terça-feira, 22 de setembro de 2009

Meu prato preferido: Os Beatles.

Por Tadeu Nascimento

É verdade, o meu prato preferido são os Beatles. Sem querer comparar, mas ninguém é melhor do que eles. Enquanto juntos, ou carreiras solo. Eles fazem muito bem a mim (e a milhões de seres pensantes das últimas 4 décadas). De todas as formas. Beatles em qualquer versão. Na boca de qualquer intérprete, (ou simplesmente instrumental). De preferência na versão deles mesmos. Mas é ótimo também na versão bossa nova de Sérgio Mendes Brasil’66 (“Fool on the Hill” e “Day Tripper”). Pra quem não conhece é uma grande pedida. Eles, os Beatles, interpretados pela orquestra de Paul Mauriat (no Cine Bagdá, em Rio Verde das Abóboras, antes de abrirem as cortinas ouvia-se “Here, there and everywhere” e “In my life” todas as noites. Joe Cocker no festival Woodstock em 1969, onde arrasou deixando para sempre a sua voz com a “With a litle help for my friend”. Sarah Vaughan cantando Beatles é o supra sumo da beleza. É ótimo na voz de Elvis, de Tony Bennety, Johnny Mathis, Elton John e de Barbra Straisand. “Something” na voz de Andy Willians é muito bom. Até Sinatra gravou Beatles (“Yesterday”). A sinfônica de Londres executando as músicas de Lennon/ McCartney e Harrison é histórico. Na interpretação de Eduardo Lages, maestro da orquestra de Roberto Carlos (“And I love her”). Na boca de Caetano Veloso cantando “Eleanor Rigby”, e “Help” tem cores de brasilidade. Nas infantis traduções feitas para o conjunto Renato e seus Blues Caps e na voz manhosa e cavernosa do antigo Ronnie Von. Beatles em trilha sonora de cinema: O filme “Across of universe” traz o excelente Jim Sturgess cantando a música título do filme e ainda “Girl” e a maravilhosa “All is need is love”. “Simplesmente amor” (com o ator brasileiro Rodrigo Santoro) com a mesma “All is need is love”na voz de um intérprete negro que não sei o nome. Paul McCartney, ex-Beatle, em 007: Viva e deixe morrer. Beatles para crianças na versão Caixinha de músicas é sublime, maravilhoso. O acervo musical deste grupo é de tal qualidade que, imagina o leitor, gravaram as mais belas melodias dos Beatles na versão orquestrada em caixinha de música para bebês! Fica claro que a rebeldia nas letras não implicam na beleza das melodias que encantam todo mundo. Realmente “ Beatles for babies”- em caixinha de música é lindíssimo (compre e ouça!) Meu velho pai que me censurava por eu rodar na minha eletrola os Beatles, o dia inteiro, todos os dias. Mas num belo dia ele chegou com um LP dizendo: isto é melhor do que estas coisas que você ouve! Músicas orquestradas! Só que quase todas músicas eram dos Beatles. Facilmente o convenci que Beatles eram o máximo. É claro que MPB é ótima. Ary Barroso, Dorival Caymmi, Noel, Jobim, Vinicius, Chico, Lupercínio, Caetano, Cazuza agradam qualquer cidadão de bom gosto. São muito bons também Rolling Stones, Queen, Yes, The Who, Led Zeppelin, Pink Floyd, U2, Cat Stevens, Rod Stewart, Stevie Wonder. Aliás, todos estes astros internacionais sofreram influências dos Beatles.

Quem gosta de Beethoven, Bach, Tchaicovsk há de gostar também dos Beatles, pois são revolucionários tanto quanto Beethoven, por exemplo. Aliás, são os músicos mais importantes depois de Beethoven. Tente gravar uma seleção de músicas orquestradas que contenha as músicas dos Beatles juntamente com os clássicos da música universal. “Verá”, ou melhor, ouvirá o leitor, que existe uma continuação, uma simbiose, uma convivência harmônica entre os clássicos de duzentos anos (ou mais) com estes quatro rebeldes cabeludos. Vai demorar muitas décadas ou séculos para surgir um fenômeno igual a este quarteto de Liverpool. Restará aos historiadores, no futuro, confirmarem. Não existe cidade de porte médio que não tenha ao menos uma banda que imite os Beatles.

Em 01 de junho de 1967 os Beatles diziam adeus à beatlemania. O mundo levou um choque. Acusaram Yoko Ono de ser a causa da discórdia, mas não era verdade. Havia chegado a hora. Cada qual com a sua “carreira solo”. Continuaram a fabricar maravilhas. O mundo entendia que os quatro juntos fariam coisas melhores. O mundo os queria de volta. Mas a diáspora fora para sempre. No entanto todos os dias surgiam notícias que eles se reconciliaram. Ledo engano. Anos depois, com o surgimento do Queen, cujo álbum não trazia a fotografia do grupo, diziam que eram os Beatles (camuflados) que haviam voltados, tamanha aparência de estilo. Logo John Lennon surgiria com “Imagine”; “Woman”, Paul McCartney com “Tomorrow”; “My Love”, George Harrison com “My sweet lord” e “Bangladesh” e Ringo Star com “I don´t come easy”.

Os Beatles são a leitura de uma época em que a humanidade dizia um basta aos velhos costumes, às guerras, a intolerância racial e a falsa moralidade ocidental com letras e melodias tão belas que não encaixariam só às circunstâncias da época mas para todo o sempre. John Lennon falava de amor com tal propriedade e simplicidade que seus versos grudaram nos ouvidos de uma juventude que hoje navega com seus 50, 60 anos. Os Beatles mudaram para sempre a humanidade.

Não é difícil ver e ouvir os Beatles, basta buscar na internet e clicar no youtube.com e verá e curtirá (curtir está no Aurélio com o sentido aqui intencionado) todo o acervo da banda. Vale a pena. Beatles 4 ever (Beatles para sempre).

PROCURAR NO YOUTUBE:The Beatles: Hey Jude (Paul MacCartiney cantando)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009














Chico versus Caetano

Por Tadeu Nascimento

O brasileiro adora comparações. Nasce, cresce e morre comparando. Fulano é melhor que Cicrano, Beltrano é dez vezes melhor que Fulano. Outro dia, um cronista escreveu neste DM que “Caetano é dez vezes melhor que o Chico”. Na verdade o escriba está em busca de polêmica. Baseado em que, tal afirmativa? O jornalista tem medidor de artista, é? Em que pese o respeito que tenho pelo cronista, acho irrelevante tal paralelo. Desde que eu era menino pequeno lá no chão das Abóboras (Abóboras com “A” maiúsculo, caro revisor) ouço esse tipo de conversa: Pelé é melhor que Garrincha (mas Garrincha foi o artilheiro e o melhor jogador da Copa de 1962 no Chile); Cassius Clay é dez vezes melhor que Joe Frazier (só que Clay não leva vantagem sobre Frazier: perdeu uma beijando a lona e ganhou outra por pontos); John Lennon é melhor compositor que Paul McCartney; (Lennon morreu e Paul ainda pode compor maravilhas). Cada um com seu estilo; cada um na sua época. Pergunta-se: quando Chico e Caetano fizeram o famoso show no teatro Castro Alves, em Salvador, (1975) deu empate, foi? Ou Caetano ganhou nos pênaltis? Então o programa Chico & Caetano da Globo por acaso foi resolvido no tapetão ou foi tudo marmelada? Hoje, menino de cabelos grisalhos aqui em Goiânia continuo achando inócuas e infrutíferas tais comparações. De que adiantou a polêmica sobre quem era o melhor: Ayrton Senna ou Nelson Piquet? Ambos foram tri campeões da Fórmula 1 e fim. Daqui a cem anos- se ainda existir F1- pouco importará quem foi o melhor, até porque ambos venceram igualmente. Quase ninguém sabe quem foi Juan Manuel Fangio, 5 vezes campeão da F1 na década de 50.

Um parêntese. Desde o tempo em que Jesus a falava aos seus discípulos “que os últimos serão os primeiros” deveríamos ter ouvido o mestre e nos tornado mais modestos. Na verdade, Ele queria nos dizer para que sejamos os do meio, medianos- porque os do meio sempre serão os do meio!- Portanto sejamos os do meio. Que mania de querer ser sempre o melhor!? Poxa, quem vai torcer para o mais-ou-menos?

O tempo passou, mas até hoje... Zico ou Sócrates? Luciano Pavarotti ou Plácido Domingo? Maradona ou Pelé? Os esquerdistas: Lula ou Brizola? Os direitistas: Collor ou Maluf? Os da pedra lascada: Emilinha ou Marlene? Os alienados: Xuxa ou Ana Maria Braga (Deus me livre!). Os tantãns: Faustão ou Gugu? O tempo passou, as polêmicas continuam e- no entanto- nada muda na vida de seu ninguém.

