determinação de São Jorge espetando a guela do dragão.
Por volta dos anos setenta, Edgar, dono de uma vasta cabeleira, magro como um gafanhoto, com sua calça que apertava as partes baixas e adjacências, circulava na Rua 8 do Centro, lépido e faceiro como se fosse o próprio Romeu de Verona ao expor a sua juventude ao som dos Beatles e dos Rolling Stones que- desculpa-me a redundância- rolava no Lanche Americano. Não havia uma dondoca com mini saia que não passava sem piscar um olho para o galã shakespeariano. Ela, angelicalmente bela- bem comportada, como toda filha de rico- todos os sábados ia saborear um milque cheique (este cronista se recusa a beber e a comer em inglês!)- quase sofreu uma síncope quando viu Edgar pela primeira vez: "Ele é mais bonito que o Ronnie Von! Roberto Carlos perto dele é o Frankistein!"- jurava Betinha. Paixão a primeira, a segunda e a enésima vista! Ela, magrinha e encantadora como Audrey Hepburn, " A Bonequinha de luxo". Ele fazia hora, competindo com os artistas em cartaz, na porta do Cine Casablanca que naquela semana, exibia "But Cassidy" com Paul Newman e Robert Redford. O coração de periferia de Edgar não aguentou quando seus olhos viram Elizabeth: se apaixonou pela primeira e última vez na vida!
Outro dia, cá em fevereiro de 2010, Edgar, no auge da sua maturidade, com uma manquitolante perna esquerda com gota, ao dobrar uma esquina movimentada do centro da cidade bate de topo, ou melhor, dá um encontrão com uma mulher. Ela quase caiu. Ao se desequilibrar, esconjurou todos os machos do planeta. Ele teve que se amparar numa parede. A dor no dedão do pé esquerdo o fez evocar em pensamento todos os palavrões usados por Bocage. Quando olhou para quem o atropelou, se surpreendeu:
-Mas o que é isto? Uma jamanta desta envergadura deveria trafegar na rua e não no passeio! E com a polícia abrindo passagem com a sirene ligada!- Disse Edgar para Edgar.
- Que cara mais escroto! De tão gordo, parece que está prestes a dar a luz a um casal de gêmeos! Além de careca! Se tivesse espelho em casa teria vergonha de andar na rua! Tem gente que não se toca! Que trombolho!- Praguejou no silêncio Elizabeth.
Olharam um para o outro com caras de lutadores de sumô. Em pensamento, ambos fizeram análise um do outro:
- Deve ser uma mulher muito infeliz com este corpo de patrola! Duvido que algum homem deste mundo, um dia se interessou em dormir com esta coisa!- apostou em pensamento Edgar.
- Deve ser um homem que- de tão grávido- nenhuma mulher normal ou louca ousou fazer amor com ele!
- Preferia ser brocha a vida inteira, que dormir com esta patrola!
- Deus me livre de um homem assim! Com esta pança escandalosa, deve ter umas 4 décadas que não consegue ver o próprio bilau!- exclamou em off, Elizabeth.
Assim passaram um pelo outro, no embalo de quarenta anos, um amor trepidante que se derreteu ao passar pela guela do tempo.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010


Celsinho Bar - Goiânia (GO)

Regina, a perigosa

Por Tadeu Nascimento



Roberval namora Silvinha. Kardecista, ela foi- no ano passado- passar os dias de carnaval em retiro espiritual numa fazenda. Ele ficou por aqui mesmo, com a promessa de não brincar carnaval em lugar nenhum. No máximo, iria ali, no Bar do Celsinho tomar uma cervejinha e comer alguma coisa. Na sexta-feira de Carnaval, por volta das 10 da noite, estavam Roberval e o amigo Carvalhinho no "Celsinho", conversando abobrinhas, quando surge à frente de ambos, como se saísse do nada, uma dessas mulheres que não é só de parar o comércio, mas de fazer a Marquez de Sapucaí emudecer o samba:
-Oi, meu nome é Regina, posso me sentar?
Pasmos ficaram, diante de tamanha maravilha, mas foi Roberval quem se levantou para puxar a cadeira:
-Claro, por favor.
-Como eu disse, meu nome é Regina. Vocês...como se chamam?
-Eu sou Roberval e este Joaquim Carvalho. Carvalinho para os amigos.
Carvalhinho mudo. Assim como qualquer criado mudo.
- Não repare, Carvalinho não é de falar muito!- disse, Roberval.
-Vocês devem estar estranhando eu chegar sem mais nem menos, à mesa de vocês! Bem, não quero interromper a conversa de vocês, então.... vou direto ao assunto: meu noivo foi passar o carnaval no Rio de Janeiro e ele não quis que eu fosse junto! Agora, isto é o problema é dele! E eu, quando aqui cheguei, achei você Roberval, a pessoa ideal!
-Eu? Ideal?- Posso saber porquê?- indagou Roberval.
-Para ser a pessoa com quem eu pretendo trair o meu noivo!
Roberval engoliu seco. Carvalhinho se engasgou com a saliva. A questão é que não estavam acreditando no que viam e muito menos no que ouviam. Deve ser pegadinha, pensou Roberval, olhando para os lados, buscando alguma câmera de TV, alguém filmando. Justamente ele que nunca levou sorte com mulher, apesar de não ser miseravelmente feio, mas está longe de ser um Geanecchini. Quanto mais, diante uma deusa que deveria ser destaque em qualquer escola de samba do mundo. E Roberval conquistar alguém era muitíssimo raro. Na verdade, quando Deus ajudava, a dita cuja era tão mal ajambrada que no "day after", ele descobria que ele que era a presa (com exceção de Silvinha, a sua namorada, que é mediana em termo de beleza). No entanto, a sorte que nunca teve, agora caiu do céu! Mas, voltemos a deusa Regina:
-Quero que saiba, Roberval, que eu quero trair pra valer. Quero fazer tudo, tudo, tudinho, está me entendendo? Uma verdadeira noite de vingança e acredito que você não irá se arrepender! Topa?
Diante daquela que parecia mais um carro alegórico do que uma rainha da bateria de escola samba, Roberval não acreditava no que estava acontecendo (Carvalhino então, nem piscava!). Quanto mais diante de uma proposta irrecusável e tão abençoada! Roberval achou que estava sonhando. Então se beliscou. Ela percebeu:
-Não é um sonho, Roberval, creia! Topa? Me diga agora, se não vou procurar outro!
-Naaaão! Quer dizer...eu topo! Topo na hora!
-Então acerte a conta, despeça de seu amigo e vamos!
Partiram para o motel melhor da cidade. Roberval queria impressionar, até porque ela merecia um motel 300 estrelas! "E a besta do noivo deixando o Estandarte de Ouro aqui em Goiânia! Ainda bem que está em boas mãos"- delirava Roberval.
Regina cumpriu o prometido. Foi uma noite esplendorosa, apoteótica! E Roberval falou para os próprios ouvidos: esta noite valeu mais que ganhar o Campeonato Brasileiro, a Copa do mundo, a Fórmula Um e o carnaval do Rio de Janeiro, tudo ao mesmo tempo!
Consumada a traição, Regina pouco conversou:
-Por favor, me deixe no meu carro!
Roberval, maravilhado, tentou puxar conversa. Mas ela não queria papo. Ele tentava, ela cortava.
No caminho, ele mudo, ela calada:
-Boa Noite e obrigado. (apenas ponto, sem exclamação!)
"Mas assim-assim, sem um beijo de despedida, sem deixar o número do telefone, o endereço?"- pensou, Roberval.
Foi pra casa se achando o Jonny Depp, o homem mais sexy do mundo, mas com a pulga atrás da orelha. Ainda bem que o Carvalhinho é testemunha, se não, ninguém acreditaria!
Roberval não mais viu- nem de longe- Regina! Procurou em bares, supermercados, shopping centers, portas de faculdade e nada. Um ano se passou e o carnaval chegou. Mais uma vez. Desta vez Silvinha, a namorada, não foi quis saber de retiro espiritual. Desconfiou do comportamento de Roberval:
-Roberval não é o mesmo! Tem um não sei quê de inquietude. Um olhar de cobra surucucu a procura de alguém ou de alguma coisa que eu não sei o que é. Isto acontece em qualquer lugar onde vamos. Mas é algo que cheira a confete e a serpentina- jurava Silvinha.
Bem, como disse, um ano depois, exatamente na sexta-feira de carnaval, no mesmo Bar do Celsinho, um casal se esbarra no outro:
-Oi!- disse Regina, quase se resvalando em Roberval.
-Oi!- respondeu Roberval, surpreso.
Ela passou com o noivo. E Roberval com a Silvinha.
-Quem é este cara?- perguntou o noivo.
-Quem é esta?- perguntou Silvinha.
Regina fez de conta que não ouviu o noivo e Roberval se fez de surdo pra Silvinha.
De mãos dadas com Silvinha, Roberval filosofou em pensamento: "É, mulher quando quer trair, ninguém segura! É do demo de batom e salto alto!"