Voltemos ao Caetano e ao Chico. Ambos gênios. Todavia querer enaltecer um em detrimento do outro é forçar demais. Não faria, não o farei. Apenas acredito que a modéstia de Chico choca em cheio com a vaidade de Caetano. O baiano acha que reinventou a roda ao descobrir que a polêmica é o meio e a vaidade, o fim. Quem não se lembra de Caetano no Festival Abertura da Globo, 1975, vestindo um bustiê (ninguém entendeu: com os seios tão pequenininhos...). Agora, um pouco de franqueza: o baiano tem feito discos (CDs) horríveis. O seu álbum Cê é de uma tolice sem igual: as melodias, zero. As letras medíocres feitas com intenção clara de gerar polêmicas, como na composição “Homem”: “Eu não tenho inveja da sua lactação e sim de seus orgasmos múltiplos” (êpa! o que quê é isto?! o cara mudou de sexo?!) é de lascar! Em outras gravações: As banais “Leãozinho”, “A luz de Tieta” com seu refrão “Êta, êta, êta é a luz de Tieta (rima que chega ao cúmulo da imbecilidade! Isto não se vê na obra do Chico); “Haiti” é quase um hap (sem melodia, quase monocórdia) e a terrível “Um tapinha não dói” -de um descompositor desconhecido- que é o fim do fim do caos. Aliás, ultimamente, Caetano só faz sucesso com composições dos outros: “Sozinho” do Peninha e “Você não me ensinou a te esquecer” de Fernando Mendes. Aliás, estas músicas são tudo ao contrário do novo e ainda carregadas de tintas da breguisse. Pra quem acha que Chico só faz letras com qualidade (o cronista disse que Chico é medíocre musicalmente) é bom lembrar que ele ganhou o Festival da Record com a “Banda”, de autoria só dele. – coisa que Caetano nunca conseguiu, pelo menos em festival de renome como o da Record. “Carolina” é só dele; assim como são as letras e músicas de “Quem te viu, quem te vê”; “Olê, Olá”; “Roda Viva”; “Noite dos mascarados”; “Folhetim” todas de ótima musicalidade, além de outras centenas. Daqui a cem anos- podem ter certeza- que a “Banda” e “Folhetim” serão tocadas em quaisquer FM da vida- gravadas por qualquer pop star- ao contrário de Haiti, “Tieta” e “Leãozinho” que já não toca nem em Santo Amaro da Purificação, cidade de Caê. Mas tem gente que não vive sem polemizar. Tal qual Caetano. Viver de encrenca (alimentar a vaidade). Ser rebelde. Negar a genialidade do outro (apesar de Caetano babar pelo Chico). Por acaso gostar do Chico é ser de esquerda? Tenho um conhecido canhoto e comunista que adora Milionário e Zé Rico e conheço milhares direitistas que amam Bruno e Marrone. E daí? Por que o cronista underground não os compara? Underground é aquele que acha bonito ser feio. Melhor então polemizar, ser rebelde, ser do contra, usar brinquinhos, se tatuar, parecer-se underground. Em suma: chocar a sociedade. O aluno aprendeu direitinho com Caetano. Quando o sábio aponta a lua o míope enxerga o dedo. Caro leitor, se você fosse professor (mesmo professor de música) você discutiria com seus alunos a obra de Chico ou a do Caetano?

Numa entrevista com o Bussunda, do Casseta e Planeta, o repórter perguntou:

-Vasco ou Flamengo?

Respondeu o humorista: Flamengo.

-Senna ou Piquet?

-Sou hétero.

-Uísque ou cerveja?

-Cerveja.

-Romário ou Ronaldo (Fenômeno)?

-Já disse, sou hétero!

Também sou como o Bussunda (aliás, me simpatizo muito com este nome!), não me coloquem -para escolher- entre o Dunga e Arnold Schwarzenegger para governador de Goiasfórnia (onde tem cada figura...). Sou hétero de nascença e de morrença. Nesta e nas outras encarnações. Amém.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Urubu branco: deve ser mascote do Fluminense, olha o peador verde na perna dele.




SE O URUBU NÃO FOSSE PRETO

Por Tadeu Nascimento

Se assim não fosse, como seria? A história poderia ser diferente, ou não? Se não existisse Pedro Ludovico, o que seria de Goiás? Se Juscelino continuasse a sua vida de médico e se não ingressasse na política, o que seria do Brasil? Antes disso, o que seria do Brasil se não fosse ele descoberto pelos portugueses? E o que seria dos portugueses se não descobrissem o Brasil? O que seria da ditadura de 64 se não existissem os militares? Se Tancredo não morresse antes da posse e fosse presidente, o que seria do Brasil? O que seria do Sarney? O que seria de Brasília se não existisse Goiás? Se não derrubassem o Collor, o que seria de Fernando Henrique? Se os juízes não roubassem do Botafogo- por vários anos- o que seria do Flamengo? O que aconteceria, se o juiz José Roberto Wright na semi-final da Libertadores não tivesse roubado escandalosamente do Atlético Mineiro a favor do Flamengo no Serra Dourada, Goiânia, em 1981? Se Armando Marques, juiz, mais conhecido como Elizabeth Taylor do futebol brasileiro, não cometesse a maior gafe da história do nosso futebol, ao impedir a cobrança do último pênalti do Santos contra a Portuguesa, em 1973? O que seria se a imprensa com o “já ganhou” não mexesse com os brios dos uruguaios na Copa de 50 em pleno Maracanã? Se não existisse John Lennon, o que seria dos Beatles? Do Queen se não existisse Fred Mercury? Se não existisse os Bush, pai e filho, o que seria do Bin Laden? (Bush pai, na década de 80 foi sócio do pai do Osama Bin Laden e patrocinou o mesmo Osama com armas e dinheiro na guerra do Afeganistão contra a Rússia e depois se virou contra o terrorista.)

O que seria da Luciana Gimenez se não existisse Mick Jagger? Da tristeza, se não existisse a alegria? O que seria do verde (principalmente da bandeira nacional), se não fosse o amarelo? O que seria do Clóvis sem a Zaira e vice-versa (meus pais)? O que seria do Tarzan sem a Jane? Do Dom Quixote, sem o Sancho Pança? Do Washington sem o Assis no Fluminense, campeão brasileiro em 85? Do Botafogo campeão brasileiro de 95, sem o artilheiro Túlio Maravilha? O que seria do Nion, se não existisse o Iris? O que seria do sul se não existisse o norte. Da vida, se não existisse a morte? O que seria da minha vida, sem a minha infância no Poço da Matinha do Córrego do Sapo em Rio Verde? Da minha juventude sem o Clube Rioverdense? Do pouco que eu sei sem o Ateneu Dom Bosco em Goiânia? O que seria do Daniel Dantas se não existisse Gilmar Mendes? O que seria do Faustão se não existisse os pobres de espírito? Do Roberto Justo sem os espíritos pobres? Do Big Brother, se todos brasileiros tivessem TV a cabo? Do Gugu Liberato se não existisse a idiotice?

O que seria de Romeu sem a Julieta? De Riobaldo sem Diadorim? De Xuxa, se um dia não namorasse Pelé? De Adriana Galisteu, sem a morte de Ayrton Senna? E o que seria de Pelé se não existisse a bola? De Garrincha se não existisse o drible? E do drible, se não existisse o Garrinha? De Vinicius, se não houvesse a paixão? De Chico Buarque, se não existisse genialidade? De Tom Jobim, se não houvesse o Rio de Janeiro? Da seleção Brasileira sem o Maracanã e vice-versa? Do pão sem a manteiga? Do vinho sem o queijo? O que seria do arroz com pequi, se não existisse Goiás? Da luz se não existissem os olhos? De Brasília se não existisse Goiás? Da Seleção Brasileira de 82 sem o Falcão? A de 70 sem o Jairzinho? Da história do Brasil sem Getúlio Vargas? De Noel sem o samba? Do samba sem o Noel? De Caymmi, sem o mar? De Bilac sem as estrelas- pálido de espanto? De Erasmo sem o Roberto? O que seriam dos “Detalhes” sem estar “Sentado à beira do caminho”? Da “Aquarela do Brasil sem Ary Barroso? De “Amélia que era mulher verdade” sem Mario Lago e Ataulfo Alves? O que seria de Dom Casmurro se não existisse Capitu? O que seria da Literatura Brasileira sem Machado de Assis? Da Capela Cistina sem Michelangelo? De Mona Lisa sem Da Vinci? Da arquitetura, sem Niemayer? O Que seria da “Gabriela, cravo e canela” se não existisse Sônia Braga? O que seria de “Troya” sem Homero? O que seria do “Poderoso Chefão” se não existisse Marlon Brando? O que seria de Casablanca, o filme, sem Humphrey Bogart? O que seria da canção “Smaile” se não houvesse Charles Chaplin?

O que seria do rico sem o pobre? Do sol sem a lua? Da praia sem o mar? Da calçada sem a rua e vice-versa? Das rosas sem o perfume (que exalam de ti- dez para o Cartola!). Do Rosa sem o “Grande sertão: veredas”? O que seria da Revolução Francesa sem Marat, Danton e Robespierre? Da “Marselhesa” (Allons enfaint de la patrie... ) se não houvesse a mesma Revolução Francesa? O que seria de “Guantanamera” sem as pobres da América? O que seria da América Latina sem Simon Bolivar e Che Guevara? Da Inconfidência Mineira, sem Tiradentes? De Tiradentes se não existisse Silvério dos Reis? O que seria de Jesus, se não existisse Judas?

Para o bem ou para o mal, as coisas são como são. É a evolução da vida. E como dizia o escritor Fernando Sabino: “Tudo dá certo no final; se não deu, é porque não chegou ao final”.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009








Daniel Dantas , o ator - Daniel Dantas, o banqueiro


Vende-se macumba semi-pronta

Por Tadeu Nascimento

Está no Google. Aliás, no Google encontra-se tudo. O cidadão anuncia a venda do seu produto como se fosse de um remédio para emagrecer. O interessado então passa um email (ou telefona) e faz o pedido. Deposita- via on line- o dinheiro na conta do vendedor. Exige que a encomenda chegue antes de sexta-feira. Imagino o que passa na cabeça do cliente internauta antes da compra: “Será que a galinha tem boa procedência? É de granja ou é caipira. “Exijo caipira”. Uma coisa é certa: a penosa tem que ser preta. Vem embalada a vácuo? Tem carimbo do CIF? Prazo de validade? Há de se observar, se não o santo pode refugar a oferenda e até reverter o feitiço contra o remetente. O pedido deve chegar numa caixa de isopor com a galinácea congelada. Via aérea. Como é semi- pronta, deve ser pré cozida. Depois, 5 minutos no microondas. A farofa, é de milho ou de mandioca? Melhor de milho. Macumba é coisa de africano, portanto de milho. Farofa de mandioca é produto industrial indígena. E a marafa? Deve chegar em embalagem própria. E tem que ter nome condizente com a cerimônia. Algo como ‘Espirro do demo’, ‘Sai capeta!’ ou ‘Xodó da encruzilhada.’ A qualidade pouco importa, desde que seja pinga, cachaça. Nunca ouvi falar em despacho com uísque ou com vodka. Só se o mandingueiro estiver na Inglaterra ou na Rússia. E por último o charuto. Deve ser daqueles baratos, porque senão a macumba ficará cara demais. E pelo que se sabe escravo não tinha dinheiro pra comprar charuto cubano.”