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010


Os amantes


A mania de Zé Ricardo


Por Tadeu Nascimento


José Ricardo estava no seu terceiro casamento. O primeiro foi com Maria Lúcia que o flagrou saindo de um motel com Marinalva, uma ex-namorada. Inapelável. Mas mesmo assim, tentou se desculpar, prometendo nunca mais pisar na bola. Nada adiantou. Ela, de família conservadora, educada em escola de freiras, não admitia traições. Quanto mais com uma ex.
- Quanto tempo você me trai com esta catilanga, seu sem vergonha?
Sem resposta. Fim de uma história. José Ricardo amargou solidão por uns dias e logo saiu à caça, como um leão que acabara de fugir das grades. Surgiram alguns relacionamentos: uns que valiam uma viagem pra Caldas Novas, outros descartáveis, como seringa de injeção. Mas logo conheceu Silvana, mulher despachada, destas da pá virada, autêntica, de poucas palavras e que não aceitava qualquer deslize de José Ricardo. Tudo ao contrário da recatada Maria Lúcia, menos no que dissesse respeito a traição.
José Ricardo casou-se com Silvana em cerimônia em cartório e depois comemoram com amigos e familiares num belo restaurante. Por coincidência, na hora dos cumprimentos, quem surge à sua frente? Ela, a Marinalva!
-Não vai me apresentar sua noiva, quer dizer, sua esposa Ricardo?
Ele, mais do que sem graça, recebeu os votos de felicidades para uma nova vida a dois. Não restando alternativa, apresentou Marinalva à esposa. Dois anos se passaram quando Silvana descobriu que Ricardo tinha um caso com outra mulher, pois encontrou baton vermelho em sua cueca, embora não soubesse de quem. Inapelável. Bye-bye, segundo casamento!
Um ano depois, conheceu Paulinha que era o meio termo entre as duas primeiras mulheres. Porém era muito ciumenta. Casou-se com ela e vive um casamento às turras, sabendo que também não ira durar muito. A causa? A mesma. Sempre outra mulher.
Enquanto Ricardo estava com Paulinha, Maria Lúcia e Silvana se conheceram num salão de beleza e descobriram que foram esposas do mesmo homem, José Ricardo.
-José Ricardo Antunes? Não me diga! Eu fui a primeira esposa dele!
De repente tornaram-se amigas. Afinal tinham algo em comum: o ex-marido. Faziam compras no shopping, saiam para um chopinho, uma visitava a outra e pouco a pouco foram descobrindo a vida íntima de ambas com José Ricardo. Maria Lúcia que fora a primeira esposa, contou à Silvana- em meio uma pizza e chopes num shopping- a causa do fim do seu casamento com Ricardo.
-Flagrei ele saindo de um motel com uma ex-namorada, a Marinalva. Perguntei a ele quantos anos ele me traía com aquela catilanga e ele não respondeu, apenas ficou a se desculpar, e prometendo que nunca mais iria me trair, mas não aceitei. Fui apurar os fatos e descobri que ele tinha um caso com Marinalva por 5 anos, ou seja, desde que nos casamos. Pedi o divórcio.
- Acho que conheço esta tal Marinalva! Mas... deixa eu te contar: o meu caso é parecido com o seu, só que eu não sei com quem ele me traía. Um dia a sua cueca apareceu com mancha de baton...
- Vai ver, foi com a Marinalva!..
- Pois é, acho que conheci esta Marinalva...
- No dia do seu casamento?
- Como você sabe?
- Já vi este filme!..
Mal terminara de falar, avistaram José Ricardo acompanhando uma mulher com jeito de intimidade. Mas o rosto da mulher não era possível de se ver. Ela estava de costas.
-Falando no diabo... olha lá, o filadaputa do Zé Ricardo! Ali... com uma mulher- disse Silvana.
O casal sentou-se num restaurante em frente e a mulher sentou-se de costas para a porta de entrada, de forma que Maria Lúcia e Silvana não viam o seu rosto. Combinaram então as duas, de se sentarem em frente ao casal. Fazendo de conta que iriam se sentar para almoçar, ficaram, antes de se sentarem, tete-a-tete com o casal:
- Jo-sé Ri-car-do!... Ma-ri-nal-va!- gritaram as duas ex-esposas.
- Oi! Vocês juntas? O mundo vai implodir! Esta é uma colega de trabalho...(referindo-se a acompanhante)
- Mas você não toma jeito, num shopping, à luz do dia! Você não toma tipo, não é José Ricardo? Você casou-se pela terceira vez e continua traindo! Você sempre me traiu! Traiu a Ana Lúcia e agora a Paulinha com a mesma Marinalva! Já-já, a Paulinha vai descobrir, se não já descobriu! Mas, já que a história de vocês é antiga, por que você, Zé Ricardo, não se casou com ela?- Perguntou Silvana- com a mão na cintura.
Ora porquê! Porque não teria a menor graça! Não sou homem pra viver sem uma amante e amante é tudo de bom, ponto com ponto br! E Marinalva é minha amante! Se eu me casasse com ela eu teria que arrumar outra amante! Agora, se vocês toparem ser minhas amantes eu me caso com a Marinalva agorinha mesmo!
E Marinalva:
- E vocês já estão convidadas para o casamento!
Inapelável.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010