Razão desta crônica: a questão de homonímia. Pessoas com o mesmo nome e sobrenome. A dita pessoa que vende macumba semi pronta na internet tem simplesmente o seu nome igual ao meu: Tadeu Nascimento. Pior: tem dezenas de Tadeu Nascimento no Google: um apresentador de televisão de Fortaleza, que segundo internautas do mesmo Google, é um senhor estrábico com cara de ramister (espécie primo rico do rato). Um outro Tadeu Nascimento que garante que todo mundo no futuro, será gay. Eu hein? Vá de retro! Até lá, já morri! Outro Tadeu Nascimento é cinéfilo e tem um blog chamado “Comendo filmes”. Outro T.N. é fotógrafo; outro, advogado trabalhista. Ainda outro tem um blog chamado Diário de Bordo com o subtítulo “Porque os Corleones tinham vida pessoal”. Um T.N. é vereador pelo PV em Santa Catarina; um outro, dono do jornal Ampulheta (Isto é nome de jornal?- que nome horrível!) no Ceará. Há ainda, um locutor de rádio; um engenheiro; um vereador do PT de Fortaleza (coitado!); um escritor, também cearense, cujo único livro é “Maracanaú- eu te proponho”- editora do autor- preço: R$ 2,00 (isto mesmo, dois reaiszinhos- deve ser um best seler!) um capitão da polícia de Brasília; um ex-traficante carioca, agora convertido em evangélico pela Igreja Assembléia de Deus. Mas também tem um Tadeu Nascimento juiz federal (graças a Deus!).

É de se imaginar o constrangimento do ator de novelas da Rede Globo Daniel Dantas por ser homônimo do mala-banqueiro do Opportunity. Quantas vezes foi “confundido” o seu nome com o do mega-picareta? “O senhor poderia me arrumar um emprego no STF com seu amigo Gilmar Mendes?”- com certeza o ator ouviu este pedido. No guichê do banco: “O senhor que é o Daniel Dantas? Um minuto, preciso falar com o gerente!” Outras gozações: “O delegado Protógenes veio aqui na Globo pra te prender!” “Daniel, me dá uma oportunidade no seu Opportunity!” “Daniel você é aquele ator que trabalhou naquele filme “Satiagraha” do diretor Gilmar Mendes, patrocinado pelo STF?

Pouco tempo depois da morte da ator Rock Hudson- que morreu de AIDS-, um cidadão batizado Roquiudisson da Silva chegou no escritório modelo da Faculdade de Direito de Uberaba pedindo a um professor, pra que ele ajudasse a mudar na justiça o seu nome de batismo para Joãouaine da Silva (levou o novo nome escrito num pedaço de papel). “Porque- defendeu ele-: sou é cabra macho, sim senhor!”

Outro dia, no Bar do Celso, um cidadão que procurou por meu blog- através do Google- e deparou com o link Tadeu Nascimento, vendedor de macumba semi-pronta, ficou então desapontado comigo que me aconselhou: “Não mexa com macumba meu amigo, macumba é coisa do demo!” Demorei uma hora pra convencê-lo que não se tratava deste cronista.

É um perigo esse tal de Google.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

roberto

O Abominável Roberto Jefferson

Por Tadeu Nascimento

Quando eu era menino pequeno- não em Barbacena- mas lá em Rio Verde- das Abóboras (me orgulho de ser abobrense)- eu ouvia- não só do meu pai- mas de outros senhores mais velhos que homem que é homem, teria que ter vergonha na cara. Que a palavra de homem honrado teria como garantia o seu fio bigode. Hoje me pergunto- acho que todo mundo se pergunta- até a que ponto um homem de bem se portaria irredutível diante da sedução de dinheiro desonesto? Existe uma grande hipocrisia rondando a nossas vidas atualmente. O que é honesto e o que não é. Pergunto: se apoiar, pactuar, se irmanar, avalizar e se colocar ao lado no mesmo palanque de um político corrupto- ainda mais um corrupto - confesso- é ser honesto? Não é o caso de “ser ou não ser ; eis a questão”; mas a evidência de desonestidade sim, pois existe clara intenção de ludibriar. Só para ilustrar: se você estiver num palanque com Osama Bin Laden, você é um monge ou um terrorista?

É o caso de quem apóia ou dá guarida a Roberto Jefferson. O ex-deputado, é o atual presidente do PTB Nacional (pode? neste Brasil de memória tão esquecível, pode!) Logo o PTB de Getúlio, de Jango, de Brizola e de Darcy Ribeiro. Roberto Jefferson, réu confesso do Mensalão e que se negou a dizer onde foi parar os quatro milhões de reais que recebeu do Valerioduto, (cadê o STF para julgar este meliante e fazê-lo ver o sol nascer quadrado?) esteve no fim de semana em Goiânia a prestigiar o partido que preside. Fotos pra cá, fotos pra lá com muitos políticos (meu Deus, que políticos!). Há de chegar o momento em que a opinião pública cairá de pau em cima de Roberto Jefferson e aí ninguém- absolutamente ninguém- pousará nem para tirar foto 3x4- ao lado do canastrão Roberto Jefferson.

É tão fácil esquecer ou subestimar a inteligência popular como, por exemplo, o caso do senador Sarney que, por estar de braços dados com Lula -e como não conseguem derrubar o presidente- se esperneia no patíbulo para escapar da guilhotina dos espertinhos, dos oportunos. Estes mesmos que antigamente estiveram bajulando o então presidente da República José Sarney, como o senador Heráclito Forte da antiga Arena, que tinha- até pouco dias- a filha do ex-presidente Fernando Henrique- que trabalhava no “home sweet home” isto é, em casa- como assessora (se alguém não delata, ela estaria até hoje no cargo!), enquanto outros simples mortais servidores teriam que bater ponto e trabalhar para receber seus salários; o senador Agripino Maia, ícone da ditadura, que esteve ao lado de Sarney por décadas- ou melhor, somente enquanto lhe interessava- agora prega-lhe os últimos cravos. O senador Arthur Virgílio que tinha um assessor estudando na Europa, (se não é delatado, o assessor não seria demitido e ainda estaria lá, gastando em euro, of course) prometeu restituir em doze parcelas o dinheiro, fruto do crime; além de custear o tratamento de saúde de sua mãe ( 700 mil reais), também no continente europeu (ambos às custas do senado). Realmente estamos num mundo de inversão de valores. Pobre quando comete um crime, apanha da polícia, fica mofando atrás das grades, mas o senador Arthur Virgílio tem a facilidade de parcelar a reparação do seu crime. Imagine o leitor: Se alguém roubar, acreditando (óbvio) que ninguém descobriria o seu crime, mas, todavia, se alguém descobrisse tal falcatrua, ele devolvesse o fruto do roubo (em doze parcelas!) e ainda fosse perdoado, seria o caos, mas Arthur Virgílio pode. Todos do PSDB e do Demo (aliás, o demônio só não entra com “notítia criminis” contra os Demo, por apropriação indébita do nome, “Demo”, porque o STF não tem nada santo, ao contrário, é muito suspeito).

Agora inventaram uma nova saída para o crime: se descobrirem e se o criminoso confessar o crime, este se tornará uma espécie de santo, um herói dos trouxas que é o caso de Roberto Jefferson. Voltando ao Sarney: Por que não o acusaram, não o execraram durante as suas outras duas gestões na presidência do Senado? Então os senadores não sabiam dos atos irregulares de Sarney enquanto presidente daquela casa por dezesseis anos? Cretinices à parte, os senadores não deveriam subestimar a população. Eis mais uma indignação: a OAB-Go patrocinou em 15/05/2008 Roberto Jefferson, para palestrar num simpósio contra corrupção. Com que moral? Por que a OAB se prestou a este papel ridículo e imoral de avalizar as palavras de um corrupto-confesso? Este indivíduo- como diria Jânio Quadros- é um ator – um grande ator, posto que seu palco é o tribunal do júri, onde ele brinca com o emocional dos jurados. Deveria, portanto, ter sua carteira de advogado cassada por ferir a ética, os bons costumes então tipificados no Estatuto da OAB.

Pra quem não sabe, existem vários links na internet execrando o ex-deputado e mensaleiro Bob Jefferson por picaretagem. A indignação é tanta que dezenas de internautas perguntam porquê dão tanto espaço a um meliante profissional tão renegado (basta entrar no Google). No mês de maio deste ano, num vôo da TAM de Brasília para o Rio de Janeiro, preparando-me para ocupar a poltrona a mim reservada, escutei uma voz conhecida, um carioquês arrogante, pensei: esta voz não me é estranha e então, logo a abominável criatura se revela ao passar com três assessores que mais pareciam com Mike Tyson, quase a me atropelar. O carioquês arrogante saía da boca de Roberto Jefferson, que se apresentava mal vestido e com o cabelo em desalinho, mas a arrogância imprimia a sua marca. Bati três vezes na madeira.

Esta semana num encontro regional do PTB-Go (e depois no programa do Paulo Beringhs, excelente apresentador) em 24 de agosto último, data coincidente com os 55 anos da morte de Getúlio Vargas, criador do PTB, partido este usurpado do herdeiro natural Leonel Brizola (na redemocratização) pela Dona Ivete Vargas, Gastone Righi e, por ele, claro, Roberto Jefferson- veio, este último, para vender (e para cobrar caro depois) a sua falsa influência. Quem não se lembra dele quando fazia parte da tropa de choque de Fernando Collor? Na época era tão gordo que seu apelido era rolha de poço. Hoje é um poço de rolos. Na entrevista com Beringhs se comportou como gato manhoso, quase um inocente, papel este de ator de pornô-chanchada de quinta categoria.