Luma e o bombeiro

Conselho aos quarentões




Por Tadeu Nascimento


Se você é homem, hétero e tem mais de 40 anos, aceite este conselho que lhe dou de graça: não se envolva (emocionalmente, claro) com mulher de vinte anos, principalmente se for bonita demais ou ainda, o mais arriscado: se for bonita demais com cinturinha de pilão- o que é muito bom- mas, sorry, não é pra você, é muito perigoso. A encomenda, com certeza, vai lhe sair cara demais. Tudo bem, se tem o coração de pedra, mas um dia a pedra poderá se quebrar e aí vai se apaixonar e então, estará no pau da goiaba (do Zé Estevão). A palavra “paz” não fará mais parte do seu dicionário. Pode você ser podre de rico ou virtuoso pobretão. Longe de querer rimar, mas... não haverá perdão. Ao tentar se relacionar com uma deste tipo, você já é um pré-corno! Imagine se você terá um minuto de paz: na faculdade, o colega que se senta na carteira de trás, barulhando no ouvido dela: “Esta noite sonhei que estava fazendo amor com você e que eu tinha levado você às nuvens!” Quando ela for ao banheiro, enquanto você a espera, no seu carro ou tomando o seu chope (que a esta altura estará descendo quadrado), no caminho, sempre terá alguém buzinando na orelha dela: “Hoje à noite vou dar uma festa no meu apê e você é a única convidada!” Um outro, mais atrevido: “Tô pensado em pintar os meus cabelos de vovô pra que você faça um ‘love’ senil comigo!" E quando você a vir assediada, na certa será por homens mais novos e, claro, mais bonitos do que você. E você terá que suportar ou cair na real. Se romper com o relacionamento, será um Haiti se desmoronando na sua vida! Se suportar, você se tornou escravo da juventude alheia e fatalmente, a qualquer hora, será trocado por um boyzinho que fala a mesma língua que ela, o que será sempre pra você... o aramaico ou o grego. Pior ainda, se a inevitável separação acontecer daqui a 5, 10 anos. Aí, meu caro, no mínimo, você sofrerá um infarto ou se tornará um neurótico que nunca mais vai encarar uma relação com uma mulher que poderia gostar de você pelo que você é. Estará condenado a gastar suas horas nos bordéis, em casas de massagem ou em boate fim-de-linha que são os refúgios de cornos e pós-cornos. Em fim, você será um neurótico- não de guerra- mas de fêmea. Será isso que você escolheu pra sua vida? Pensando bem, daqui a dez anos, o que será de você?

Se você é mulher, hétero e tem mais de 40 anos, aceite também este gratuito conselho: não se ache eterna gatinha ao ponto de se envolver com homem de vinte anos, principalmente se for bonito demais ou ainda, o mais perigoso: se for bonito demais com barriga de tanquinho, tipo exibicionista, pois deve ser muito bom para as gatinhas com vácuo na cabeça, mas pra você será uma gelada! É óbvio, se você abrir uma brecha, vai se apaixonar. Eis o inferno na sua vida, onde o capeta vai lhe proporcionar todo tipo de tortura: o de ser trocada, não por uma, mas por um batalhão de mulheres, ainda que vazias, que o tratarão como Apolo e a você como a Maga Patalógica ou como outra bruxa qualquer, viventes de uma selva de cornélias-agudas. Imagina seu gatinho na borda da piscina com um corpo sarado pronto a se mergulhar num banquete de pernas lisas e doces de uma dezena de gazelas no cio. Ah, você sabe o que é isso, você já foi uma delas! Agora é uma onça, a rosnar na borda da piscina. Mas sem dúvida, há sempre um caçador de onça obcecado a amansar a fera que mora em você. Mas enquanto você urra como felina, o capeta arma a sua arapuca! Imagina também, o seu homem dançando no centro de uma roda, na boate, com a camisa aberta (ou pior, sem ela) exibindo os seus trepidantes músculos da barriga de tanquinho e você deslocada, à margem da vida dele- se achando do tamanho de uma ervilha de vergonha- fazendo de conta que nunca viu aquele homem, no maior vexame da sua vida. Será isso que você escolheu pra sua vida? Pensado bem, daqui a dez anos, o que será de você?

Agora, se você, homem ou mulher com mais de 40, insiste no sexo oposto de 20 anos e se- como dizia Vinicius de Moraes na canção "Testamento"- "Você que só faz usufruir/Que tem mulher (ou homem) pra usar ou pra exibir"- vai quebrar a cara! Vide Suzana Vieira. Vide Eike Batista (o homem mais rico do Brasil- segundo ele mesmo- que perdeu a ex, Luma de Oliveira para um bombeiro da Polícia Militar do RJ). Lembre-se que sempre tem uma gatinha inglesa chamada Mal de Parkinson ou um jovem alemão, o Alzheimer, a sua espera. Reze pra se desencarnar antes ou acostume-se a com a idéia de dançar aos domingos, às três da tarde, com as gatinhas ou gatinhos de setenta, oitenta anos no Asilo dos Velhos da sua cidade. Não duvide, é a vida.

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010



Dr. Olegário, o rei das mulatas

por Tadeu Nascimento



Olegário Pena- dos Pena de Araguari- era médico Dermatologista. Seria mais justo chamá-lo de médico mulatologista. Quer dizer, médico especialista em mulheres de pele cor de mate, de lábios carnudos, de dentes grandes e alvos, de tornozelos finos. Bem casado, pai de três filhos, foi um craque na sua especialidade. Um Pitangui das mulatas. Não que evitasse pacientes de pele clara, mas sua fama de mulatologista corria o mundo. Quando ele se referia a morenas de pele cor achocolatada abria um sorriso de felicidade de ganhador solitário da mega sena. "Nasci pra isso, vivo pra isso", era o seu lema!
Mesmo com toda fama e glória, Dr. Olegário mal esperava a "Hora do Angelus" para passar a volta na chave na porta do seu consultório para caçar cabrochinhas de piador fino nos bairros da cidade. Decodificando cabrochinhas de peador fino: segundo o próprio Olegário, são mulatas de tornozelos finos que chegam a ter as peles ressecadas de tão magrinhos."A primeira coisa que reparo- depois da cor- é nas polegadas do peador. Quanto mais fino o peador, maior a cotação na bolsa de valores da minha alegria. Mulata de peador fino é a melhor coisa que existe! É mais quente que fundo de forno! Na hora horizontal, pula mais que cabrita picada por marimbondo!"
Essa paixão por mulata tinha razão de ser. Vem desde o seu primeiro dia de vida. Sua mãe, impossibilitada de amamentá-lo, deixou por conta de Tereza, uma mulata que fora criada pela família que também acabara de dar à luz. Paixão à primeira mamada. Quer dizer, á primeira mulata. Daí por diante, só queria se amamentar nos peitos da trigueira Tereza. De lá pra cá, a idolatria só aumentou. Na infância só conseguia dormir- enroscado numa cabrocha. Na puberdade não desgrudava o olho dos buracos das fechaduras dos banheiros para ver as empregadas, também mulatas, tomando banho. Êxtase total. Nem Casanova, nem Don Juan tinha o prazer de Olegário, quando as vias debaixo do chuveiro. Aliás, todas empregadas que passaram pela casa de Dona Arlinda, sua mãe, tinham cor de canela, caso contrário, fazia greve de fome, não ia à escola e ainda batia-lhe uma triteza de Jeca Tatu. Gostava tanto desta matiz que ao rezar, ainda quando criança, a "Ave Maria", na sua mente surgia uma nossa senhora mulata, quase aos moldes Nossa Senhora da Aparecida. E não era sem motivo que as paredes de seu consultório foram decoradas com quadros de mulatas de Di Cavalcante. Quando rapazinho, trocava idéias, fotografias- através de correspondências- com Sargentelli, aquele das mulatas do Canecão, no Rio de Janeiro. "A mulata, sem trocadilho, é coisa de Buda: é o "meso", o meio termo entre as raças, o equilíbrio entre todas mulheres!" Se Castro Alves era o maior defensor dos negros, eu sou o maior defensor da mulatas, tanto que sugeri a um amigo vereador para ingressar com um projeto de lei para que fosse instituído o Dia da Consciência Mulatícia. Pois se existe o dia da Parada Gay, porque não para o nosso produto exportação nº 1, a mulata, o maior patrimônio nacional!"-argumentava o nobre humanista.
Um dia, surge em seu consultório uma mulata estonteante, de 1,75m, cabelos em cachos, um par de brincos de argolas imensas, uma boca grande e carnuda, dentes que brilhavam como pérolas brancas e, pasmem, olhos verdes como jabuticabas em agosto, cintura de formiga e um par de nádegas criadas em cativeiro, destas que fazem esposa espancar marido, se ele ousar virar o pescoço. E o peador? Ah!..o peador! Era o peador mais perfeito que Deus já criou! Pois bem, a mulata tinha intenção de tirar umas pintas: uma debaixo do seio esquerdo, outra no bumbum e outra na verilha, do lado direito. "Só por precaução, doutor, dizem que pinta pode virar coisa séria, talvez um tumor!"-disse ela com ar de preocupada. Doutor Olegário, num misto de surpresa e felicidade, pediu-lhe que mostrasse então, as tão maldosas pintas. Sem se preocupar, a mulata, tirou o vestido de uma só puxada. Estava sem as devidas peças íntimas! Ei-la absolutamente nua! A um metro de seu olhos! Olegário engoliu seco. Era a coisa mais linda que a vida presenteu aos seus olhos. "Valei-me meu São Benedito!"- clamou em off, Olegário. Ela, mais nua do que Eva- antes de comer a maçã- chegou bem pertinho do médico e apontou para as indeléveis pintinhas. Era a maior homenagem que um homem poderia receber, pensou Olegário. Tentou se controlar. Começou pela pinta do seio. A mão que apalpava começou a se tremular. Ela virou-se para mostrar a segunda, a pinta gordinha, bem ali no auge da curva do bumbum. Olegário suava em bicas. E ela: "Agora, doutor, estou mais preocupada é com esta pinta aqui, a da verilha"- falando e virando-se de frente para o médico que estava sentado à altura da última pintinha. Pronto: enfarto. Ali, diante da apoteose do samba, isto é, da mulata :
-Obrigado, São Benedito, isto que é morrer feliz!-finalizou Olegário.
Morreu com um sorriso largo, ali mesmo, na frente de uma deusa nua, quase negra.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010