É impressionante como certas pessoas se identificam com outras. São Gambás cheirando gambás.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Goiania Foto
Depois de uma noitada: ajudar o próximo

Saudades da vida boêmia de Goiânia

Por Tadeu Nascimento

Não que eu seja saudosista, mas o progresso tem mudado muito as nossas vidas. Muitas coisas para melhor; outras nem tanto. Isto posto, entendo que alguns lugares deixaram lacunas e saudades em Goiânia. O tempo passou e muitos estabelecimentos passaram. A questão é que não surgiram outros para substituí-los. Há pouco menos de vinte anos desapareceram da cidade lugares onde se encontravam – no mesmo ambiente – jornalistas, políticos, artistas, estudantes, boêmios de todos os hálitos e de todas marcas de cerveja e de uísque. Onde – no meio de melhores papos – se podia fechar a noite se redimindo dos pecados etílicos com uma canja de galinha, um escaldado ou mesmo um bom filé a cavalo ou um arroz à carreteiro. Fizeram o desfavor de desativar o Restaurante Salerno que ficava sob as arquibancadas do Estádio Antônio Aciolly do Atlético Goianiense, com objetivo de construir um shopping na área do estádio – sob a força de um contrato espúrio. Ainda bem que o povo da Campininha e os torcedores fiéis do Atlético impediram. Sem esta providência, não veríamos o Atlético Goianiense em primeiro lugar da Série B e que, com certeza, estará, em 2010, na Série A do Brasileirão. Quem sabe como campeão da Série B. Voltando ao Salerno: os bares e as boates fechavam e os notívagos (aqueles que amam a noite) iam tomar a melhor canja (ou escaldado) da cidade no Salerno. Era comum encontrar os mesmos amigos que há pouco estavam no mesmo bar ou na mesma boate.

Também na Avenida Tocantins aprazia o charmoso Restaurante Dona Beja, que executava os melhores filés e o seu famoso arroz à carreteiro. Ali se encontravam jornalistas que – depois de encerrada a edição dos seus jornais – iam ali se espairecer; os boêmios mais renomados que iam tomar seus últimos goles; políticos para tecer suas artes e manhas; artistas que – depois das apresentações no Teatro Goiânia – iam conhecer a boemia da capital. Muitos clientes ficavam à espera de vagar uma mesa. Eis aí, senhores “restauranteurs”, um bom negócio: reativar a Dona Beja, mesmo que seja em outro lugar – desde que se mantenha o mesmo estilo e graça.

Na década de 70, o fim de noite acontecia no Zé Latinhas, na Rua 8, no Centro. Recordo-me de muitos deputados arquitetando estratégias politiqueiras sobre os panos vermelhos das mesas do Zé Latinhas. A comida, nota dez. O ambiente – boemicamente –, onze. Muitos saíam da boate do Hotel Bandeirantes e dobravam a esquina para encerrar ali a sua noite com um filé à parmegiana.

Hoje, o perigo ronda. Não há um só lugar em Goiânia – para que esta mesma gente interessante se reúna. É o preço do progresso. Resta tomar um caldo na Avenida T-63, num lugar totalmente distante – quase a ermo –-, escuro e perigoso, onde raramente se encontra com um conhecido. Onde o garçom nada mais é que cobrador de impostos etílicos. Quanto mais tonto, mais extorquido. Existe outro estabelecimento, no fim da Rua 85, que vende galetos, com tantos seguranças tipo leão-de-chácara, cuja impressão é de estar num lugar inóspito onde se frequenta o perigo e não segurança; portanto não é lugar para encontrar amigos, muito menos no fim de noite. São lugares sem nenhum aconchego de madrugada, sem nenhum charme da burguesia noturna. A verdade é que a graça está em saber que sempre os mesmos amigos já estão ali prontos a sua espera, a puxar uma cadeira pra você. Na madrugada os colarinhos parecem respirar livres, as gravatas repousam no bolso do paletó que está no carro que impede a saída de outro, que também tem um paletó no banco do passageiro; os batons em desalinho com os lábios; os rimel – dos olhos – desbotados; as meias desfiadas que ninguém vê. Enfim, a noite adiantada sempre permite estas liberdades.

Há quem agrida o estômago com sanduíches lambrecados de maionese duvidosa ou com espetinhos de carne de gato nas calçadas da cidade. Nos melhores dias de boemia, depois de encerrada as atividades noturnas do Sancho Pança, do Degrau 94 (dos meus amigos Rubão e Elvira), do Dom Quixote, do Bebs, do Zero Grau, das boates Zoom (belíssima casa do internacional Chico Recarey) na Galeria Um, da Number One, da People, os estômagos cobravam um contraponto, um socorro para aplacar o álcool ou mesmo a bem-vinda fome. Depois dos bailes no Clube Jaó, onde aconteciam os bailes de formatura – que eram os melhores acontecimentos do ano – e também do Jóquei caíamos, nós os notívagos, por força da gravidade, em alguma boemia que encerrasse a noite de uma forma perfeita. E a solução estava nas “mesas boêmicas” do Salerno, da Dona Beja e do Zé Latinhas, que se perduraram por muitos anos. Tornaram-se tradição. Mas o falso brilho da modernidade acabou por apagar a verdadeira luz que tinham estes bares da boemia goianiense. É uma pena. Nas grandes capitais fazem questão de preservar seus bares famosos – apesar da modernidade. No Rio de Janeiro a La Fiorentina mantém viva sua tradição de mais de 50 anos, tal qual o Bar Brahama; o Filé do Moraes e o Ponto Chic da capital paulista. Mesmo a cidade de Ribeirão Preto, interior paulista, mantém a tradição de 60 anos da Choperia Pinguim. Estabelecimentos que só encerram suas atividades nas altas horas.

Melhor então ir pra casa e esperar dias melhores. E virão. Se Deus quiser, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e os anjos também. Amém. Salve a boemia! Amém.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

JOÃO SALDANHA

Lembranças de João Saldanha


Por Tadeu Nascimento

Imagina você sentado à uma mesa de bar e, de frente Vinicius de Moraes bebendo uísque com Tom Jobim e Rubem Braga, ou ainda você no Maracanã e logo na fila de baixo Chico Buarque, Cyro Monteiro e Nelson Rodrigues, assistindo a Seleção Canarinho de 70, sob o imaginário hino “Noventa milhões em ação/ Pra frente Brasil do meu coração!” e lá nos gramados Pelé, Tostão, Rivelino e Gerson. Não seria algo de se emocionar? Nas décadas de 1960/70 isso era bastante possível, pois os personagens citados de fato se encontravam nos bares, no Maracanã, etc. O Brasil era rico em talentos. Mesmo sob os cravos da ditadura, grandes personalidades da música, da literatura, da arquitetura, da pintura, do esporte e mesmo da política se reuniam, no Rio de Janeiro, em lugares como o “Antônios”, a “La Fiorentina”, a “Colombo” e tantos outros. Uma cidade que abraçava os gênios da música Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Lamartine Babo, Braguinha, Antônio Maria, os então meninos Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Os escritores Jorge Amado, Carlos Drummond, Manoel Bandeira, Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Sérgio Porto. Os pintores Di Cavalcante, Portinari. Na arquitetura havia Oscar Niemayer, Lúcio Costa. No futebol Pelé, Garrincha, Tostão (que era do Cruzeiro, depois Vasco), Rivelino (do Corinthians, depois Fluminense), se encontram no grande palco que era -e ainda é- o Maracanã. Na política tínhamos o polêmico deputado pelo Rio de Janeiro e o mais votado no Brasil até então- Leonel Brizola que atordoava os militares e o eloqüente deputado e depois governador Carlos Lacerda que excitava- pelo lado direito- os mesmos militares. Em meio a tantas pessoas interessantes havia um personagem extraordinário chamado João Saldanha que mexia com todos brasileiros- de norte a sul, da esquerda e da direita. O Brasil, na certa perderia muito da graça daqueles “Anos também dourados” se Saldanha não existisse. Estamos falando de um Brasil comovente como nos dias vividos na copa do Mundo de 70. Hoje, em plena democracia, estamos pobres de talentos em qualquer área.

João Alves Jobim Saldanha era um gaúcho- primo de Antônio Carlos Jobim- que se ajustou tão bem ao Rio de Janeiro que se tornou um perfeito carioca. Afora isto, trazia consigo a valentia dos maragatos do Rio Grande do Sul. Sua história é muito interessante. Começa como traficante de armas aos 6 anos de idade quando seu pai lutava contra a oligarquia dos ximangos de Borges de Medeiros nos pampas gaúcho. Foi líder estudantil aos 20 anos, dono de cartório aos 33, membro do Partido Comunista Brasileiro a vida toda. Foi jogador e técnico de futebol, campeão de basquete, jornalista, comentarista de rádio e televisão, analista de escola de samba, escritor, candidato a vice-prefeito do Rio de Janeiro. Todos os dias- de 1970 a meados de 1973- no Jornal Nacional havia “Dois minutos com João Saldanha” sobre os bastidores do futebol brasileiro- a Globo poderia reeditar este quadro, mas cadê outro João Saldanha?