Dona Edvirgem em Caldas Novas

Por Tadeu Nascimento

Edvirgem trabalhava no Departamento Pessoal da Secretaria de Educação. Muito tímida e recatada, parecia uma freira franciscana, uma missionária de igreja de crente. Tudo seu era antiquado, até o próprio nome.Trajava-se sempre com um vestido que batia no meio das canelas, cabelos presos em coque e um par de óculos fundo de garrafa que garantiam a indiferença sexual dos homens da repartição. Aliás, era um ser que não era notado por ninguém. Quase não falava, apenas respondia sim ou não. Fazia o seu trabalho e voltava pra casa. Ninguém da Secretaria a viu na rua, num shopping, num bar.
Eis que chega o feriadão da Semana Santa e os funcionários da repartição armaram uma excursão pra Caldas Novas. Saíram quarta-feira depois do expediente com o propósito de voltarem domingo no fim da tarde. Dona Virginha (assim os maldosos da sala se referiam a ela, principalmente Maurinho Língua Preta) estava lá, na penúltima poltrona do ônibus, no recôndito de sua modéstia. Chegando no hotel, cada um foi para o seu apartamento e logo depois foram pra piscina. Virginha, não apareceu. Ninguém notou. Na manhã seguinte, com o sol disposto a arder nas peles de quem ousasse a desafiá-lo, já estavam agarrados nos copos de cerveja, Osvaldo Portela, Chico Barriga, Paulinho Fuxiqueiro, Edilson do Almoxarifado e Mauro Língua Preta. Todos solteiros, melhor, um viúvo, dois divorciados e dois solteirões de fato e de direito. Algumas senhoras subiam a escada que dava acesso às piscinas que ficavam num elevado onde os colegas cervejeiros já estavam fofocando sobre como seriam as siluetas quase nuas das nobres colegas da sala. A Marcela, tanajuricamente esplendorosa, a Silvinha com sua cinturinha de pilão, a Adriana com seu 1,75 m de puro filé, a Roberta com seu marido cara de touro bravo, a Dona Angélica com aquele corpinho de armário desmantelando, a Dona Hortência com seus quatro endiabrados filhos. Todas estavam no prato da discussão. Ninguém se lembrou da Virginha, a assexuada.
Não mais que de repente, sobe as escadas um ser que foi se surgindo aos poucos: primeiro um chapéu branco com uma flor vermelha presa ao mesmo chapéu, depois os cabelos negros e soltos sobre um rosto rosado que se harmonizava com um par de óculos escuros da última moda, a boca- ligeiramente aberta- vermelha (do batom) fazendo par com a flor do chapéu. Continuava a surgir: o pescoço de gazela e suas saboneteiras, depois o colo dos seios, o umbigo, as pernas imantadas com um minúsculo biquini branco sobre um par de tamancos que faziam a trilha sonora da sua estréia. Todo mundo pálido de espanto. Era Afrodite, a deusa da beleza, em carne e osso? Quem será esta musa? A Ava Gardner do cerrado? Quem é essa ma-ra-vi-lha?! Perguntaram uns aos outros, ainda estupefatos. Dona de si, sem olhar para os lados, nariz empinado, ela passou altiva, quase com desprezo perante os reles mortais. Os homens hipnotizados, as mulheres mortas de inveja. Sentou-se numa cadeira virada para o sol e de costas para humanidade ali presente. Assim ficou. Às vezes passava o filtro solar, sempre de costas para a platéia, que se extasiava tamanha delicadeza com que escorregava o creme nas nádegas, nas coxas, nas saboneteiras. Ninguém ousou assediá-la, todos se achavam ridículos diante de tamanha beleza. Tomou um suco de abacaxi com hortelã. Abriu um livro e duas horas depois se levantou e se direcionou para escadaria e desapareceu.
À noite, o assunto era a deusa misteriosa. Depois de muita conversa, alguém perguntou por Edvirgem. "Edvirgem ficou no apartamento, lendo"-disse Dona Aurora, a mais velha da excursão. No outro dia a história se repete e a deusa retorna à área das piscinas, senta-se de costas para todos, se bronzeia, bebe seu suco e desaparece. Quem é ela? Em qual ao apartamento ela está? "Nem o gerente sabe! Eu perguntei a ele."- respondeu Edilson do Almoxarifado. A história se repete na manhã de sábado.
Veio a noite e o Forró do Sábado de Aleluia também. Todos no salão. Quem aparece como numa mágica? Ela! Belíssima! Com um vestido colorido com um palmo acima dos joelhos, uma flor nos cabelos e pra surpresa de todos, foi em direção a mesa dos servidores da Secretaria da Educação.
-Boa noite, Seu Osvaldo! Boa noite, seu Chico! Boa noite, seu Paulo! Boa noite, seu Edilson! Boa noite, seu Mauro!
Parece que é Edvirgem- Todos pensaram- novamente pálidos de espanto.
-Vocês não estão me reconhecendo? Sou a Edvirgem, a Virginha como todos vocês me chamam!
Todos mudos. Quase retardados.
-Com licença, vou dançar!- Virou-se pra pista enquanto todos olhavam o seu andar esfuziante e rebolante como uma potranca livre no campo. Passa-se alguns minutos, ei-la pendurada nos beiços de um loiro. Meia hora depois, dançando enroscada nas pernas de um moreno que se contorcia todo. Outro tempo igual, ela mordendo os lábios de um boyzinho que passava a mão abaixo dos seus quadris enquanto ela parecia deliciar-se com a audácia do moleque. Fim de festa. Edvirgem chega bem perto dos colegas de trabalho e decretou:
-Seus incompetentes! Seus Brochas!
Segunda-feira na repartição. Dona Edvirgem, com seu vestido batendo abaixo dos joelhos, de coque, óculos fundo de garrafa- agora, ex-Virginha- foi a última a entrar na sala. Silêncio total. E Edvirgem:
-Bom Dia!
Silêncio absoluto. Silêncio absoluto. Absoluto.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010


A bela Heloisa

Abelardo e Heloisa


Por Tadeu Nascimento





Heloísa estava toda-toda orgulhosa de si: acabara de receber o seu diploma de odontóloga. Vinte e três anos, loira, olhos verdeados, bunda empinada e sol-tei-ri-nha da silva. Os pais vivem no interior e ela não mais reside em pensionato, mudou-se para um apartamento alugado de dois quartos em setor nobre da cidade. Único probleminha era acertar no trabalho. Trabalhar em uma clínica odontológica ou associar-se a um dentista já estabelecido, com clientela, dividindo o lucro até conseguir comprar o seu consultório. Aí sim, tudo estaria perfeito.

Quis o destino que Heloísa conhecesse Dr. Abelardo Prata. Profissional com 30 anos de experiência, professor em faculdade, estaria interessado em ceder um turno, no seu consultório, a outro profissional. Divorciado, com idade rompendo o “meio dia para tarde” era especialista em tratamento amoroso e coisas afins em pós-balzaquianas convictas e conscientes. Sabia que não tinha mais habilidade comunicativa com as mulheres cheias de brilho da juventude, embora tivesse a ilusão de que poderia disputar com qualquer rapaz de 20 anos. A questão é a aparência de sessentão que não ajuda. Sem chance. Restava-lhe trafegar nos terrenos um pouco mais acidentados das rugas, lombadas e planícies longas e sem curvas das mulheres de 50.

Para Heloísa o trabalho se encaixou bem. Para Abelardo não era bem assim. A graciosidade da nova sócia estava lhe tirando o sono. Aquela pele rosada, a boca com um batom também cor de rosa, contrastando com um sorriso imensamente branco, a blusinha branca, a calça também branca, transparecendo a minúscula calcinha angelicamente branca. Tudo fincado nas sandálias de salto 8 cm também brancas que sustentavam dois pesinhos tamanho 36, com unhas perfeitamente pintadas em tom rosa. Uma combinação celestial. Seria um anjo de férias trabalhando em sua companhia, ou seria o capeta desafiando a sua libido?

Os dias se passam, mas a fixação de Abelardo por Heloísa não passa. E aumenta a cada dia. O máximo foi conseguir levá-la para almoçar num restaurante “por quilo” e após três meses, tomar um chopinho no bar mais badalado da cidade. O cérebro de testosterona de Abelardo arquitetava: era preciso urgentemente levar Heloísa para cama! Abelardo virava a noite rolando na sua king size pensando em Heloísa. Ela, nem tium. Quando ele insinuava alguma coisa relacionada a sexo, ela escorregava que nem enguia.

Certo dia foi trocar idéia com Renatinho, seu sobrinho, um mala de primeira grandeza: pediu-lhe a receita de como levar Heloísa pra sua cama king size com lençol branco de 300 fios de algodão egípcio legítimo, cheirando a alfazema, sob a meia luz de um abajur sobre o criado mudo.

-Simples, tio: leve ela a um barzinho ou choparia e dê a ela duas margaritas e uns três chopes! Ela vai gostar muito e sem perceber, vai levantar vôo! Depois me conta! A mistura é fatal! Ela vai subir que nem sputinik! Vai sair dali tontinha, querendo colo! Mas, nem pense em levá-la pra casa dela, parta direto pra sua king size! É batata!

Não é que o malandro acertou! Às duras penas, Abelardo levou Heloísa, num fim de tarde de uma sexta-feira, a uma choparia. Fez o que o professor de bico-doce ensinou: Duas margaritas e três chopes. A cabeça de Heloisa começou a rodar e Abelardo, bom aluno, levou a presa para a king. Tudo aconteceu com o Don Juan da última decadência queria.

Quando no outro dia, Heloisa acordou, se deparou num quarto que nunca vira, uma cama que nunca se deitou, nua e tendo ao seu lado um homem com quem nunca dormiu, além do mais, o seu sócio, a última pessoa do mundo com quem dormiria. Queria morrer! Que latada! Aos poucos foi se lembrando da noite anterior e viu que caíra numa armadilha. O ódio ferveu-lhe no sangue!

Abelardo foi acordado à tapas:

- O que você fez comigo, seu filadaputa? Quando meu pai souber o que você fez comigo você estará perdido! No mínimo mandará te capar, seu infeliz!

Abelardo, já acordado, em segundos viu em que gelada entrou. Lembrou de um outro Abelardo que- por fazer amor com uma outra Heloisa, em Paris, no século XII- teve seu pênis cortado no toco! Que sina tem os Abelardo, pensou o garanhão pós moderno. Na segunda-feira não foi trabalhar, apenas deixou uma carta para Heloisa, dizendo que estava se aposentando e mudando de país. Possivelmente para o Iraque ou Afeganistão, onde correria menos perigo. Talvez tornasse membro da Al-Qaeda ou do Talibã. Difícil será tirar burka de Samira, mas Salim Abelardo dá um jeito! Salamalek!

Com a inteligência feminina não se brinca! Doutora Heloisa, com seu sorriso cor de rosa, agora dona de seu próprio negócio, mora numa cobertura e é facilmente encontrada nos fins de semana nos melhores bares da cidade, apreciando uma, duas margaritas. Alá seja louvado! Salamalek!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Mariana antes de ir ao banco


Mariana e o papagaio


Por Tadeu Nascimento


Quando se casou com José Arnaldo, Mariana era magrinha, magrinha. Cinco anos de vida sob o mesmo teto, Mariana passou da condição de vareta para mulherão. Cinturinha fina e uma traseira abençoada. Por onde passava não havia homem na qualidade de macho que não virava o pescoço em movimento de meia rotação. Zé Arnaldo, no entanto, continuou com o mesmo corpo atlético de solteiro que preservava às custas do futebol de salão às terças, quintas e domingo. Metido a garanhão da periferia, suava sua musculatura – a bem da verdade- nas terças e quintas nos lençóis dos motéis perto do ginásio de esporte que fica a uma quadra do trevo da cidade, onde quase ninguém poderia dizer se ele de fato estava ali a correr atrás de uma bola.

Em casa vivia um casamento conflitante e desgastante, pois não aceitava que homem algum desse uma olhadela sequer, mesmo que sutil, no andado esfuziante de Mariana. Com receio de perdê-la, Arnaldo começou a implicar com a consorte:

- Você precisa emagrecer! Você está ficando redonda!

Chamar uma mulher de gorda é a maior das ofensas! Chamá-la de horrorosa, preguiçosa, chata ela suporta e até releva, mas uma pequena insinuação- por mais carinhosa ou delicada que seja- que a lembre que ganhou cinco quilinhos nos últimos dois anos... Pronto, está declarada a terceira guerra mundial! Fecha o semblante, arma o bico, fica de mal, quando não cai em prantos. E à noite nem tente cutucá-la com intenções genéricas ou específicas porque você pode ouvir coisas do arco da bruxa:

- O que você quer com uma gorda? Vai atrás de Gisele Bundchen, quem sabe ela abra aquelas pernas de bambu pra você!

Voltemos ao consórcio de Arnaldo Mariana. Todos os dias, Arnaldo humilhava a esposa:

-Você está virando um torresmo de tão gorda!

Na verdade, Mariana não estava gorda, aliás havia emagrecido um quilo e meio na última quinzena. A questão residia no seguinte: por onde Mariana fosse, todo macho parava para apreciar o excesso de gostosura que ela carregava no corpo. Com receio de ser apelidado de corno, Arnaldo queria que Mariana voltasse ao que era: magricela e sem o menor atrativo. Pois já bastava o papagaio do vizinho que ficava sobre o muro o dia inteiro a chamar Mariana:

-Gostosa! Ô Gostooosa! Curupaco! Ô Gostooosa!

E todas as vezes que Arnaldo punha seus pés de garanhão no quintal, o louro de imediato o insultava:

-Corno! Ô, Cooorno! Ô Cooorno! Curupaco!

Mariana trabalhava com o marido no supermercado de ambos. Era ela quem fazia os serviços de banco como pagar duplicata, fazer depósitos, enquanto Arnaldo descarregava mercadorias, fazia as compras etc. Para se chegar ao Banco do Brasil, Mariana passava na calçada das Casas Pernambucanas, onde um vendedor sempre lhe fazia um gracejo:

- Gostooosa!

Ela- que era tão ofendida pelo marido- pensava: posso ser gorda para o babaca do Arnaldo, mas tem gente que gosta muito do meu corpão!

Todos os dias o vendedor estava a postos, ali, na espera, para adjetivá-la com nomes bem ao contrário dos que saiam da boca de Arnaldo. De repente se deu conta que necessitava daqueles elogios. Questão de auto estima. Uma noite chegou a sonhar com o vendedor na sua cama chamando-a de “Gostooosa!” Mas a dura realidade era outra: quem dormia ao seu lado era quem a destratava: “Gorda!”, “Torresmo!” “Redonda!”

Na hora do almoço, Arnaldo volta à carga:

- Está caindo!