Com a vitória da Revolução de 30, os pais de Saldanha mudaram para o Rio de Janeiro. Tinha ele 14 anos. No Rio Grande do Sul torcia pelo Grêmio, mas quando chegou ao Rio o Botafogo tomou conta do seu coração. Ali foi jogador e técnico. Treinou o campeão Botafogo de Nilton Santos, Didi, Garrincha, Amarildo, Quarentinha. Todavia, Saldanha tinha um temperamento forte e não aceitava desaforos. Exemplos: nos estúdio da Rede Globo, em 17 de dezembro de 1967, no programa Resenha Facit, presentes Armando Nogueira, Nelson Rodrigues, Luis Mendes: em pauta o resultado da vitória do Botafogo de 2X1 no Bangu (o Bangu buscava o bi-campeonato) à tarde no Maracanã. Saldanha com a sua habitual franqueza, disse que o goleiro teve uma atuação suspeita no gol do Bangu. Castor de Andrade, presidente do Bangu, que residia ali por perto, invadiu a TV Globo portando um revólver de ouro maciço e ameaçou Saldanha que não se intimidou e atirou um pesado cinzeiro sobre Castor e depois um copo dágua. Os amigos seguraram os contendores e por sorte não aconteceu o pior. Castor, dono de jogo de bicho, famoso por sua periculosidade, foi retirado e o programa continuou. Mas o goleiro Manga entendeu que o negócio era com ele e três dias depois no Mourisco num jantar de comemoração Manga se levantou e partiu pra cima de Saldanha que acabara de chegar com Bebeto de Freitas- seu parente e que anos depois seria presidente do Botafogo- e que sempre andava armado, atirou em Manga por 2 vezes, que não acertou o alvo porque Bebeto e Luis Mendes seguraram o seu braço de maneira providencial. Manga em disparada fugiu e pulou um muro e desapareceu na noite. Em outra história, Saldanha perseguido pela ditadura por ser comunista, ao chegar para o trabalho na Rádio Nacional, ouviu do diretor Jorge Curi que ele, Saldanha, estava proibido de falar naquele microfone. De pronto Saldanha respondeu: “Olha Curi, manda os teus militares enfiarem este microfone no rabo!” Quando treinador da Seleção, outubro de 1969, um repórter lhe perguntou sobre a escalação do time e João Saldanha a forneceu sem o nome do centroavante Dario, e o repórter o desafiou: mas o presidente Médice gostaria que Dario fosse convocado! Saldanha respondeu de imediato (está no Youtube.com): “Pois olha: o presidente escala o ministério dele que eu escalo o meu time.” Deu no que deu. Meses depois João não era mais o técnico, mas montara toda estrutura para a Seleção ser campeã.

O caso Pelé. O fato de Pelé ter errado três jogadas em que normalmente não erraria, Saldanha achou que o craque estava com problema na visão. Exigiu rigoroso exame oftalmológico. Surgiu então a celeuma de que Pele não poderia ir à copa. E isto seria o caos no meio futebolístico. Mas numa mesa redonda da Rede Globo Saldanha desmentiu a história: “O que o Pelé tem é mais grave. O problema do negão é a falta de dinheiro. Está jogando partida atrás da outra para ganhar a grana que perdeu em seus negócios lá em Santos!” Estes dados se encontram na biografia de João Saldanha escrita por João Máximo.

Saldanha morreu- no palco onde sempre melhor representou- comentando a Copa do Mundo. Na Itália em 1990. O único brasileiro, segundo ele mesmo, que assistiu todas as copas do mundo até então. Como diria Nelson Rodrigues, Saldanha era um daqueles sujeitos de “defeitos luminosíssimos.” Estas são algumas histórias de um personagem extraordinário de uma época sem igual.

VOCÊ TEM FOME DE QUÊ ?

Por Tadeu Nascimento

Todo mundo tem fome de alguma coisa. Não estou me referindo às necessidades básicas como alimentaço, sexo, higiene etc., mas sim a outras coisas que desejamos no dia-a-dia. Arnaldo Antunes e os Titãs, por exemplo, têm fome de teatro, diversão, arte, balé, e até saída pra qualquer parte. Mas neste mundo tem gosto pra todos os gostos. Eu já tive fome de muitas coisas: de vencer na vida, de um dia ser rico e de outras bobagens. Hoje tenho fome de sossego- se possível com uma cerveja bem gelada ao meu alcance. Mas tem gente que tem fome até de morte: O Bush filho tinha fome de vingança do pai- por este não ter vencido Sadan Houssain- até consumarem a morte do ditador iraquiano. Osama Bin Laden tem fome dos dois Bush, o pai e o filho. Do pai, porque fora traído por este na guerra do Afeganistão contra os russos. Pra quem não sabe, Bush pai foi sócio do próprio Bin Laden. De Bush filho ele demonstrou sua fome em 11 de setembro de 2001. Hebert de Sousa, o Betinho, irmão do Henfil, tinha fome de acabar com a fome. Cora Coralina tinha fome de lirismo. Vinicius de Moraes tinha fome de paixões. Tom Jobim, de um cantinho, um violão, este amor, uma canção. Caetano Veloso tem fome de vaidade. Já o Chico Buarque tem fome de modéstia. Michael Jackson tinha fome de ser branco. Paul McCartney tinha (e ainda tem) fome da inteligência de John Lennon e Lennon tinha fome de amor por Yoko Ono. Chico Xavier tinha fome de humildade; João Paulo II de paz para humanidade. Napoleão tinha fome de mundo; Hitler de judeus. Nero de fogo; Calígula de luxúria. Pitágoras de triângulo retângulo; Isaac Newton de maçãs caídas via gravidade. Albert Einstein tinha fome relativa de tudo que era relativo; Fidel Castro tem fome de ser o primeiro santo ditador comunista de Cuba; o irmão Raul seria o segundo. Kim Jong-il, o ditador da Coréia do Norte, tem fome de bomba atômica, justamente porque a explosão da bomba atômica tem a sua cara. De fome.

No campo da política Fernando Henrique Cardoso tem fome de ser a eterna rainha da Inglaterra do Brasil, já que ele nunca ouvirá de Barack Obama “Este é o cara!”. Fernando Collor tem fome de voltar para o Palácio da Alvorada despachando (inclusive macumba- segundo Rosane Collor à revista Veja) da Casa da Dinda. Sarney, de ser imperador do Maranhão. Enéas Carneiro do PRONA tinha fome de si mesmo: “Meu nome é Enéeeeas!” O presidente Lula tem uma fome exacerbada de “nunca antes na história deste país”. Carlos Lacerda tinha fome de presidência da República. Getúlio Vargas de deixar a vida para entrar na história. Leonel Brizola tinha fome de combater perdas internacionais. Jânio Quadros de forças ocultas. Os militares de ditadura. Oscar Niemayer tem fome de curvas (no concreto); Juscelino tinha de Brasília e de dançar valsa. O ministro Gilmar Mendes tem fome de destituir Deus de suas funções celeste-jurisdicionais e tomar o seu lugar. Daniel Dantas tem uma fome de leão em jejum por dinheiro alheio. Eike Batista de ser o mais rico do mundo, já no ano que vem que não chega nunca.

A fome nos esportes: Sócrates, o ex-camisa 10 do Corinthians, tem fome de chope do Pinguim de Ribeirão Preto. João Alves, aquele do escândalo do orçamento tinha fome de loteria esportiva. O Ibis Sport Club tem fome de ser o pior time de futebol do mundo (sempre foi e será!). O Botafogo tem fome de Flamengo. O zagueiro Emerson do Botafogo tem fome de ser reconhecido como o melhor atacante do Flamengo. O Flamengo tem fome de um novo Romário e o Romário dos 10 milhões de reais que o Flamengo lhe deve (e não paga!), além de ter fome de Zico, de Zagallo, de ex-mulheres e de outros desafetos. O Fluminense tem fome de Segunda Divisão. O Vasco está cansado de ter fome de títulos e pretende- se outros times com menos fome deixarem- permanecer na Segundona. O Adriano do Flamengo de ser imperador em qualquer hospício da Primeira Divisão. Zico, de nascer de novo e se chamar Pelé. E o Pelé, que por sua vez tinha enorme fome de gols, de casar-se de novo. Garrincha tinha fome de driblar João; Edmundo de gols e de confusão. O técnico Vanderley Luxemburgo tem fome de ser Muricy Ramalho e o Muricy de ser Luxemburgo. O Goiás Esporte de Clube tem fome de ser campeão brasileiro; o Vila Nova tem fome de Terceira Divisão. O Atlético Goianiense de empurrar o Vila Nova pra terceirona. Ronaldo Fenômeno de pagar mico-gay. O jogador Dadá Maravilha tinha fome de ser helicóptero ou beija-flor. Túlio Maravilha tem fome de marcar o milésimo gol como prefeito de Goiânia. Rubinho Barrichello de um campeonato de Fórmula Um, com somente pilotos que nunca foram campeões onde ele seria, claro, vice-campeão.

A fome das mulheres. Imelda Marcos, de sapatos (ela tinha mais de mil pares!); Adriana Galisteu, de ser viúva de qualquer famoso, principalmente de piloto de Fórmula Um. Mas também pode ser da Fórmula Dois, da Três, da Mil. Suzana Vieira tem fome de se debutar pela quarta vez aos sessenta e dois anos; Hebe Camargo de renovar o contrato por mais 80 anos com o SBT. Hillary Clinton tem fome de acabar com a cota de negros para presidente dos EUA. E você leitor, tem fome de quê?


quinta-feira, 30 de julho de 2009
















Protógenes Queiroz e Tadeu Nascimento em São Paulo.





A vitória de Protógenes Queiroz

Por Tadeu Nascimento

Em 06 de outubro de 2008, escrevi o meu primeiro artigo neste Diário da Manhã com o título “Por que o STF protege Daniel Dantas?” onde abordei sobre o maior esquema de corrupção dos 508 anos da história do Brasil envolvendo todos os poderes, além da “benevolência” do Supremo Tribunal Federal. Até então, nenhum articulista de Goiás havia escrito a respeito. Em outras oportunidades voltei ao tema evidenciando o poder corruptor de Dantas, a orquestração diabólica contra o delegado federal Protógenes Queiroz (e contra o juiz federal da 6ª Vara Criminal de São Paulo Fausto de Sanctis). Diante dos últimos acontecimentos, é inevitável que eu volte a debater sobre tal assunto, apesar de que eu preferiria escrever crônicas, que são o retrato do dia-a-dia, até porque sobre política- como disse em uma crônica- é como bater em ferro frio. É muito difícil um escriba goiano de influência tendente a zero como eu interferir ou mudar alguma coisa neste país. Mas a minha indignação fala mais alto. Por isso insisto.

No dia 03 de julho último, o procurador federal Rodrigo De Grandis denunciou o banqueiro Daniel Dantas e mais 14 pessoas. A denúncia foi encaminhada ao juiz federal Fausto de Sanctis, o mesmo juiz que decretou as duas prisões de Daniel Dantas e que de imediato o presidente do STF Gilmar Mendes, o protetor dos malas e dos corrompidos, concedeu os dois habeas-mala ao banqueiro dono do Grupo Opportunity. Era a deflagração da Operação Satiagraha que se iniciou em 08 de julho de 2008 com a prisão de Daniel Dantas, do ex-prefeito Celso Pitta e do especulador Naji Nahas. Esta denúncia oferecida por De Grandis comprova as incidências de ações de gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e finalmente aponta Dantas como um dos grandes financiadores do “Valerioduto” que ficou conhecido como o escândalo do Mensalão, cujo inicio se deu na campanha da reeleição do então governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, PSDB (ainda na era FHC) e depois, aos políticos do PT e os da base aliada. Agora com os fatos apurados muitos nomes surgirão à tona. Em entrevista à revista Carta Capital de 15 de julho último, Protógenes Queiroz disse ao repórter o que se pode esperar da Operação Satiagraha: “O Ministério Público pediu abertura de mais três inquéritos. Isso com todo material coletado durante a operação. O que vem pela frente, não tenha dúvida, é que vão aparecer nomes de altas autoridades da República e de políticos. Também vai ficar claro o envolvimento dos partidos políticos no esquema de Daniel Dantas. Está tudo no HD (disco rígido) apreendido pela Operação Chacal (em 2004, no computador central do Opportunity, no Rio)”. Causou estranheza que logo depois da Operação Chacal a então presidente do STF Ellen Gracie impediu a abertura dos tais discos rígidos, o que resultaria na descoberta das falcatruas no processo das privatizações o que seria uma hecatombe no meio político e que mancharia irremediavelmente o ex-presidente Fernando Henrique e o PSDB. Como a ministra foi indicada por FHC, assim como Gilmar Mendes, o disco rígido está lacrado. O que, depois de aberto, poderá ser uma verdadeira caixa de Pandora que mostrará as mazelas do governo FHC e do Grupo Opportunity.

Segundo o artigo publicado na Folha de São Paulo de 24/07/2009 a Polícia Federal pediu a abertura de novo inquérito na Operação Satiagraha no Pará para investigar clientes e terceiros ligados à Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, braço agropecuário do Opportunity, além de aprofundar investigações sobre suposta prática de crimes financeiros, leia-se lavagem de dinheiro e de compras irregulares de terras na região. O grupo possui 500 mil hectares de terras. O governo do Pará deverá entrar com novas ações pedindo devolução ao Estado de cinco fazendas compradas pela Agropecuária Santa Bárbara Xinguara. São áreas estaduais cedidas para colonização e extrativismo vegetal, no caso, de castanhas. Os ocupantes não cumpriram os contratos de aforamento- destruindo os castanhais- e as “venderam” para o grupo de Dantas. Em setembro de 2008 o governo daquele estado havia feito o mesmo pedido à justiça em relação a duas propriedades da empresa na região de Marabá.

Importante se atentar para o papel do STF na questão do mala- banqueiro. Dantas foi condenado em primeira instância a 10 anos de cadeia por corrupção quando tentou corromper o delegado federal Paulo Victor Alves com um milhão de reais na mesma Operação Satiagraha. Dantas entrou com recurso e responde perante a justiça, claro, em liberdade. Agora com novas denúncias o povo brasileiro há de estar vigilante quanto ao esquema que fará tudo para livrar o banqueiro das grades. A questão é: Gilmar Mendes vai burlar a lei e a justiça livrando mais uma vez Dantas do xilindró? A revista Veja que não é de hoje se vende a quem pagar mais estará a serviço do Opportunity, assim como a Rede Globo que só divulga sob propina.
Há quem condene os atos da Polícia Federal como extensão do Estado Policial. A verdade é que alguns esquerdistas empedernidos guardam consigo os dias negros da ditadura. A Polícia Federal de hoje cumpre estritamente determinações judiciais. No caso da Satiagraha, Protógens Queiroz cumpriu ordens diretas do jovem juiz federal Fausto De Sanctis de 34 anos que não tem qualquer relação com a ditadura. A CPI das Escutas Telefônicas Clandestinas (sob a presidência do deputado Marcelo Itagiba (PMDB/RJ) que recebeu 10 mil reais de Dantas para sua campanha) foi obrigada inocentar Protógenes Queiroz.

No dia 20 deste mês tive o prazer de conhecer pessoalmente o Delegado Protógenes Queiroz (e sua esposa) em São Paulo e com ele entabulei alguns minutos de conversa. O assunto não poderia ser outro: a Operação Satiagraha. Vi nos olhos do olhos do jovem delegado a simplicidade e o idealismo de um servidor federal honesto. Quem o assistiu em uma das três vezes em que esteve em Goiânia para ministrar palestras, há de confirmar esta minha impressão.

No Brasil existe uma enorme facilidade de inverter a verdade; o honesto passa ser o bandido e vice-versa. A revista Veja acusou levianamente em 1993 o ex-presidente da Câmara Federal Ibsen Pinheiro de ter em sua conta bancária um milhão de dólares que resultou no escândalo da CPI do Orçamento, onde o campeão da vigarice foi o deputado João Alves (que pra justificar a sua fortuna ganhou mais de mil vezes na loteria esportiva: “Deus é muito bom pra mim!”). Ibsen Pinheiro que poderia ser candidato a presidente da República foi obrigado a se renunciar. Quase 12 anos depois foi comprovado que Ibsen Pinheiro era inocente. Quem assinou esta matéria? O jornalista Luís Costa Pinto, à época editor da Veja em Brasília. Outra inversão vergonhosa: a OAB-Go patrocinou, em 15/05/2008, o corrupto-confesso Roberto Jefferson, deputado (PTB/RJ) cassado envolvido com o Mensalão, em um simpósio contra a corrupção. É demais. Daqui a pouco vão prender o Romário. Acusação: ser goleador, marrento, mulherengo e franco. Enquanto isto Daniel Dantas, Celso Pitta, Naji Nahas e outros estão flanando por aí gastando o meu, o seu, o nosso suado dinheirinho. Te cuida Romário, tem muito flamenguista, tricolor, botafoguense querendo te pegar!...


Tadeu Nascimento é servidor público e advogado
Garimpando palavras
Por Tadeu Nascimento

Assim como coleciono versos da música popular brasileira, certas palavras exercem em mim um grande fascínio e, na condição de dependente psicoliterário, tenho um agravante: sou demasiadamente curioso. Quanto mais intrigante a palavra, mais interessante. Vocábulos óbvios como “negócio”, que é a negação do ócio não me desperta tanto interesse. E assim vou garimpando palavras ao longo do rio da vida. Seleciono as pepitas mais valiosas, cujo brilho me causa muita inquietação e então vou anotando-as com suas respectivas etimologias. Algumas delas repasso agora ao leitor: “biscoito”. No tempo do descobrimento, os navios (naus) eram abastecidos com comidas pré-assadas ou pré-cozidas. “Coito” (que neste caso não tem nada relacionado a sexo) é uma forma arcaica do particípio passado do verbo cozer. É o mesmo que cozido. E como “bis” é o mesmo que duas vezes, ou de novo, “biscoito” vem de “duas vezes cozido.”
O verbo assassinar. Segundo o criminalista e doutrinador Feo Rosa em seu “Direito Penal”- Parte Geral, quando da Guerra Santa, os mouros (turcos otomanos), ingeriam haxixe pra ganhar coragem. Então era preciso haxaxinar, e que- com o tempo- passou a haxaxinar, depois achachinar e por fim, assassinar.
Manga, a fruta. Ela foi trazida pra cá pelos portugueses e se adaptou tão bem que atualmente somos um dos maiores produtores do mundo. A manga como muitas outras frutas são originárias da Índia. Pelo fato do indiano não comer carne (lá, os animais são sagrados) cultivaram frutas e temperos (especiarias) como o cravo, a pimenta, nó moscada, gengibre, cominho, e até a cana de açúcar. Os especialistas em gastronomia defendem que a comida indiana é melhor do planeta. Voltando à manga: seu nome científico é Mangífera Índica. Mangífera vem de latim manjare, manjar, comer. Então, manjar a fruta da Índia. Frutas brasileiras são aquelas com nomes indígenas: caju, gabiroba, jenipapo, cupuaçu, umbu, açaí e também o abacaxi que eu pensava que era do Havaí. Imagina-se que quando Cabral aqui chegou, as nossas praias eram repletas de coqueiros. Ledo engano: naquele tempo não havia um só coqueiro no Brasil. Havia palmeiras, que é outra coisa. Portanto não havia coco- o fruto-, nem pra remédio. O coco veio da África, assim como o abacate veio do México, a laranja da China e a cana-de-açúcar da Índia.
Coração tem cordas? Saiba o leitor que a palavra coração vem (e tem) de cordas. Pois é, o Pelé é tricordiano- além de tricampeão- porque nasceu em Três Corações. Mas em se tratando de coisas do coração existe até um poema "As cordas do coração": “O coração humano é um instrumento de muitas cordas/O perfeito conhecedor do homem sabe fazê-lo vibrar todas.../ como um bom músico” (Charles Dickens). Sérgio Buarque de Hollanda em “Raízes do Brasil” disse que o brasileiro é um homem cordial. O pai do Chico não quis dizer que o brasileiro é gentil e sim, mole de coração, emocional. E falando em cidades, quem nasce em Salvador, capital da Bahia, o que é? Resposta: soteropolitano. Sotero vem grego, aquele que salva e polis do latim, cidade. Portanto, a cidade do salvador. E quem nasce em Niterói? Araribóia (índio fundador daquela capital) Os araribóias ficam pau da vida; preferem ser chamados de niteroienses.
A Flor do Lácio. Sempre me intriguei com o tal do Lácio, até que deparei-me com o livro “Flor do Lácio” de Cleófano de Oliveira, onde se explica que o famosos verso “A última flor Lácio, inculta e bela” de Olavo Bilac (A via lactea) se refere a língua portuguesa. Mas o que seria o Lácio? Lácio era uma cidadezinha perto de Roma, onde nasceram as línguas latinas. A italiana, a espanhola, a francesa, o próprio latim e a portuguesa.
Sincero. Vem do latim “sinceru”, sem mistura, sem malícia, puro. O escritor Malba Tahan diz em sua obra que sincero é uma palavra romana dada a certos vasos que eram fabricados com uma cera especial. Essa cera era tão pura que os vasos tornavam transparentes e dava-se a impressão que não era de cera. Então falava-se “sine-cera”, que significava sem cera, uma qualidade de vaso perfeito; que se deixava ver através de suas paredes.
Sorte. O grande imperador Júlio Cesar depois de atravessar Rio Rubicão bradou: “ Alea jacta est!”, que significa "A sorte está lançada". Alea é prefixo de aleatório, ou seja, entregue a própria sorte.
Coca-cola. Bebida feita a partir de dois ingredientes, a coca (da cocaína, que continha pequena quantidade no começo do século XX e que há muito tempo parou de fazer parte do refrigerante) e a cola, que é retirada da noz da cola, árvore africana da família das esturculiáceas. Esta contém alcalóides estimulantes, do tipo cafeína. Daí, motoristas de caminhão beberem café com coca-cola para driblar o sono.
Mulata, a mulher. Mulata vem do latim “mulus”, mula, animal híbrido do cruzamento da égua com o jumento, que foi aplicado ao mestiço das raças branca e negra. É uma comparação nada simpática mas rendundou na mulata que é grande sucesso nacional.
E a origem da palavra “bunda”? Este nome dado a esta parte interessante da nossa anatomia esta sim, é uma criação brasileira, garante o antropólogo Darcy Ribeiro. Em Portugal é nádegas. História: as negras que vieram da África para serem escravizadas no Brasil, mais principalmente no Rio de Janeiro eram da nação africana Akibundos, de Cabo Verde e Angola, e tinham nádegas grandes. Os portugueses que viviam em grande número na capital brasileira- e que historicamente são chegados numa crioula- ficavam com água na boca e quando viam nas ruas uma negra diziam: “Ai Jisuis, akibunda!” A partir daí, tudo virou festa.