- O que está caindo, Arnaldo?

- Sua barriga... pra fora calça!- disse Arnaldo dando uma gargalhada sarcástica.

Mariana soltou a frigideira no fogão, se dispôs a chorar e escafedeu-se para o quarto.

Uma hora depois, já no trabalho, pegou as duplicatas, o dinheiro e um talão de cheques e disse:

- Vou fazer serviço de banco! E acho que vou demorar!

A caminho do banco, se via ele, o vendedor de panos. Então disse pra si mesma: “É agora!” O vendedor já ia repetir o mesmo elogio quando Mariana tomou-lhe a frente:

- Você me acha mesmo gostosa?

O vendedor surpreso, gaguejou:

- A Se-nho-ra-me-des-cul-pe...

- Acha ou não acha?- deu ela um xeque-mate no vendedor.

-A-Acho!..

- Então, às seis em ponto, eu passo aqui com o meu carro, para você comprovar se me acha mesmo gostosa!- arrematou Mariana.

Mariana chegou em casa às onze da noite. Quando Arnaldo quis questionar onde ela estava, ela fulminou:

- Estava num motel com um rapaz que me acha gostosa!

Silêncio sepulcral. Arnaldo perplexo, mudo. Foi pra sala pegou uma dose de uísque, sentou-se no sofá e ali ficou.

No ouro dia, quando Arnaldo pôs os seus pés de machão no quintal, ouviu do papagaio do vizinho:

- Eu não te disse, seu corno! Eu não te disse, seu corno! Curupaco! Ô Coooorno! Ô Cooorno! Curupaco.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010



A Revolução Francesa



A beleza histórica da Revolução Francesa


Por Tadeu Nascimento

Em 2001, o escritor e então conselheiro do TCE-GO Eurico Barbosa presenteou-me com a coleção “Os Grandes Processos da História”, 10 volumes, do francês Henri Robert. Trata-se de uma obra voltada quase que totalmente para a Revolução Francesa. Uma ótima sugestão para quem tem paixão por História. É interessante, não só pelos detalhes daqueles efervescentes dias, como também a herança de muitas das palavras criadas durante a Revolução, tais como assembléia, comitê, convenção, comício etc. Além de esquerdista e direitista, qualificações que vieram da “Convenção”, onde julgavam os traidores da pátria. Sentar-se à direita da mesa diretora era se manifestar favoráveis a nobreza, mais precisamente à corte de Luis XVI e à esquerda, os defensores do povo. O termo “descamisados” usado por Fernando Collor na sua campanha a presidente não passa de um plágio fajuto do termo “sans-culottes” (sem calções- roupas próprias para o frio), do povo francês. O termo “pés descalços” usado por Evita Peron, na década de 50, também é plágio do mesmo termo sans-culottes, gesto que a tornou a mulher mais famosa da história da Argentina. Mais ainda interessantes foram os detalhes que ocorreram naqueles 10 anos da Revolução.

As causas da Revolução Francesa: primeiramente a construção do Palácio de Versalles por Luis XIV que durou 40 anos que consumiu os poucos recursos dos franceses através de impostos escorchantes. Depois, A Guerra dos 7 anos com Inglaterra e por último, o envio e manutenção de tropas francesas comandadas por Lafayette na Guerra da Independência dos Estados Unidos da América contra os ingleses. Não vou aqui descrever fatos mais do que sabidos. Tratarei aqui de detalhes e/ou curiosidades extraídas desta e de outras obras que quase todos os historiadores deixaram de lado.

A esconjurada Maria Antonieta (filha de Maria Tereza da Áustria) ainda criança franzina se tornou-se rainha aos 16 anos, caiu em desgraça por demorar dar um filho a Luiz Capeto (Luis XVI), que tinha fimose, o que impedia a conjunção carnal. A consumação só foi possível depois que um médico austríaco M. Lassone cortou-lhe “os freios”. Mas já era tarde, as cassandras do poder já infernizaram a vida de Maria Antonieta. Isto está em “Le Cabinet Secret de L’Historie” de Dr. Cabanés. A versão popular de que ela teria dito: “Marido, o que as pessoas do povo tanto quer? E o rei respondeu: “Querem pão, mulher!” E a rainha: “Então, dê-lhes pão!” E o rei: “Mas não tem pão, Maria!”e a rainha: “Ah, que eles comam brioches!” Trata-se apenas de uma lenda; uma acusação vil a quem não tinha culpa da miséria que o povo vivia naquele histórico ano de 1789.

Quase todas as sessões da Assembléia Nacional, o revolucionário Marat (Jean-Paul Marat), médico franco-suíço que se revelou um grande jornalista com seu jornal L’Ami du Peuple (O Amigo do Povo) era exposto a julgamento e se condenado, a pena seria capital e para o dia seguinte, ou seja a execução na guilhotina (instrumento inventado, pasmem, por um médico, Dr. Guilhotin). Acabava que, quem o acusava era quem parava no patíbulo, nas mãos do carrasco. Por força do destino, Marat foi assassinado por uma mulher que acreditava que o revolucionário era o culpado de tudo. Chamava-se Charlotte Corday. Marat estava se lavando em uma banheira de madeira. O jornalista precisa se banhar duas vezes ao dia em produtos químicos para se curar das feridas adquiridas nas ruas subterrâneas de Paris quando fugia da polícia do rei. Charlote pede para falar com revolucionário pois viera fazer uma denúncia. Marat autorizou sua entrada no quarto. Ela então pediu para lhe falar junto aos ouvidos, para que ninguém os ouvisse. Inocente, Marat permitiu que se aproximasse. Quando ela chegou perto, cravou-lhe um punhal no coração. Charlotte Corday logo depois foi decapitada. Marat, grande debatedor, atraia todas acusações para si, o que tirava do foco de acusações os deputados líderes Danton, Demolins, Robespierre. Mas com a sua morte todos as lideranças perderam suas cabeças. Era a Revolução engolindo os próprios filhos.

La Marseillaise. Composta pelo capitão Claude Rouget de Lisle inicialmente com o nome de Canto de Guerra para o Exército do Reno que enaltecia a Revolução. A canção fez tanto sucesso, pois deu brios à tropa que soou, emocionou. Espalharam então muitas cópias que acabaram por chegar a Marselha. Dali os soldados marcharam cantando essa canção poderosa e a França fez coro e o povo, cantando, invadiu o palácio das Tulherias. Logo a canção passou a se chamar “A Marselhesa” e se tornou o hino nacional francês em 1795. Ironicamente Rouget de Lisle não era partidário da Revolução, pelo contrário, era fiel à coroa. Sua mãe o criticou duramente por sua canção ter sido estímulo à Revolução. Foi preso e só não perdeu a cabeça porque Robespierre a perdeu antes em 09 Termidor, ano III (27 de junho de 1794). Rouget morreu na miséria em 1836, com 76 anos. Quando ele dizia que era o autor de “A Marselhesa” riam na sua cara. O leitor que nunca ouviu “A Marselhesa”, sugiro que a ouça na voz de Edith Piaf. Vale à pena.