Tadeu Nascimento é servidor público e advogado
Colecionador de Versos

Por Tadeu Nascimento

Dizem que é maníaco quem coleciona alguma coisa. Tem gente que coleciona selos, moedas, chaveiros, gibis, etc. Automóveis são o orgulho de excêntricos milionários. Conheço um cidadão que coleciona motocicletas. Outro, um amigo antigo, coleciona pedras que encontra pelas ruas. Gostou do formato, da cor, leva o seixo pra casa feliz da vida. Sinceramente não considero isto como um desvio psicológico. Se assim fosse, eu já estaria agasalhado numa camisa de força: eu coleciono algo mais estranho que se possa parecer. Coleciono versos. Isto mesmo, versos. Dos outros, claro. Somente versos da música popular brasileira. Versos sem melodia como os de Castro Alves, Bilac, Casimiro de Abreu, Carlos Drummond ainda não são pra mim, são para maníacos mais sofisticados. Pesquisando sobre o assunto descobri que- segundo a Psicologia- quem coleciona muita coisa, diversos itens, é considerado maníaco e se for exagerado na dose pode ser portador do TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Acho que não cheguei ao TOC, pelo menos ninguém se deu ao trabalho de me dar um toc. Mas alguns entendidos defendem que tal mania tem seu lado positivo ao exercer um papel anti-estressante. Como toda história de coleção, comecei ainda menino, embora esta preciosa coleção se mantivesse guardada na minha mente. Naquele tempo colecionei selos, moedas, lápis de propaganda (lembra-se deles?), álbuns de figurinhas e versos. Com o tempo os deixei no pó da estrada. Fiquei só com os versos. De repente me dei conta que estava colecionando coisas da alma. Pode ser, mas isto é outra história. Voltemos aos versos. Hoje os guardo em um caderno que fica sempre ao meu alcance.
Tentarei expor aqui algumas preciosidades (dos outros) desta coleção da qual me orgulho muito e- é bom avisar- que não dou, não vendo, não empresto, apenas declamo ou canto tais versos à minha maneira a quem interessar possa. São versos cuja beleza se traduz pelo lirismo ou pela inteligência neles contida. Começo pelo o antigo “Tu pisavas nos astros distraída/ Sem saber que a ventura desta vida/ É a cabrocha, o luar e o violão” de Orestes Barbosa (Chão de Estrelas) tido pela crítica (colecionadores) como os versos mais bonitos do cancioneiro nacional. Outra obra prima: “A deusa da minha rua/ Tem os olhos onde a lua costuma se embriagar” e na mesma canção: Na rua há uma poça d’água / Espelho da minha alma/ Transporta o céu para o chão.” (“A deusa da minha rua” de Newton Teixeira). “Tire seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor/ Hoje pra você eu sou espinho/ Espinho não machuca flor/ Eu só errei quando juntei minh’alma a sua/ O sol não pode viver perto da lua” (“Tire o seu sorriso do caminho”) de Nelson Cavaquinho e de Guilherme de Brito que também é uma das mais líricas da minha coleção. Chico Buarque, entre tantas coisa belas, cunhou estas maravilhas na canção “Eu te amo” que é um hino: “E na desordem do armário embutido/ Meu paletó enlaça o seu vestido/ E os meus sapatos inda pisa nos teus”.
Caetano Veloso também deixa um marco definitivo na história da MPB em “Meu bem meu mau”: “Você é meu caminho/ Meu vicio/ Meu guru/Porto seguro/ Estava você”. E ainda em “Sampa”: “A força da grana que ergue/ E destrói coisas belas.” Djavan eternizou-se em “Faltando um pedaço”: O amor é um grande laço/ Um passo pra uma armadilha/ Um lobo correndo em círculo/ Pra alimentar a matilha.” Ainda na mesma canção: “O amor e a agonia/ Cerraram fogo no espaço/ Brigando horas a fio/ O cio vence o cansaço.” O cantador pernambucano Otacílio Batista Patriota criou os seguintes versos que são uma pérola: “Mulher nova bonita e carinhosa/ Faz o homem gemer sem sentir dor”, eternizada na voz de Amelinha que tem no título desta canção estes mesmos versos. Ary Barroso e Lamartine Babo em “No Rancho Fundo”: “Porque o moreno/ Vive louco de saudade/ Só por causa do veneno/ Das mulheres da cidade. A moderna banda Jota Quest: “Mas quando penso em alguém / é por você que fecho os olhos” (“O que eu não entendo”) de Rogério Flausino e Fernanda Mello.
Há também outras onde a beleza está na originalidade, na inteligência no duplo sentido que o autor propõe, como no refrão de “Os argonautas” de Caetano Veloso; “Navegar é preciso/ Viver não é preciso” são versos tomados emprestado de Camões onde a palavra “preciso” não quer dizer necessidade e sim precisão, exatidão, matemático, o que significa “navegar é exato/ Viver não é exato”, o que multiplicaria a beleza destes versos. Em parceria com Djavan, Caetano compôs: “Luz das estrelas/ Laço do infinito” o que significa que todo laço traz consigo o símbolo do infinito que é um oito deitado. Continuando na mesma canção: “Céu de Brasília/ Traço do arquiteto” é uma referência a Brasília onde é proibido construções com mais de seis andares possibilitando a visão ampla do céu (do arquiteto do Universo, Deus) e ao criador da cidade, o arquiteto Oscar Niemayer. Coisa divina. A genialidade de Caetano em: “Luz do sol/ Que a folha traga e traduz” (“Luz do sol”)- versos que são a própria fotossíntese. Grande sacada do compositor baiano. Chico Buarque na mesma canção “Eu te amo” diz: “Rompi com o mundo, queimei meus navios” é uma alusão a Hernan Cortez, conquistador espanhol, que para evitar a fuga dos seus soldados, diante de milhares silvícolas astecas, incendiou todos seus navios, forçando-os a enfrentá-los e a vencê-los. Ou seja: do amor, não há com fugir. Em suma: nesta coleção existem mais versos maravilhosos, mas o espaço não permite relacioná-los.
Todo colecionador gosta de todos objetos colecionados, mas tem o seus preferidos. No meu caso, os versos que estão no topo da minha predileção são: “E na desordem do armário embutido/ Meu paletó enlaça o seu vestido/ E os meus sapatos inda pisa nos seus” de Chico Buarque e “Mulher nova bonita e carinhosa/ Faz o homem gemer sem sentir dor” de Otacílio Batista Patriota. E você caro leitor, quais são os seus versos preferidos? Gentileza enviar-me os de sua preferência através do meu email, abaixo descrito.
É preferível colecionar versos que acumular estresse.

Tadeu Nascimento é servidor público e advogado

O silicone nosso de cada dia
Por Tadeu nascimento

Estamos na era do silicone. Aliás, o silicone é uma das armas mais poderosas dos últimos dez anos. Se as pessoas usassem o tal silicone de uma forma harmoniosa, voltada para o natural, seria ótimo, mas muitas exageram. E com isto tem gente que está se achando. Já vi mulher cujos peitos, seriam capazes de amamentar uma maternidade. E tome decote. Ah, e as bundas? Tenho uma conhecida que do dia pra noite multiplicou seu traseiro de tal forma que ela faz lembrar uma locomotiva arrastando dois vagões.
Mas o silicone não está só nesta guerra, tem também o botox, a lipoaspiração e, claro, os médicos que faturam horrores siliconicamente. E nesta batalha há corajosos que se submetem a tantas plásticas que acabam se parecendo com outros seres, menos com gente. Exemplos: Michael Jackson, que segundo as más línguas dos americanos, tem o chimpanzé como seu parente mais próximo. O ator Mickey Rourke de “Nove semanas e meia de amor”, ficou tão feio que não consegue filmar nem nove minutos e meio de terror. Cid Moreira da Rede Globo- segundo a revista Veja- ficou com cara de leão com fome. A cantora Elza Soares esticou tanto o rosto que parece que sua própria voz se esticou coma pele. E o Cauby Peixoto? Enquanto ele se mantiver vivo, o mico leão dourado não será extinto- garantiu um ecologista.
Tenho um amigo que entrou nessa. Chegou para o cirurgião disse:
- Doutor, quero fazer uma "lipo" nesta barriguinha pra ficar com o corpo do Brad Pitt, aquele do Tróia, o senhor se lembra ?
O médico olhou para barriga-barril do pretendente a galã e disse:
- Meu amigo, se isto fosse possível você acha que eu carregaria a minha própria barriga de chope? Tanto para o seu caso quanto para o meu, só com operação e depois tem que se usar uma cinta- aquela usada pelas mulheres- amarrando a cintura por vários meses. – O aspirante a galã desistiu.
Uma amiga de minha tia fez uma plástica no rosto e ficou mais esticada que couro de tamborim. Achou que ficou linda e para dar acabamento final resolveu pegar um bronze em Caldas Novas. Deitada na cadeira ao lado da piscina passou a dormir. Só que seus olhos não se fechavam. Chamaram o médico do clube pois instalou-se o terror: com tais olhos arregalados parecia uma defunta das mais pavorantes.
Antigamente ninguém confessava que havia feito plástica:
- Este nariz herdei do papai, os olhos puxados da minha mãezinha!- disse uma coroa de idade indefinível de sarcófago.
- Ah, querida, eu não sabia que seu pai chamava-se bisturi e sua mãe silicone! -respondeu a amiga, exalando veneno.
Outros fazem compromissos para todos os meses de julho:
-Julho, é o mês que faço a minha lipo! Não abro mão, a minha beleza em primeiro lugar! Paris que espere!- me garante uma vizinha. E tome cerveja e triture torresmo. Depois de plastificada despede do médico: Obrigada doutor e até julho do ano que vem!
Agora virou moda: Não há festa na qual alguém não diga “vou fazer o peito, os braços e a barriga” ou “Vou tirar daqui (do estômago) e vou por aqui”- apontando para o bumbum. Com isto descobri que o melhor remédio para emagrecer é o bisturi. Mas tem aquelas que não se tocam: pretendem transformar seus 120 quilos de gordura em silueta de manequim:
- Quero que o doutor faça em mim esta plástica porque o meu sonho é ter o corpinho de 55 quilos de Gisele Bündchen para desfilar na passarela; quem sabe o Leonardo de Caprio me carregue para Hollywood.
E tem aquela que entrou com uma ação de indenização por perdas e danos na justiça contra o seu oftalmologista (depois da operação bem sucedida passou a enxergar): quase morreu de susto quando se viu no espelho. Saiu correndo do oftalmologista direto para o cirurgião plástico.
Mas também tem muita gente boa melhorando a sua estampa. Fernando Henrique, pouco antes de ser presidente tirou duas bolsas abaixo dos olhos, pois muita gente jurava que ele era parente do Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro. O seu ministro Pedro Malan pegou carona com o chefe e fez o mesmo, pois suas olheiras estavam como a do Calunga, o secretário do Vampiro.
Existe mulher que se transforma tanto que quando é parada em uma blitz o guarda de trânsito acha que a motorista está com os documentos da avó:
Depois de reparar bem o cara-crachá da condutora do veículo o policial determina:
- Acho bom que a senhora faça uma plástica também na fotografia ou da próxima vez traga a sua avó, mas ela dirigindo o veículo!


Tadeu Nascimento é servidor público e advogado

terça-feira, 30 de junho de 2009

O AMOR DE ANNA DE ASSIS

Por Tadeu Nascimento

Amor sem igual era o de Anna por Dilermando. Amor intenso e trágico que resultou na morte de Euclides. Assim como as tragédias gregas estes três personagens reais viveram a maior tragédia brasileira. A história começou quando quatro dias depois da Proclamação da República Euclides da Cunha foi à casa do major Solon Ribeiro, um dos ícones da Proclamação, pedir sua volta à Escola Militar da Praia Vermelha por ter sido dela expulso por tentar quebrar a espada diante do ministro da Guerra, gesto de rebeldia contra a monarquia. Quando ali chegou Euclides, já famoso no Rio de Janeiro por sua ousadia, chamou atenção da menina Anna Ribeiro, filha do major. Deu no que deveria dar: poucos dias depois se casaram. Euclides tinha 24 anos e Anninha, 14. Tiveram quatro filhos: Eudóxia que morreu logo após o parto, Solon, Euclidinho e Manoel Afonso. Mas Euclides tinha um temperamento austero, um homem atormentado, e que mal dava atenção à esposa. E por acaso, Anna, agora com o sobrenome “da Cunha” era uma mulher belíssima. O marido, engenheiro e escritor, autor de uma das importantes obras literárias que é “Os Sertões”, fora convocado pelo ministro Barão do Rio Branco para delimitar as fronteiras Brasil- Peru- Bolívia. O genial escritor ficou dois anos sem enviar provimentos de sub existência à Anna e aos 3 filhos, tanto que o próprio pai de Euclides em uma carta chama a atenção do filho para que ele cumpra com seus deveres de chefe de família. Pior do que isto, uma mulher belíssima em pleno vigor físico abandonada no Rio de Janeiro.

Enquanto isto Anna e seus dois filhos moravam na pensão Monat na rua Senador Vergueiro, onde conheceu um rapaz louro, bonito e educado, aspirante ao Exército de nome Dilermando de Assis. O inevitável aconteceria. Afrodite, a deusa do amor tecia o seu manto. E tal qual gasolina perto do fogo, a coisa explodiria. Ele com 17 anos, ela com 30. A paixão, com sua força arrebatadora, os arrastaria para a tragédia. Aquela que seria a Tragédia Brasileira. Anna se engravida de Dilermando. Segundo o livro “Anna de Assis” de Judith de Assis, Euclides depois de descobrir que o filho era de outro homem, toma-o da mãe, tranca Anna no quarto e deixa a criança morrer de inanição aos sete dias de vida. O menino recebeu o nome de Mauro.

Anna tenta separa-se de Euclides. Ele não aceita. Anna continua a amar Dilermando e dele se engravida outra vez. Vem ao mundo um menino louro. O escritor Medeiros e Albuquerque escreve em seu livro de memórias: “Nasce uma espiga no cafezal” (Euclides era moreno, descendente de índio). Batizaram-no de Luis. Anna passa a se encontrar com Dilermando no Bairro da Piedade.

Justamente há um século, 15 de agosto de 1909, Euclides transtornado, com uma arma que pedira emprestado a um primo para matar um cão hidrófobo vai lavar sua honra. Bate à porta e é atendido por Dinorah, irmão de Dilermando que o deixa entrar e Euclides, revólver em punho, entra gritando: “Vim para matar ou para morrer!” e atira à queima-roupa em Dilermando que ferido ainda tenta tirar a arma de Euclides. Leva outro balaço, agora no peito. Dinorah tenta desarmá-lo também recebe um tiro que atinge a coluna cervical, inutilizando-o para o resto da vida. Enquanto isso, gritos vindos da cozinha chamam a atenção de Euclides. O atirador parte para completar a matança. Dilermando apanhou o próprio revólver, arma do Exército, e atirou não para matá-lo e sim para amedrontá-lo, quando Euclides se volta para o ataque. “Fuja doutor Euclides, não quero matá-lo”, grita o amante que recebe outra bala no corpo. E depois mais outra. Sabendo que se não atirasse para matar, seria morto por Euclides, atirou-lhe no peito. Foi a causa mortis do escritor. Esses fatos constam do processo judicial que julgou Dilermando. Foram quatro balas em Dilermando e apenas uma em Euclides.

Anna não o condenou e continuou a viver com ele. Solon, o filho mais velho, foi viver com seu padrinho, o então cel. Cândido Rondon na selva Amazônica. Desaparece misteriosamente. Até hoje está insepulto. Enquanto isso, a imprensa denigre a imagem do casal. Acusam Dilermando de assassino e Anna de prostituta. O jornalista Elói Pontes faz campanha para condená-lo. Dilermando vai a julgamento. Defende-o com maestria Evaristo de Moraes. A justiça o inocenta.

Nestor da Cunha, irmão de Euclides, instiga Euclidinho a matar Dilermando. Chama-o aos brios pelo fato de o assassino de seu pai continuar dormindo com sua mãe! Estava Dilermando em 4 de julho de 1916, no cartório de órfãos para resolver questões de um dos filhos de Euclides, quando é surpreendido por Euclidinho que lhe desferiu outros quatro tiros (dois pelas costas). Dilermando conseguiu se armar e atirar em Euclidinho em legítima defesa. Um tiro apenas. Bala de um campeão de tiro do Exército. Evaristo de Moraes volta a defendê-lo e consegue a sua absolvição.

Anna perdoara o assassino de seu filho. Casa-se com ele. Chama-se agora Anna de Assis. Viveram vida calma e tiveram mais três filhos. Embora sob a mira da imprensa que vomitava maldades sobre ela. Entre e perdas e danos por conta deste amor Anna sofreu pela a morte de 4 entes queridos: o filho Mauro de sete dias de vida, o marido Euclides, o filho mais velho, Solon (que se Euclides estivesse vivo não mudaria para o Amazonas) e Euclidinho. Todos tragicamente.

O tempo passa. Anna já completara 50 anos e já não trazia a beleza de antes. Ele não alcançara os 40. O desinteresse do marido pela mulher faz com que Anna desconfiasse de que havia cheiro de outra naquela história. Passou a segui-lo e descobriu seu envolvimento com uma moça mais nova no Bairro do Encantado. Quando se encontraram em casa ela disse a ele a frase que se tornou histórica: “Você é o único homem que não tinha o direito de prevaricar!” Separam-se para sempre. Anna passou a servir marmitas e quitandas para manter a família. Somente se voltaram a se ver no leito de morte de Anna em 12 de maio de 1951, onde Dilermando fora buscar o seu perdão. Às portas fechadas ele a acompanhou até ao último suspiro. Não se sabe até hoje se ela o perdoou. Dilermando que se tornara general morre de infarto no mesmo ano. Anna de Assis teve a audácia de viver uma história de um grande amor em um tempo conservador de moral rígida. Pagou caro por isso, mas viveu a sua história de amor.

Tadeu Nascimento é servidor público e advogado.

Email: tadeunascimento10@hotmail.com