Danton, o deputado, o grande tribuno, o titã de aço- como descreve Henri Robert- quando acusado de traidor, no interrogatório perguntaram-lhe a sua idade:

-Trinta e três anos, a idade do sans-culotte Jesus Cristo, a idade crítica para os patriotas!

-Nome e endereço!- cobrou o inquisidor.

-Chamam-me Danton. Revolucionário, representante do povo. Minha residência? Dentro em breve, o nada! Depois o Panteão da História!

Condenado a morte, por tentar restabelecer a monarquia, o que não era verdade, no patíbulo, minutos antes de ser executado, juntamente com Camilo Demolins e Heraut de Séchelles. Danton, dono de uma cabeça imensa, cabeça de leão, com uma voz poderosíssima que se fazia ouvir por três quadras, quis abraçar Heraut de Séchelles, que devia ir antes dele. O carrasco impediu-o. Danton então, esbravejou:

-Imbecil! Impedirás que as nossas cabeças se beijem no cesto?

A Revolução Francesa foi um grande salto da humanidade na sua própria evolução.

O historiador inglês Eric Hobsbawm em sua obra “Ecos da Marselhesa” defende que felizmente a Revolução Francesa ainda está viva, pois a Liberdade, Igualdade e Fraternidade e os valores da razão e do Iluminismo são mais necessários do que nunca, na medida em que o irracionalismo, a região fundamentalista, a barbárie, estão mais uma vez avançando sobre nós.

Ao amigo Eurico Barbosa, minha gratidão.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009


A imagem diz tudo

A arte de ser cobaia



Por Tadeu Nascimento



A verdade de ontem pode ser um grande engano, amanhã. Leio sobre o Distúrbio de Déficit de Atenção (DDA). A pessoa “portadora” deste distúrbio tem dificuldades para se concentrar- pois é dominada pela distração-, é desorganizada, tem dificuldades de aprender com erros passados, carece de previsão lógica, tem alterações de humor mais do que as pessoas, digamos normais (até porque, “de perto”, ninguém é normal). E quanto mais se exige dela mais atenção, mais sua condição piora. Trata-se de uma disfunção neurológica no córtex pré-frontal que impede a pessoa de concentrar, cuja causa é a deficiência de uma substância (neurotransmissor) chamada dopamina. Antigamente estas pessoas eram compreendidas como lerdas, preguiçosas, e até desparafusadas. E que caiam no choro quando gritassem com ela, pois não sabem viver sob pressão. Hoje, além de medicamentos como a “tirosina” e o “gingko biloba” que ajudam a aumentar o fluxo de dopamina, os cientistas descobriram que crianças portadoras de DDA que ouviam Mozart, mais precisamente o concerto para piano nº 21, “O Casamento de Fígaro” e o concerto para flauta nº 2, “Don Giovanni” ajustavam suas atividades cerebrais ao ritmo dos compassos das músicas que resultavam numa melhora de concentração, controle de humor, diminuição de impulsividade e aumento de habilidade na convivência social. Portanto, gritar, dar bronca não ajudam, só prejudicam. Estas descobertas foram publicadas no Internacional Journal of Arts de Medicine em 1995.

Verdades de ontem. Há poucas décadas, era incontestável que o doente deveria se internar num hospital para se curar e muito das vezes sem receber visitas. A medicina moderna entende que o paciente deve ficar o mínimo de tempo em uma maca hospitalar. Não só pelo risco de infecção, mas também pelo ambiente deprimente, próprio de casas de saúde. O afeto e o amor dos familiares são remédios importantíssimos para ajudar na recuperação desses pacientes.

O caso Viagra. A princípio, era vendido somente sob prescrição médica. A história é sempre a mesma: certos pacientes hipertensos eram medicados com substâncias a base de nitrato. Geralmente pacientes com mais de 60 anos. De repente estes cidadãos amanheciam contentes e com o ego do tamanho de uma jaca, cantando “Eu vou pra Maracangalha, eu vou de chapéu de palha, eu vou...” Estes pacientes confidenciavam aos seus médicos que estavam muito felizes , que faziam- ou que queriam fazer- coisas que até se ruborizaria. Os médicos começaram a invejar a condição erótica de seus pacientes. “Ora, se eu, que sou mais novo, estou rateando, porque será que estes velhinhos estão literalmente matando à pau?” Algo está errado! Ou melhor, está certíssimo! Precisamos pesquisar!” Pouco tempo depois lançaram ao mercado o Viagra e, em seguida, os seus similares. Todos com tarja preta, isto é, vendidos somente sob prescrição médica, pois havia o risco de mal súbito por associarem o Viagra com outros remédios para hipertensos. Mais uma surpresinha: os pacientes usuários do Viagra melhoraram suas condições coronarianas! Acredita-se que a causa é proveniente da auto estima. Logo os cientistas baniram a tarja preta e liberaram o Viagra, que ao meu ver, foi a maior invenção ou descoberta- depende do ponto de vista- depois da roda. Aliás hoje a roda gira mais redonda do que nunca, graças ao Viagra! Em agosto de 2010 cessa os direitos de exclusividade de fabricação do medicamento pela Pfizer. A partir de então, por força da concorrência, o Viagra custará ao consumidor o preço de um Dorflex.

Ser cobaia é mais importante que a vã filosofia e a psicologia imaginam. Como é que os cientistas descobriram que um cálice de vinho, em jejum, diariamente, faz bem para o coração? Ora, só se for pelo fato de um dos seus pacientes ter sido alcoólatra. Quem se arvoraria beber vinho de manhã, tirante o vigário na missa das sete? Antigamente não tinha perdão para qualquer bebida alcoólica. O álcool era o vilão, o demônio. Demoraram um tempão, mas enxergaram o lado benéfico da hidroxila. Então exaltaram o vinho e logo depois a boa nova da defesa da tese de que a cerveja faz um bem danado ao coração. Daqui a pouco, hão de defender uma caipirinha regularmente, pois ela ajuda o cidadão romper a casa dos 100 anos. Viva Oscar Niemayer que fuma e bebe e que completou 102 anos no dia 16 de dezembro!

O que mais mata, caro leitor, é o estresse, é o deixar de sonhar, é a incapacidade para amar e de ser amado. Feliz Natal.